sábado, outubro 25, 2008

Daqueles contos baratos de ônibus

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Quando acordei às 6h daquele dia chuvoso, pedi para estar acordando num sonho. Mas os meus olhos ardendo pela insônia da noite passada eram reais demais. Depois da pontada no meu estômago percebi que havia mesmo acordado, e ainda por cima, estava atrasada. Corri para me arrumar e o ônibus já ia saindo quando subi e me vi pendurada na porta, esperando uma mulher de pelo menos uns 80 quilos subir. "Pronto, o que mais pode acontecer hoje?" pensei. O que não imaginava era que viria sim, muito mais pela frente. Assim que passei pela borboleta me deparei com um ônibus que muito bem se compararia a um açougue. Tentei passar para frente, esbarrando, pisando, recebendo milhares de palavras impróprias para as seis e meia da manhã. Mas enfim, consegui. Não seria tão difícil afinal, descer no ponto próximo à escola. Não seria, se eu não tivesse que passar mais 30 minutos suportando em pé uma dor de estômago infernal. Supliquei em silêncio que a moça que estava na minha frente descesse no próximo ponto, mas não. Veio mais um, e outro, outro... e mais outro. E a dor ali, aumentando, incomodando, quase que insuportável. Quando nem tinha mais esperanças, a mulher se levantou, puxou o cordão para pedir o próximo ponto e eu dei um sorriso bobo, aliviado. Mau me encostei na cadeira e vi um homem de uns 70 anos subindo pela porta dianteira do ônibus, mas afinal, eu não era a primeira pessoa sentada num banco preferencial para idosos. Acontece que para meu quase desespero ninguém se compadeceu com o homem, que tinha a feição cansada pela idade avançada que carregava nos ombros. Lá fui eu, levantando e sentindo as conhecidas pontadas no estômago. Depois dos últimos quinze minutos em pé, sentindo náuseas pelo rapaz que havia posto o braço praticamente em cima da minha cabeça com um odor nada agradável, desci. E senti alívio. Apesar de tudo, eu tinha feito a minha boa ação do dia.

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É nessas horas que a gente se pega pensando como o Renato Russo: "Poxa, eu sou um cara tão legal, eu não posso ser doente" :x

Ah, cansada de tudo isso, sabe?! :C

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Baader-Meinhof Blues - Legião Urbana

2 comentários:

Layana Lossë disse...

eu sou daquelas q acredito q esse tipo de (boa) ação sempre traz uma recompensa. nem que a recompensa seja somente o seu ego massageado, certo de que, apesar das suas próprias dores, você se compadece com as dores alheias, e procura fazer a sua parte para melhorar o dia do outro (mesmo que ele não demonstre gratidão)

só o fato de pensar "é, eu sou uma pessoa legal" às vezes já vale.

ah, sim: parabéns, você é uma pessoa legal :)

Amanda disse...

Lembra quando eu disse que você me fazia exercer fé e esperança nas pessoas? Pois bem, você ainda está fazendo isso. Sinceramente, não foi surpresa ver a posição que você tomou e a necessidade que cedeu. Isso me faz lembrar nossa primeira conversa.. Você me disse que amava demais, e que se ferrava depois.
' (21:46) ­' n α n ι n н σ: faça o que pode por qualquer um; mas só faça o que não pode por aqueles que retribuem o que voce dá.'
Vir aqui e ler seu blog me fez ver do que você é capaz; você fez mais do que pôde por qualquer um, mesmo quase não podendo. Admiro sua força, admiro sua humanidade, admiro você. Sinto que às vezes você quer simplesmente sentar no banco e ignorar o senhor de 70 anos, mas você é maior que isso, agora eu vi. Pode parecer só ética ou que você tá respeitando uma lei, um direito. Mas não, você tá respeitando seus conceitos e valores. Ai, Eva, você é uma pessoa legal - Gostaria que soubesse disso, ♥. E a propósito¹, assim que a gente se esbarrar no msn de novo, vou te propor uma coisa :D E a propósito², desculpa o comentário enorme.