Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012

Sobre promiscuidade e hipocrisia.

A menina moderninha abriu a boca e gargalhou com todos os dentes amostra de uma outra passando pela rua. Quando indagada sobre o porque, ela diz que a outra não se deu o devido valor. Eu, estando ao lado dela, quis entender o que é o "devido valor". Vocês, que me leem de vez em quando, me respondam: O que é o "devido valor"? A menina moderninha era daquelas que se dizem "mente aberta". Daquelas que beijam muitas bocas. Daquelas que bebem um pouco além da conta. Daquelas que são hipócritas ao ponto de criticar a sua imagem em frente ao espelho. Sim, porque era isso que aquela menina andando do outro lado da rua era. O seu reflexo. A sua imagem e semelhança.
A menina do outro lado da rua usava uma saia curta. Tinha alguns erros enormes motivados pelo gosto ao sexo. Alguns amores muito intensos, outros casos de botequim. A menina do outro lado da rua era a minha amiga sarcástica de calça jeans e camiseta. Era só um pedaço de pano a menos e vergonha na cara pra admitir quem ela verdadeiramente era. Era só um 'fuck it all' ligado, e o fato de ter aprendido a virar a cara e esquecer os olhos tortos quando passa na rua.
O que eu sei, sinceramente, é que mente de gente é terreno desconhecido. Não sorri junto com a minha amiga quando a outra menina passou. Talvez se comparássemos os nossos erros, negativo fosse o meu saldo. Talvez se comparássemos a coragem de dar a cara a tapa, eu fosse ao lado dela um gatinho indefeso e ela um leão em fúria. Talvez algumas pessoas extremamente evoluídas e pensantes concordem e entendam a ideia desse texto.

Terça-feira, Fevereiro 21, 2012

O Diabo mora na maçaneta

"Ele mora sim, meu bem, eu já te explico.
Antes eu quero dizer que senti saudades, saudades como há muito não sentia. Dizer que muita coisa mudou e eu também. Estou de cabelo novo, roupa nova, amor novo, casa nova. E você continua aí, me parecendo tão ou mais igual do que era antes.
Saudades de ter saudades da véspera de suas idas e voltas, porque o Diabo também mora na véspera e nos detalhes, mas disso você já sabe.
Mas agora é tudo diferente, ano novo, novas promessas, amigos novos até.
E você aí, olhando pra mim, como quem enxerga o avesso de minha alma. Você que vai ficar aí pra sempre, sem que eu possa te tocar, sem que eu queira a fundo te tocar. E você me pergunta: o que tudo isso tem a ver?
Eu te digo, é fácil: você vai e cada vez que volta bagunça minha vida, desarruma o que tá ajeitado e suja o que em mim está limpo.
Com as mãos sujas, um menino entra no banheiro, gira a maçaneta e lava as mãos. Quando ele sai, toca de novo na maçaneta, sujando as mãos.
E nesse jogo de suja-limpa o menino toca a vida dele. É assim com você: vou tocando a vida entre suas idas e vindas, seus altos e baixos.
E sabe do mais interessante? É que no futuro, depois que a porta estiver carcomida de cupins e as dobradiças de metal estiverem enferrujadas, quando nem o banheiro e nem o menino existirem mais nesse mundo, a maçaneta ainda vai estar ali. Imóvel, suja e eterna."

(Bruno Carvalho - do "A solidão e a cidade")

Sábado, Fevereiro 11, 2012

O primeiro.

"One month is enough time to have nothing serious ... and become unforgettable in one's life"

{Sweet November}

Então, aqui estamos nós. Um mês. 30 dias inteiros. 720 horas. 43200 segundos. Eu sempre achei uma bobagem essas definições de tempo, mas me parece que você tem me deixado meio boba mesmo. Essa nossa paixão despretensiosa, que parecia não dar pé, está durando. E esse é um texto muito mais de agradecimento que de comemoração.
Obrigada, meu bem. Por me estar me dando a sua mão por esse tempo. Obrigada pelas mensagens melosinhas que trocamos todas as noites antes de dormir. Obrigada por ter vindo me ver naquele dia, mesmo tendo só vinte minutos pra isso. Obrigada por ter saído de casa naquela noite em que eu não estava bem só pra me oferecer o seu ombro, o seu abraço, o seu cheirinho no cangote que me arrepia inteira. Obrigada por ter me apresentado pra todos os seus amigos e me deixar fazer parte da sua vida com eles. Obrigada por estar me ensinando a respeitar o tempo certo de cada coisa. Obrigada me dizer todos os dias que você é meu, e que não precisa de mais ninguém. Obrigada por ser esse alguém incrível que é. E obrigada por ter convencido a menina marrentinha que você conheceu no ensaio da sua banda a tomar aquele vinho e ver a lua cheia. Todos os dias, nos meus suspiros baixinhos, eu torço para que hajam luas cheias como aquela por muito tempo em nossas vidas.

Terça-feira, Janeiro 31, 2012

Nós.

- O que é que nós temos? Que nome nos define?
- Definamos como um romance. E um romance muito bonito.

"É só pensar em você que muda o dia..."

Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

As marcas de amor nos nossos lençóis.

O hoje acordou de cara diferente. Cara de paixão. Te olho e noto que quero ficar. Lembro de todas as palavras fáceis que trocamos na madrugada passada e pareço explodir de vontade de você. Mas te confesso, meu bem: Somado a essa felicidade imensa, cresce também algum medo. Medo de estar apostando fichas demais nessa história. Percebo que a tenho já acorrentada ao meu tornozelo quando sem querer deixo escapar um "meu amor". Você me diz o quanto foi bom ouvir isso, me abraça e me confidencia também "você me dá tudo que preciso". Eu devo acreditar nas suas palavras se nem sei ao certo o que nós somos? Me diga, moço, o que somos? Fizemos um acordo sério de fidelidade, mas não temos sequer um nome que nos defina. Não que o nome seja o mais importante. Na verdade, não é. O teu coração é que é. E ontem, quando ele acelerou, quando os teus olhos brilharam, eu entendi que te quero por perto, que te quero comigo, que te quero em mim. Então me diga que você é real, e que não me deixará a ver navios como já estive antes. Eu tenho cicatrizes enormes no meu coração. Muitas, ao esbarrar, ainda sangram. Mas você tem dado aos meus dias cores que eu achei que eles não teriam mais. Nada é mais gostoso que o teu abraço quente, teu beijo de leve nos meus lábios, as tuas crises bobas de ciúmes, e as tuas frases melosas de carinho. Nada me faria tão bem quanto poder te chamar de meu.

Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

Querida Beatriz,

"Perdoe-me a ousadia de lhe escrever como se ainda fosses ler, mas as coisas andaram tão ruins menina, que nunca se sabe no meio de que porre vou querer saber como é voar e pular de alguma ponte. Te escrevo por puro hábito, por ser a ti a quem eu recorria quando ficava difícil demais sorrir, quando tinha medo de mim. Então… as barras andaram pesando por aqui. Na verdade desde que te fostes não tive muita paz. Umas festas memoráveis, umas conversas maravilhosas, uns livros inspiradores, uns arrepios fortíssimos, mas de paz, paz mesmo, muito pouco experimentei. (...) Andei pensando em desistir, não com aquele ímpeto infantil e ingênuo, mas como uma coisa que sei que é fato consumado, só com data a definir. (...) Tu és uma boa parcela dos motivos pras minhas últimas crises existenciais que me deixam tão fraco quando um subnutrido de fé. Tudo tem me doído até a última gota. Tudo tem me exigido demais. Mas se tu me perguntasses o que me aconteceu, agora, pra eu querer vislumbrar o fundo do rio que a ponte atravessa, eu não saberia dizer. Dentro de mim acontece de tudo, tu sabes, das mais bonitas magias às mais desprezíveis culpas. Mas fora… ah, fora pouco me importa. Tirando essa gente com vício de me deixar (tu inspirou muita gente) pouca coisa que esteja diretamente ligada a mim me afeta. A dor do africano com fome sempre vai, mas isso é de mim, tu sabes (ainda sabes?). Essa carta era pra soar otimista, mas tem me faltado forças pra criar essas coisas… só quero dizer que ainda assim, me admiro com o tamanho da força que tenho. É como se ela esperasse eu ficar caído com o rosto no asfalto pra de repente surgir com um ímpeto magnífico. E a sabedoria que vem de brinde, essas coisas, tenho tentado me encher de luz, anda tudo muito escuro. Sinto tua falta, sempre, mas nunca admitiria a ti. Sou forte e implacável, ou é isso que tento te dizer enquanto sorrio. Tu dizias que a gente se pertencia em todas as dimensões, quem sabe algum dia eu resolva testar a próxima.

Te cuida guria.
Eu continuo tentando
(ainda que às vezes doa… ou sempre).
Carlos”

(Clara D.)

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

De capuz e foice.

"E depois de um dia difícil
Pensei ter visto você
Entrar pela minha janela e dizer:
- Eu sou a tua morte
Vim conversar contigo"

Havia um pequeno corpo animal morto no meu quintal. Era uma imagem triste para as sete da manhã. Há menos de um mês, quatro gatos haviam nascido nos meus aposentos. Todos muito fracos, como se esperassem apenas o momento de ir embora. Durante dias, eu observava a respiração de cada um deles para notar se ainda havia vida. Lizzie era a última. Agora, estavam todos mortos. Ontem mesmo, eu falava sobre a morte das coisas. E sabe, ultimamente a morte tem caminhado próxima dos meus dias. Talvez eu esteja sendo macabra demais, mas ela não me assusta. É como um conformismo. Como se a minha atitude e inquietação diante dela também morresse. Como se eu estivesse entorpecida. Não me é confortável, como cantaria o Waters. Mas o conforto também já não me importa. Os dias passam estranhos, há términos por todos os cantos. E não há lágrimas. É gelado como um cadáver. É como sentir muita sede, abrir uma garrafa de leite, e no terceiro ou quarto gole, notar que ele está azedo. Fechar a garrafa. Ainda assim, não vomitar, não ter indigestão alguma. Só saber que o leite não servia, e que permanece se misturando ao corpo inteiro. É como pular do penhasco e lembrar que estou de pára-quedas, mas não sentir alívio ao pousar os pés no chão. É como assistir de platéia a minha própria peça. É como estar indo embora o tempo inteiro, mas não partir nunca.