segunda-feira, abril 09, 2018

Poema da permanência

Eu, caçadora voraz do teu gosto
Farejadora sagaz do teu cheiro
Invariavelmente sua, em desatino

Peço aos céus que o tempo não passe
Enquanto cato os pedaços tortos de amor farto
Que vais deixando por aí

Como se deixasse qualquer coisa
Como se desejasse comer os minutos do tempo
Como quem não percebe o tumulto que faz

Deitada sobre a imensidão do teu carinho
Eu te trago
Trago de trazer
Trago de tragar

Me perdoe
Por não saber dar amor em doses homeopáticas
Por falhar em ser café pequeno e frio

É que assim como não saberia te trair
Reter todo esse oceano de sentimento
Seria trair a mim mesma

E (você sabe)
Eu nunca fui dada a infidelidades

segunda-feira, janeiro 22, 2018

O amor é um jogo perigoso, me disseram

Corri sobre os espinhos atenta ao prazer 
Enquanto a dor me colocava inválida

Pés descalços e sangrentos e paralíticos
Pulsos serrados e flores mortas 
Os teus cabelos enrolados no meu pescoço
E o grito de quem quase sufoca mas permanece
O amor é um jogo perigoso, me disseram
Dessa vez foi sussurro de um monstro que falava sobre mim
Da inutilidade e invalidez 
 Do teu desejo de amar outros corpos 
Da tua impermanência no meu estado de carícia
Da face rubra e sombria do ciúme

O amor é um jogo perigoso, me disseram
Te espirro doçura e broto feito flor diligente no asfalto
A tua pele é quente e seca
O teu olhar é doutro canto qualquer
Que não as curvas mal desenhadas do meu corpo 

Participo como expectadora dos detalhes 
O presente que habita o peito da beleza, o filme na madrugada
O riso farto dos amigos, o afago dançando tranquilo por lá 
O tempo quebrado do meu sonho de ser gente

Peço-te palavra legítima e propícia
Mas tudo que tens é combustível para minha loucura
Quero querer o desquerer 
Mas só sei morrer servindo de alimento para o cão do teu descuidado

O amor é um jogo perigoso, me disseram

quinta-feira, setembro 14, 2017

Súplica n° 1

fazem só cinco minutos que você desceu as escadas do meu prédio e eu fiquei te olhando aqui da minha janela, vendo seus cabelos dreadlooks balançarem enquanto você dava passos largos. o primeiro ímpeto é o de sentir saudade, vazio e grandeza nesse apartamento de 5x5. mas logo a angústia vai embora porque sei que você volta. é só chamar. na semana que vem, quando já não pudermos mais ser chamados de algo que remeta a qualquer seriedade, você volta. você sempre volta. com a mesma cara lavada e o mesmo corpo leve. esse corpo de homem. cheiro de homem. gosto de homem. e eu vou abrir a porta pra você todas as vezes. fingindo que amarrei displicentemente os cabelos como se não tivesse olhado aquele espelho mil vezes. fingindo que "one love" do u2 tocou no aleatório. fingindo que pus aquele camisão pra ficar à vontade, quando na verdade eu só queria que você falasse sobre a minha calcinha à mostra. e você fala. você olha. você me beija a boca e os pés. os pés. esse carinho devotado que os meus amigos comentam e que eu tento encaixar nas tuas frases frias por essa tela de sete polegadas. e mais ainda nas quentes. eu me perco e me pergunto o porque da sua presença tão forte nas minhas horas.

aí eu lembro que você é um pássaro livre e que jamais pousaria na minha mão por mais de uma noite. e no meio dessa sua cara de pau eu vou tentando encontrar coisas que me digam que sou só isso. uma amiga fiel, uma distração eficiente, uma fuga da realidade dura de tentar ser quem você não é ou aquela foda boa, fácil e de graça que te faz voltar pra casa sorrindo e ouvindo The Black Keys.

terça-feira, março 07, 2017

Mulher é resistência

Eu nasci. Nasci e deram a notícia: mulher. Quando dei por mim, gostei de ser. Mas algo parecia não se encaixar. Me fizeram fêmea. Me guiaram com voz mansa: - vem por aqui. Cruzei os braços e não fui. A voz se metamorfoseou num grito de brutalidade. Logo me disseram que era do ser homem a força bruta. Fui entendendo e não me encaixei. Queriam de mim a subserviência de Amélia, mas fui militância de Pagu. Desviei do caminho proposto. Descobri, que mesmo quando parecia clara a resposta, ela era imposta. Desfeita a venda que me punha cega, gritei: Eu sou Simone de Beuvoir! Eu sou Frida Kahlo! Eu sou a moça que teve sua privacidade violada. Eu sou a menina que é julgada pela sociedade por se relacionar com muitos homens. Eu sou a noiva que não casou virgem. Eu sou a mulher que é chamada de frígida por ainda ser virgem. Eu sou a fã que pediu pra ser estuprada pelo ídolo porque entrou sozinha na sua van. Eu sou a estudante barrada na porta da universidade por estar com um vestido curto demais. Eu sou a adolescente gorda que sofre de depressão por não estar dentro do padrão de beleza. Eu sou a menina que morre de anorexia buscando ser aceita. Eu sou a moça que ganha um salário inferior ao homem que exercita a mesma tarefa que ela. Eu sou a moça que mente sobre o que faz para não receber olhares de reprovação. Eu sou a moça que ouve "gostosa", "que delícia", "quero te foder" todos os dias na rua. Eu sou a transsexual morta a facadas e jogada num terreno baldio. Eu sou a menina que perdeu a virgindade com o rapaz que só queria contar vantagem por isso. Eu sou a mulher periférica que morre numa tentativa de aborto. Eu sou a prostituta que é violentada por "não ter um trabalho digno". Eu sou a moça esmagada pela baixa auto estima. Eu sou a "menina para se divertir" e não "menina pra casar". Eu sou a criança molestada pelo pai, pelo tio, pelo padrasto. Eu sou um número nas estatísticas de violência doméstica. Eu sou a mulher traída que mereceu, porque não cuidou do que tinha. Eu sou a amante que tem toda a culpa, porque seduziu o homem indefeso. Eu sou a cinquentona que "ficou pra titia". Eu sou a lésbica que precisa de cura e de um homem de verdade. Eu sou a esposa que lava, passa, cozinha e cuida dos filhos. Eu sou Maria da Penha. Eu sou Chiquinha Gonzaga. Eu sou Nise da Silveira. Eu sou Olga Benário. Eu sou mulher. Eu sou livre. Eu sou minha. E deixo aqui um último recado: Do nascimento até morrer, mulher é RESISTÊNCIA. E a gente já aprendeu a gritar.

sexta-feira, julho 22, 2016

Solar


Eu queria que você quisesse sentar comigo embaixo dessa macieira, que de tão verdinha parece nem ser real. Sentar comigo e falar de qualquer bobagem solta, sem ensaiar as palavras, sem desviar os olhos. Sem pensar em nada de dor. Eu queria que você quisesse amar esse meu amor intranquilo, e queria que você gostasse de parar as minhas mãos agitadas e trêmulas segurando-as forte entre as suas. Que você falasse com veemência essas frases que diz de vez em quando como se elas não fossem fortes e nem me bagunçassem inteira. Eu queria que você sentisse o calor da minha alma perdida no meio dessa frieza sem fim. Que você entendesse que ninguém encontra por acaso nessas esquinas tortas da vida alguém que enxerga com uns olhares tão parecidos. Que você descobrisse que o meu amor é desses que te deixariam desnorteado, aturdido de desejo. Eu queria que você quisesse perder o juízo e o fôlego. Que você me emprestasse as suas horas para sossegar cabeça no meu ombro e cochichar umas besteiras bonitas. Que você soubesse que eu te amo baixinho porque gritar deixaria a mostra todas as minhas mazelas e feridas. E eu não saberia te ser olho marejado nem chaga exposta, meu bem.  

Eu quero te ser domingo de sol e amor de uma vida inteira. 

sábado, junho 11, 2016

Memórias do cárcere

Caríssimo,

Te escrevo hoje como quem escreve num diário: de alma exposta e sem preocupação com a norma. Nem sei ao certo porque escrevo para o seu destinatário, se sei que da última vez em que me pus a fazê-lo as minhas palavras ficaram perdidas numa resposta de silêncio. Talvez porque o silêncio seja já um velho conhecido. Queria não começar lhe dizendo que tudo vai mal, mas o certo é que os dias parecem caminhar prum abismo sem escapatória. O mais engraçado é que eu tenha passado tanto tempo fugindo dessas relações controladoras e agora me veja aqui: refém. Refém disso que chamam por aqui de amor. Todos os bons samaritanos cuidam dos meus ferimentos tanto quanto me julgam merecedora deles. Eu tenho ouvido uns discos e lido uns livros, tenho tentado escrever (mesmo essa carta é um exercício que me dá a certeza de que estou viva e existo), mas tenho tido vontade de pôr fim a tudo por diversas vezes. Algumas visitas me fazem sorrir por uma ou duas horas, só que no fim sou só eu. Ninguém enxerga nos meus olhos o pedido desesperado de ajuda, de uma voz qualquer que se coloque por mim. A realidade é que todos tem os seus próprios cárceres e estão demasiado ocupados para se preocupar com o meu. Eu quis, nos meus sonhos petulantes, um mutirão, um protesto. Depois, quis uma ligação qualquer de alguém que dissesse precisar de mim, quis que uma só pessoa (dessas tantas que no caminho disseram se importar) pudesse pagar a fiança. Mas nada veio. As pessoas perguntam se eu estou bem e se estou sabendo administrar o caos. É nessas horas em que eu me coloco numa auto-análise, como figurante de mim, me avalio, me critico, me desconcerto, me condeno. É nessas horas em que tento fazer da doença uma parte de mim e não eu parte dela. É nessas horas em que a saudade de tudo está à flor da pele, que eu me escondo em pensamentos frívolos, vontades dizimadas, retratos de mim e de lutas diárias, as certezas todas dos dias em que exalava liberdade, tudo me esvaindo pelos dedos, até quando finda todo o depósito de ilusões e estou sozinha de novo. Aí, meu querido... nem eu mesma para me alentar. Bom, peço que me perdoe por escrever como se ainda fosse ler, é das coisas que eu não soube mudar nestes anos. Me perdoe por esperar um dia ouvir o seu assobio do lado de fora dessas grandes, nos meus sonhos insuportavelmente românticos.

Te cuida, moço.
(Eu ainda continuo aqui,
mesmo que às vezes doa... ou sempre.)

segunda-feira, abril 04, 2016

Dos desvarios

"Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
Como se eu fosse um morro iluminado
Por um âmbar elétrico que vazasse dos prédios
E banhasse a Lagoa até São Conrado
E ganhasse as Canoas aqui do outro lado
Tudo plugado, tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos..."


Em que momento eu me perdi? - Me pergunto, fumando o sexto ou sétimo cigarro, num desespero que pensei não me aparecer mais. Essas dimensões exacerbadas e esse platonismo fazem com que eu me sinta uma menina de 13 anos. Mas é aí que a voz da sensatez me faz entender que o passar dos anos mudou quase tudo, menos essa sensibilidade agonizante. Essa mania de guardar as vozes e gestos, de deixar que tudo (tudo!) me tome o juízo e dilacere as minhas certezas. Vago nessas ruas desertas enquanto um punhado de músicas continua me descrevendo (há quantos anos?). Sou toda inteireza de sentir. Essas pessoas se abrigam em mim, só que na realidade são como ventania que passa muito muito rápido. No mundo real, sei que sou nada. Mas na fantasia é que desatino. Deve ser característica nata dos sensíveis fantasiar. E guardar em sigilo todo sentimento. Deve ser característica dos sensíveis ser qualquer coisa ininteligível, incompreensível. Qualquer dessas coisas que é nada nada e tudo. Que é sem razão de ser. De algum lugar que de tão tenebroso e feio não sabe ser amor.