sábado, dezembro 06, 2008

Raspas e restos.

Deitei no quarto ao lado do meu para descansar o meu cansaço naquele dia tão conturbado. Pouco depois de um cochilo, senti pesar na cama um corpo poucos centímetros distante do meu. Haveria de ser a dona do quarto, afinal. Fingi não ter acordado, pois sabia que passar a tarde num calor daqueles nos meus aposentos seria pedir a morte. Ouvi algumas fungadas tímidas e procurei não me importar, mas depois ficou impossível não perceber os soluços fortes e o choro doído daquela mulher de meia idade. Chorava por estar sangrando, e por sua culpa. Havia na madrugada anterior, vomitado um embrião de pouco mais de três semanas. Em pouquíssimo tempo, a moça desaguava lágrimas doloridas como as de uma mãe que perde o filho na guerra. Pior, de quem dispara a bala de canhão e vê o pobre desfalecer banhado em sangue. Sangue, sangue, sangue! Havia muito sangue mesmo sobre aquela história. E todas as vezes que ela o visse lembraria da criança que matou. Que tinha olhos, boca, nariz, membros, exatamente como ela. Pensaria no seu coração batendo dentro do corpo que agora estava oco. Pensaria em quantas madrugadas não iria perder ouvindo o choro do menino (ou seria uma menina?). Pensaria no sorriso infantil que não abrilhantará a sua vida. Levantei o olhar para ela, e recebi a notícia de que havia perdido a criança pelas preocupações daqueles dias e só. Eu sabia que não era verdade. Ela sabia. Mas nós fizemos daquela mentira sincera uma verdade perfeita.

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- Faz da mentira seu estandarte. Como se a verdade fosse nada. Como se o seu dia fosse bom -

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Dreaming With a Broken Heart - John Mayer
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"But she's just like a maze
Where all of the walls all continually change
And I've done all I can
To stand on the steps with my heart in my hands
Now I'm starting to see
Maybe it's got nothing to do with me"