segunda-feira, dezembro 28, 2009

Termina, e nasce outra vez.

Fim de ano é sempre a mesma coisa, a voz da Simone nas ruas perguntando o que você fez no ano que está terminando e já nasce de novo. Mas esse natal em especial, eu ouvi a letra da música até o final, pela primeira vez. Então, é Natal, pro enfermo e pro são? Pro rico e pro pobre? Num só coração? Ah, faça-me rir. Pro Branco e pro negro? Pra paz afinal? Desculpe, Simone... Mas não é. E dói perceber como os seres humanos estão cada vez menos humanos. Um arrepio me subiu a espinha quando no fim da música ouvi "Hiroshima, Nagasaki, Mururoa...", como dizer que existe Natal feliz com tão pouco sentimento? Tudo isso por quê? Onde foram parar os velhos ensinamentos do homem mais sábio que já existiu e disse "Amai ao próximo como a ti mesmo."? Tanto egoísmo não serve de nada. Orgulho, pra que? Vamos sorrir, minha gente! Vamos perdoar, vamos amar. Porque a vida é bonita, sim, é bonita e é bonita! Vamos nos dar chances diferentes, vamos viver sem pensar em competir. Porque não há nada melhor que uma vitória conjunta. Nada melhor que abraçar o outro e encontrar uma alma nua, sem especulações. Nada melhor que o sentimento puro, bonito, à flor da pele. Nada melhor que viver e ser feliz. E nós estamos vivos, não estamos? Ei, belisque-se agora, sinta! Você pode levar esse bumbum da cadeira e abraçar quem não abraça há anos, pode pedir desculpas e perdoar. Sorria, vamos! Fomos feitos anatomicamente capazes disso. Sentimentalmente capazes disso. Enormemente capazes disso.

Escapolindo dos lábios

-

Estou com medo de acordar a todo mundo com esses meus dedos pesados que fazem o teclado soar tão alto, mas eu precisava escrever. Fico a todo tempo abrindo a mesma janela pra ver se você foi embora, só que ainda está ali. E hoje eu assisti aquele filme, sabe? Aquele que te indiquei nem faz muito tempo...Ele me deixou sensível, com uma vontade enorme de gritar, de jogar a capa do meu orgulho fora, é algo como se você quisesse voar mas suas asas estivessem presas e machucadas demais, você me entende? Eu queria, queria mesmo te perguntar se aquele dia não pode ser hoje. Sim, aquele dia que a gente sempre se promete. "Um dia...", hoje, que tal? A janela está aberta e venta de leve, o céu me diz que essa madrugada será de chuva, e eu gosto de dormir quando chove. Vem dormir comigo? Acabo de abrir a janela novamente, mas nada. Você está ocupado e seria deselegante falar algo. Sem contar que a chance de levar um "passe-longe" aumentariam pelo menos 80%. Então fico me perguntando porque você ainda está acordado às duas da manhã e cochicho pra mim mesma que talvez você só esteja parado ali esperando mesmo que eu fale, pra que o seu coração pule. Que boba! Claro que não, menina. Não há coração nenhum pulando além do seu. E eu poderia mesmo usar o meu coração para dizer que o ano vai embora já já, que eu não queria continuar assim, sem correr atrás, esperando que o tempo passe e a gente (não) se fale. Esse músculo aqui dentro me irrita essa noite, esse calor, essa insistência...Tudo o que dilacera as minhas veias e explode lacrimejando os meus olhos cansados. Olho a janela de novo, você se foi. Eu, desespero. Sinto vontade de ligar, mas não. Apenas fecho os olhos e mentalizo: dors bien, mon petit.

sábado, dezembro 26, 2009

O outro dia.

-

Alice procurou o celular dentro da bolsa, e discou alguns números. Ocupado. O ciúme lhe subiu instantaneamente, e junto com ele, a velha estima em baixa, a velha dúvida de como ela ainda podia sentir que roubavam de si algo que nem se quer tinha. Ela tinha a cabeça girando e o alcool explodindo as suas veias, sempre que se sentia assim dizia "vou parar de beber, ando passando dos limites", mas uma semana depois já voltava as velhas doses cada vez mais diferentes e loucas. Afogava todas aquelas vontades nos copos cheios, nos cigarros, na música que parecia explodir os seus tímpanos. Assim, ela esquecia de tudo o que perturbava os seus instintos. Mas bastava tontear um pouco os passos para todas as coisas virem à tona, e de pressa levarem qualquer sanidade que ainda existia. Como que por programação, já enviava a mensagem que estava na caixa de rascunhos há tempos, e nunca havia tido coragem de enviar.

Because I love you so much. You're my poison, that
poison makes everyone crazy. I don't know take your smile
of my mind. I still wanna have you.

- Amanda?
- Alice? Amiga, como é que você me liga quatro horas da manhã? O que houve?
- Manda, eu bebi demais, tô na Happy, vem me pegar?
- O que você me pede chorando que eu não faço sorrindo? Chego aí agora, sua bebum!

Alice praticamente desmaiou no banco de espera da balada. E quando acordou, mal lembrava do que tinha acontecido na noite passada. A cabeça explodia e o mundo ainda estava de cabeça para baixo, o café que Amanda tinha deixado na beirada da cama lhe causava embrulho no estômago. Entrou no Messenger, mal se ajeitou na cadeira e ouviu o bipe de mensagem instantânea.

- Ei, você me mandou uma mensagem hoje?
- Só se foi por telepatia, acabei de acordar.
- Às quatro da manhã.
- Eu mandei? Meu Deus!
- Bebeu demais de novo?
- Ah, desculpe César, juro que não vai se repetir.
- Não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que você diz isso...
- Mas agora é sério.
- Depois conversamos, preciso sair.

A cabeça latejou um pouco mais e uma dor fina lhe fisgou o coração. Sentia vergonha, medo, mágoa. Era um misto insuportável de sentimentos pesados demais para uma manhã de ressaca. Chorou, com a cabeça recostada nos joelhos, de vez em quando batendo-a contra os ossos do membro. Odiava aquela insistência, odiava o fato de ter nascido naquele 29 de outubro que havia lhe predestinado tanta sensibilidade, tanta carência. Por fim, odiava-se mais um pouco. O telefone tocou, interrompendo o seu desespero. No visor, o nome do velho amigo, que parecia adivinhar o momento certo de ligar.

-Alô.
-Alô, Lice?! Bebeu todas ontem hein?!
-É...
-Que voz é essa?
-Ah, ressaca.
-Não é só ressaca, Alice, você chorou? O que aconteceu? Foi aquele idiota do César de novo, não foi?! Ah, faço picadinho daquele playboy metido à besta.
-Felipe...por favor...
-Não fale mais nada, minha pequena. Tome um banho, se arrume. Vamos sair.
-Sair? Mas pra onde?
-E quem disse que a gente precisa saber pra onde ir? Embreve você nem se lembrara dele.
-Isso foi uma cantada?
-Não, foi uma promessa.

Deixou que Felipe a levasse para sair. Passearam pela praia, foram ao cinema, depois viram o pôr do sol no MAM. Há coisas que devem morrer junto com a noite, devem ser expelidas junto com tudo o que se põe pra foram. Há sentimentos que não merecem acordar.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Paranóia delirante

Ela era uma menina cheia de sonhos. Sempre havia sido a mais sonhadora de todas, mas paradoxalmente, a mais sensata, madura, à frente do seu tempo. Pura imagem. Toda aquela frieza servia apenas para esconder o vulcão em erupção que havia dentro de Fernanda, e ela fazia isso com sucesso. Manipuladora, tinha aos seus pés todos os homens que desejasse, e quando os tinha, marcava-os para sempre. Mas nenhuma paixão durava muito mais que três ou quatro meses, "Pra sempre é tempo demais...", ela dizia, enquanto já olhava com os seus olhos de cigana para um outro rapaz e se esquecia do primeiro por quem devaneava à dias atrás. Não digo que ela não sentia. Ah, sim! Só que o seu poder de regeneração para com os sentimentos era de causar inveja. "É o signo!", dizia, rindo-se. Escorpiana nata, Fernanda não deixava a desejar quanto as caracteristicas que o horóscopo ditava, era sim, o vapor que resultava do contato entre o fogo e o gelo, o fascínio do almíscar. Mas havia por esses tempos acontecido algo que a garota nunca havia imaginado: Ela estava apaixonada. Não, não era novidade, verdade. Só que dessa vez era diferente. Ele era diferente. Ela, estava extremamente presa ao seu vulcão, e já não conseguia escondê-los quando eles explodiam em sua face, deixando-a rubra. Havia desaprendido todos os truques de sedução. Se via pouco, perto daquele rapaz lindo que parava a sua frente, dentro daquele carro vermelho que mais parecia uma nave e tudo o que ela desejava mesmo era uma passagem para o céu. Aquela passagem, aquele homem, aquele deus de ébano de cabelos loiros, encaracolados e aqueles olhos azuis que pareciam lhe convidar para entrar.
Naquela noite Fernanda estava mais sensível, era de todos os rapazes em anos, o único que ela havia desistido. Desistir não era do seu feitio. Sempre insistente e quase perturbadora, a garota iria ao inferno para conseguir o que queria. Mas dessa vez não. Não podia mais insistir. Aquele homem não a queria, e aos poucos ela foi se acostumando com a ideia de pelo menos um homem na face da terra que não se rendeu aos seus encantos. "Paciência - ela dizia - Virão muitos outros", com os olhos marejados, quase pedindo à rego, quase gritando que ele era louco, que devia ser gay. Mas permaneceu calada e triste. Triste à ponto de desapontar as amigas quando abriu a porta do apartamento de pijama, segurando uma caneca de café.
 - Eu não acredito que você ainda não se arrumou!
- Rebeca, não adianta, eu não vou sair.
- Claro que você vai.
- Eu nem tenho roupa, tô com cólica, quero dormir.
- Você fica menstruada uma vez por semana, Fer?
- Ah, chata. Riram-se.
Rebeca puxou uma roupa do guarda-roupa de Fernanda e fez sinal para que ela vestisse. A menina balançou a cabeça negativamente, puxou uma camisa do Kurt Cobain, um short jeans surrado e um par de havainas.
 - Você vai assim?
- Claro, nós não vamos só passear pela praça?
- Mas...Ele vai estar lá.
- Ele que se exploda.
- Fernanda gritou batendo a porta do guarda-roupa com força.
Mal chegavam a esquina e a garota já tinha os olhos brilhando. O viu de longe, já passava tanto tempo olhando para aquele "monumento" que podia reconhecê-lo a quilometros de distância. "Havia mais que o desejo da boca e do beijo", o Djavan se tornava perturbador. Passou a música rapidamente e deixou que a voz poser do mais novo cover da Madonna tocasse nos seus timpanos, mas mesmo a Katy Perry lhe dizia o que ela não queria ouvir. "You know I like my boys a little bit older. I just wanna use your love". Guardou o mp4player. O rapaz olhou para o lado e os seus olhos pousaram na garota. Se não fosse o seu pessimismo, veria que os dele também brilhavam. O coração de Fernanda acelerou quando ela viu Alan levantar do banco da praça e ir em sua direção. Respirou fundo, lembrou de todos os quesitos e esqueceu a raiva. Sorriu provocante e o fitou. Pôs a mão na sua nuca e beijou o seu pescoço.
 - Menina, pare com isso.
- Por que, Alan, você não é inseduzível?
-Eu disse que não tenho alguns sentimentos, o que não quer dizer que eu seja inseduzível.
- Mas você, sendo seduzido por mim?
- Isso é completamente possível. Aliás, provável.
Um arrepio lhe subiu a espinha. É, nem tudo estava perdido, afinal. Fernanda voltou a fitar o garoto que não lhe deu tempo de pensar. Terminou a frase num beijo. O mundo poderia terminar ali, que não haveria problema algum. Ela navegava naqueles azul maravilhoso sem pudor. Num movimento leve, Alan puxou as chaves da tal nave vermelha.
- Você tem horário pra chegar em casa?
Não, ela não tinha. Era suficientemente independente para fazer o que quisesse.
- Não tenho não.
- Então hoje você vai para a minha.

E Fernanda comprou a passagem para o céu, afinal.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

P.s: I love u.

Ela: Eu não posso. É como se eu quisesse comprar um sapato novo, mas ele não me serve.
Ele:
Então que tal ficar descalça por algum tempo?

[P.s. Eu te Amo - filme]





Simplesmente porque esses tempos eu tenho mesmo querido andar descalça, sabe? Mas acho que agora me ponho como a ala masculina da história. Meu peito quer baforar o convite que explode por aqui. Vem andar descalço comigo? Por que não se arriscar? Juro que só te daria uma caminhada, e todo o resto será por conta da sua vontade, vontade que eu sei que se tornará grande como a minha. Chega de contar vantagem! Quero ver você me provar toda essa perfeição que divulga para os meus ouvidos. Atitude, você tem? Então venha. Toque aqui agora, e me prove o quão bom você é.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Eu já não quero acordar.
























...me agarra na cintura,

me segura e jura que não

vai soltar.

Eu já não quero um sinal, já não desejo que me diga nada, não quero ouvir. Tenho medo, sabe? Em poucas palavras você pode colocar por água à baixo todos os meus sonhos. E é tão bonito sonhar... Quero mesmo é falar de você e sentir vontade de cantar. E lembrar do teu sorriso lindo, dos teus olhos feito pérola, da tua boca me dizendo que não ia me largar. Enquanto eu, tímida, apenas pensava em mil frases diferentes pra te dizer, não dizendo nada. Talvez nem precisasse, meus olhos lhe diziam tudo. Eu sabia que naquela hora os tais olhos de cigana que você comentou dia desses estavam marejados e sedentos. Sabia que num só olhar eu quase lhe tirava o fôlego e a roupa. E me é bom por demais lembrar de tudo assim, sem mágoa. Sentir subir o calafrio ao lembrar do seu olhar cruzando com o meu quando os acordes do violão tocaram, olhar que permaneceu me seguindo durante a noite, que me conduziu, me prendeu, me controlou. E como num jogo, trocamos de posição muitas vezes. Preciso de muito mais que isso, verdade. Mas quero lhe dizer que esses suspiros não podem passar, e tudo deve permanecer bonito. Pois eu já me cansei da valsa triste, quero tango! Sedutor, quente, inebriante, eterno. Não, não...Eterno é tempo demais. Eu quero o tempo de um passo em duo. E outro, quando os pés sapatearem no salão, pedindo aos corpos que se juntem e se descubram e se envolvam até a nova dança começar.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

- ENTRA -

Pode entrar que a porta tá aberta
E deita na cama, seu lar, meu ser
Se quiser até fica
para sempre
Faz meu
existir valer a pena
Faz meu ser, ser feliz, com o teu ser
Brinca comigo, como se não fosse nada
Me transforma no que quiser
Me deixa na forma do seu brinquedo favorito
E não me guarde no armário ou no velho baú
Me aconchega no teu peito, e me deixa ser feliz
Assim como tudo ou nada
Assim, pra mim, vale a pena
Mesmo que de brincadeira
Te ter
Faz da minha
súplica
O teu desejo
Descubra-me como quero:
Muito mais que beijo
Desprenda-nos deste engano
Basta-me uma noite
E só um pouco dos
teus olhos
Que se acabe num olhar
E recomece todos os dias
Como um elixir tomado muitas vezes
Pelo mesmo par de amantes
Que como diamantes
Insistem em não perecer!
(Eva Cidrack e Rosângela Pimentel)

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Toda esse beleza que tiveste.

-

Eram sete horas da manhã quando Rafael tocou a campainha da casa de Camila e Letícia. Desejava ver só uma delas, verdade. Mas tinha que se adaptar a ideia de não demonstrar os seus sentimentos, o que só funcionava na cabeça dele, porque fora dela, todos já tinham percebido o seu amor exacerbado por Camila. Letícia atendeu a porta com animação, estava de pé fazia tempo. Diferente de Camila, ela conservava uma vida bastante diurna.

- Rafael, bom dia! Entre...
- Bom dia, Letícia, Camila não está em casa?
- Claro que está, e você não conhece Camila? Deve estar no nono ou décimo sono agora. Mas espere, eu vou chamar.
- Não! - enrubesceu um pouco - Se não for incômodo, gostaria que eu mesma fosse acorda-la.
- Ah, tudo bem...

Entraram no quarto, os dois. Letícia concentrou os olhos na prateleira de livros, para não parecer inconveniente. Rafael parou em frente a cama, deslumbrado, encantado. Como se naquela cama houvesse uma obra prima, uma beleza rara que não se via em anos e anos. Camila acordou assustada.

- Rafael? Meu Deus, eu devo estar horrível! Espere, já volto.

Camila correu em disparada para o banheiro. Nos segundos que corria pensava no porque de Rafael ter tido a infeliz ideia de aparecer justamente aquela hora da manhã. Ela devia estar horrível. Sem contar que o ciúme já lhe mordiscava o coração por ter deixado o rapaz no quarto sozinho com a amiga. Nunca havia admitido, mas morria de ciúmes daqueles dois. Talvez por achar Letícia tão mais bonita, atraente e simpática que ela.

"Muito mais apaixonante, covenhamos", pensava, enquanto arruma os cabelos negros e encaracolados.

No quarto, Rafael já estava sentado sobre o criado mudo sem perceber, o êxtase era tão grande, que ele já não notava muito dos seus movimentos.

- Letícia...
- Oi.
- Ela acorda sempre linda assim?
- Olhe, Rafael... Não. Mas você a verá linda todos os dias.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Esse tal planeta vermelho.

Como duas crianças bobas, como dois ímãs soltos por forças incalculáveis, tudo em nós termina em guerra. É esse tal planeta vermelho mordiscando os nossos instintos nervosos, fazendo de cada desafio impossível de não ser cedido, ou proposto. Mas temos medo, sim, medo do que faria de nós ainda mais distantes, inconstantes, temperamentais. Sei que por ai também ronda aquela velha vontade de 'tentar ficar amigos sem rancor', desperdiçamos muito ainda desse desejo por sermos tão iguais e paradoxalmente diferentes, por tanta inconstância, por tanta imprevisibiladade. Uma mistura difícil, verdade. Só que cada vez mais excitante justamente pela dificuldade. Se livrar dos instintos guerrilheiros? E por quê? Cada carinho é um tiro ao alvo, e de vez em quando, o sangue pinta de vermelho as nossas camisas. Então a gente diz o que ninguém diz. Pensa? Ah, quase nada. Só o suficiente para deixar o outro louco, sem palavras, quase (e essa primeira palavra é mesmo muito importante) machucado. É estranho, mas toda essa briga acirrada nos faz parecer menos sós. Como se à cada levantar de tom, a cada insulto, a cada mania de querer ser o primeiro a dizer a ultima frase que ressoará por um tempo na cabeça dos dois, nós nos tornássemos mais humanos e parecidos, menos indiferentes. E no final? Ah, no final fica tudo no mesmo. Porque afinal, a gente só queria sair da rotina. E para as piores brigas? As melhores reconciliações.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Mistério e solidão.

Porque hoje, era disso que eu precisava.
Ser, apenas ser.

Engraçado, havia esquecido desse comentário, que me arrancou uma curiosidade tremenda na época em que foi postado, e depois a curiosidade for adormecendo, adormecendo e em pouco tempo eu já nem lembrava mais. Só que hoje por uma coincidência dei de cara com ele de novo. Um pouco mais carente que o habitual, desejei um colo. Do tal anônimo, talvez. Ou de qualquer pessoa que entendesse o que há por trás dos meus olhos e do meu sorriso amarelo. De qualquer pessoa que pudesse me olhar e definir plenamente o que há aqui dentro ardendo feito fogo. Alguém que num olhar soubesse muito além das palavras que solto boba de vez em quando, e que fogem da realidade...ah, às vezes sou tão utópica! É, queria ter decifradas as minhas utopias só pra me afogar sem compromisso num abraço. Sem contas pra prestar, sem culpa, sem dor. Hoje a regra 'corpo quente, coração frio' não funcionou, e nem me esforcei pra se quer passar perto disso. Admito: Quero colo, vou fugir de casa, e peço em súplica pra dormir aí, com você. Passo por aí. Ligo antes, pode deixar. Juro que entro sem que ninguém veja. Mas só por hoje, deixe que eu repouse a minha cabeça cansada sobre o teu seio. Sim, mas de quem? Ah, não sei. Só sei que queria atingir a combinação plena de tudo, me sentir completa. Estou perdida em pedaços por todos os cantos. E hoje eu só quero colar os cacos, e descansar. Nada mais que isso, nada mais.

- Que tal aparecer, anônimo? xP

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Perco a voz.

-Alô.
-Pedro?
-Ele mesmo.
-Reconhece a voz?
-Claro! Oi Bia, desculpe não ter te dado atenção no colégio, estava com pressa. O que você queria me dizer?

(Queria dizer que sinto sua falta, só por alguns dias sem te ver. Queria falar dos teus olhos... Ah, os teus olhos! Eles me dizem tantas coisas... Cada linha dourada parece pedinte, parece louca, parece querer tanto carinho que me derrete, e me deixa perdida. Mas os teus braços não pedem, tua boca não cede. Queria te dizer que quando você se recosta na parede e puxa minha cintura como quem diz "vamos, me abrace logo...", e põe a cabeça no meu ombro, eu peço que não termine, e que você não diga que o tempo acabou, que precisa ir, que você não saia pulando serelepe para abraçar outros e outros corpos. Programo estar menos aflita e pareço não me importar, quando você vem e me toma, e me diz que não vai soltar. Mas sempre, sempre solta. Tento não expor os meus olhos cheios d'água. Então você me vem num dia comum e deixa escapar qualquer coisa assim, sem querer, me rendendo um dia cheio de sorrisos bobos. No outro você prefere não olhar para o lado. Queria te falar que gosto da maneira como você joga o cabelo para trás e dirige o seu carro. Queria te dizer que te gosto um tanto de dar medo. Queria te pedir para usar aquela blusa preta que eu adoro hoje à noite. Queria te pedir para olhar nos meus olhos de vez em quando, mas que por favor, não aperte a minha mão daquela maneira de novo. Ou que aperte sim, mas que aperte para não mais soltar. Queria te dizer que hoje eu vou te chamar para sair. Pra que saber aonde ir? Vamos sem rumo, por ai, por onde der na telha. Passo pra te pegar às 7h.)

-Ah, sim, sem problemas. Está melhor da gripe?
-Sim, sim. Melhorei bastante.
-Que bom!
-Então, era só isso mesmo? É que eu preciso ir ali.
-Ah, claro... Pode ir, não quero te atrapalhar.
-Você não atrapalha.
-Beijo.
-Ãh? Ah, sim, beijo.
-Beijo.

pimpimpim.

- Sempre que estou indo,
volto atrás.(♪)

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Adeus, maturidade.

-

Vou jogar fora a minha maturidade. Não se choque, por favor. Nem deve ser assim tão sério jogar fora essa ponte para a resolução de todas aquelas brigas cheias de acusações infantis. O que eu acho de verdade é que ela anda fazendo um trabalho bonito com as minhas mágoas, afogando-as tão fundo que já nem consigo perceber em que parte do lado esquerdo do meu peito elas se encontram. Mas em dias como hoje, meu Deus! Elas se tornam insuportaveis e latejam de um lado para o outro como se desejassem ecoar, atravessar os meus lábios num grito alto, aquele mesmo que eu preferi não soltar, aquele que eu escondi com o meu antigo 'tá tudo bem...' e algumas lágrimas. Só que hoje as mágoas querem berrar. Dizer que não, eu não entendi nada daquilo. Dizer que eu queria correr e abraçar, e dizer que amo, sim, que amo mesmo. Dizer que aquele discurso foi pura imagem. Eu quero mandar embora a maturidade e todas as minhas mentiras sinceras, tão convincentes que até eu custo a acreditar que são falsas. Quero dizer as minhas verdades agora. Quero baforar por ai tudo que escondo, tudo o que deixo para mais tarde, tudo que espero que aconteça. Vou jogar fora a minha maturidade, e tenho dito.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Olhos - Claros como o dia.

-

"Oi, eu não posso atender agora, deixe o seu recado depois do bip". Essa era no mínimo a décima vez que Rafael ligava para ela. Tinha entendido, afinal, que não havia ninguém em casa, mas depois de um tempo ligava mesmo só pra ouvir aquela voz que lhe parecia pueril por demais, mas que de vez em quando se tornava grave e ele ria-se pensando "coisas da idade". Abriu a porta do apartamento e antes de qualquer coisa ligou o notebook que parecia mesmo pedir para ser ligado. Conversas no Messenger eram a sua diversão de todas as noites. Sem baladas ou barzinhos, e agora sem nem tefonemas com mil convites. Todos os seus amigos já haviam aprendido: Ele havia mudado. Há algum tempo já não saia, não passava todas as noites em farras, não acordava no outro dia na casadaputaquepariu porque tinha posto a comida das últimas três semanas para fora. Não adiantaria ligar, implorar, ou mesmo arrastar Rafael para fora de casa, ele não sairia. Tomou um banho rápido e sentou-se no sofá, tragando o oitavo ou nono cigarro do dia. Em muito pouco tempo, o bipe que ele esperava ouvir soou.
- Quero te falar algo.
Alice. A menina dos sonhos de qualquer homem. Tinha cabelos loiros que se enrolavam entre os dedos de Rafael nos mais secretos sonhos. Olhos azuis impossíveis de ler, e um corpo que parecia esculpido milimetricamente. Agora, a menina havia de lhe dizer algo. Como controlar o coração que já pulsava involuntariamente? Esperou as palavras aparecerem na tela, as imaginou lindas, em poucos milésimos de segundos. Mas essas demoraram mais do que ele esperava.
-Digita...
-Não.
-Por que não?
-Porque não é o que eu quero dizer. E o quero, não consigo escrever.
-Posso te pedir uma coisa?
-Pede...
-Me diz as coisas... Me diz tudo o que você quer dizer, não fica com tanto medo, ou vergonha... ou seja lá o que for, nem que a gente tenha que fazer um trato de que eu vou esquecer se você nao quiser que eu lembre. Eu só quero que você me diga, porque talvez eu precise ter de você algumas palavras pra segurar tantas outras que eu solto.
-Eu vou tentar.
-Tenta agora?
-Agora não.
-Eu ia pedir justamente que você não me dissesse não...


O usuário parece estar offline.

Mágoa.

"Queria esquecê-la. Queria traí-la. Trancá-la lá fora sem pena da chuva. Deixando-a molhar como pano de porta, que sem borda aos poucos se encharca. Queria poder juntá-la com as mãos e com desespero de marujo perdido, arrancá-la para fora do barco. Deixá-la à deriva em companhia das ondas. Ela que se salvasse. Que se afogasse lentamente na imensidão fria dos mares. De longe eu acenaria em meu iate invencível, lamentando por não ter feito isso há mais tempo. Feliz por ter extirpado todo o tumor. Chegaria em casa tranqüila, talvez cansada da viagem. Tomaria uma Novalgina e iria cheia de graça pra cama. Sonharia com cores impossíveis e palavras ainda perdidas. Acordaria plena. Descansada. Completamente feliz. Escreveria meus versos roubados do invisível e ouviria os sons capturados do mundo. Prosseguiria vivendo a procura do irreal e do permitido. E seria feliz se não fosse a falta que se alojaria no peito (...) a reclamar junto com a lua sua ausência."
Alice Venturi

terça-feira, dezembro 01, 2009

Desabafo não poéticoIII


Sinto náuseas, meu estômago pede à rego e minha mente gira um pouco. Sinto tanta raiva de mim, e de tudo. Sinto vontade de fugir, de correr para algum lugar onde eu seja verdadeiramente livre. Eu não quero nada, nada, nada disso! Eu não aguento mais. Tá tudo tão complicado dentro e fora de mim... Enquanto as minhas lágrimas amarrotam o papel e a música toca nos fones eu me sinto tão fraca, tão pouco querida e desejada, e tudo me parece tão frio, mesmo quando ardo e meu suor me incomoda por demais. Continuo sendo nada mais que uma menina louca que se perde no vento e em alguns copos de cerveja gelada. Gelo para o fogo. Gelo para o ardor que aqui dentro incomoda bem mais do que achei que incomodaria hoje. Talvez eu precise ainda dizer muita coisa, pra muita gente. Ah, quer saber? Dane-se o mundo. Cansei.

quinta-feira, novembro 26, 2009

De volta à ativa.

Parece que a velha Eva voltou à ativa. Impulsiva, transparente, desbocada. A menina que não tem medo de pular do barranco, de bater a cabeça, que levanta mesmo que sangre e corre para o topo do mundo só pra poder gritar de lá de cima, ainda que depois caia novamente. Controle e submissão foram finalmente riscados da lista diária. Escorpiana, novamente, e com prazer.

(...)

Vassalagem emocional.

E eu me mordo, e mato, me encho de ciúmes e depois peço, como quem pede em súplica secreta pra que você me abrace, pra que você me olhe, pra que você me tome. Que me tomo como aos outros, pelo menos. Mas não é, e o que parece é que não há de ser. Talvez mesmo pela súplica, pelo pedido. Por saber que de maneira alguma você se renderia a minha vontade, às vezes finjo. Mas não é meu dom esconder desejos. Fique perto, pelo menos, só um pouco. Ou será que os seus jogos de desejo te impedem de tentar? Não quero pensar nisso, nem quero achar que os teus sonhos são meus. Não quero achar que você me quer contigo. E quero ser sua apenas como os outros, custa? Me é suficiente ser. Então, por favor, seja. Ah, esqueci! Não posso pedir, perto de você não posso ser nada do que verdadeiramente sou.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Eu vou lá, eu vou lá, eu vou lá.

Arte por: Amanda Luz.

A submissão deveria ser um pecado. Não, nem isso. Pois ainda que fosse, eu iria em frente. Não há mau nenhum em estar chorosa, pedinte, sensível. Mas não receber nada em troca é frustrante. Acho que vou parar de ler horóscopos, porque eles estão me iludindo. Me fizeram acreditar que sou uma sedutora imbatível. E talvez seja. Você agita quando provoco, é quase submissa em momentos decisivos. Mas não tenho você. Não domino, não controlo. Horas apago você, e é quando você se coloca distante. Outras sou insuficiente para lhe conter e me torno insignificante. Mas a pior de todas as horas é quando me torno cansativa. Quando sinto que a minha submissão não atrai. É aí que vivo do maior de todos os meus erros: Amar em demasia.

segunda-feira, novembro 23, 2009

sábado, novembro 21, 2009

Por onde a brisa for mais leve.

- Ei, tudo bem com você?

- Tudo sim... tirando algumas coisas do coração. E com você, como vão as coisas? P.s: Adorei o seu texto do whisky.

- Coisas do coração são complicadas mesmo, também ando num turbilhão delas esses tempos. Eu tô bem, tirando o turbilhão, certas horas bem até por ele mesmo...Ah, que bom que você gostou do texto do whisky. Acho que whisky é A bebida pra os textos na vibe daquele... Pra dar coragem, né?! É sempre bom.

- É. Para quem não sentia nada e passa a sentir um pouquinho, é sempre complicado: novo demais assusta.não vejo nome melhor pr'aquele texto do que whisky. Fale um pouco sobre o turbilhão que estais vivendo. Vamos compartilhar de nosso mar agitado.

- Vamos supor que eu esteja num barco, no mar, sabe?! Naquela ideia de navegar eternamente... Mas nós sabemos que muito azul cansa. E eu andei me encantando por algumas ilhas, por uma em especial, só que as ondas do mar me impedem de chegar lá. E me dizem que se eu for, não vai ter volta. Mas me fale de você, agora! De como você anda remando...

- Vamos supor que eu, uma boa capitã de navegação, esteja me perdendo frequentemente sobre as ondas de um mar novo, cheio de mistérios. Não sei pra qual lado seguir, que rumo tomar e sinto que se simplesmente me atirar ao mar, vai fazê-lo recuar mais do que me afogar. Então, paro, analiso, escolho um rumo e continuo perdida. Alguns ventos pareccem soprar a favor, mas é tudo tão duvidoso que não continuo sem saber.
Me sinto menina nesse mar novo. E sinto maldade na alma ao ver uma outra embarcação tentar se aproximar. Eu ainda estou a frente, mas essa nova embarcação me incomoda. Talvez, a solução seja ser pirata. Piratas não precisam de um rumo certo, simplesmente vão atrás do que querem, certo? O que me diz?

- Eu concordo! Até porque, sinceramente... Sempre fui meio pirata!

- E sobre essa ilha encantadora. Prefere se aproximar ou se afastar? Acho que investiria contra as ondas, mesmo que custasse minha embarcação. Sinto que se sua embarcação afundar, terais força para construir uma outra e ainda mais forte.

- Me indentifiquei com o seu "e sinto que se simplesmente me atirar ao mar, vai fazê-lo recuar mais do que me afogar. ". Eu não sei o que prefiro... tenho medo de ser expelida pela ilha. E estar sem barco para voltar ao mar, que talvez já nem me queira navegando por lá... Acho que estamos meio perdidas, não é?

- Estamos completamente perdidas. O que nos resta fazer?

- Que tal vencer o medo?

- Se você se arriscar, eu me arrisco. Até pra não estarmos sozinhas nessa.

- Que tal um whisky?

- Garçom, um whisky para incentivar a coragem dessas duas moças aqui.

02.

- Uma ilha em especial é? aiai.
- Olhe, ilhas tem muitas, mas tem um em especial que é muito atrativa. Acho é meio paradisíaca... E afrodisíaca também, convenhamos.
- E que ilha é essa? Afrodisiaca... nossa!
- É, foda é que eu nem conheço a ilha, e pode ser que ela nao seja nada disso. A ilha nao vem ate o barco, ne? É o barco que tem que ir até a ilha. O medo é ser expelida da ilha, do mar e de tudo mais...

(...)

- Mas eu faria dela uma senhora ilha...

sexta-feira, novembro 20, 2009

Ser-te paz.


"Quero ser o teu amigo,
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz..."

(Fernando Pessoa)

terça-feira, novembro 17, 2009

Um dia serias borboleta.

Hoje...Ah, hoje você me pareceu tão segura. Pareceu mudar. Hoje... Hoje você não chorou, comentou que estava fria, recusou um afago mais quente, quase me mandou ir embora. Hoje percebi que já não tenho posse alguma sobre você. Acabou, não foi? É, acho que agora você pode voar. Hoje ao te abraçar pude sentir asas crescendo nas suas costas, ainda pequenas, mas elas me pareceram tão fortes... Talvez esteja mesmo na época de voar, borboleta. Já que o vento te puxou pra dançar, e já não és flor, permita-me que eu, beija-flor, levante vôo para outro canto. Então te deixarei voar para longe sem que volte aqui para duvidar ou descansar. Deixarei que descubra mil arco-íris e possa roubar o pólen de outras flores. Se numa dança com o vento ele te pisar o sapato, volte, fique mais. Mas agora o ritmo ainda é quente, a cidade não para, quem dirá você, não é? Voe, voe bastante. Só não se esqueça de devolver o meu coração.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Não se [es]vai.

Era de manhã bem cedo quando o sol invadiu a janela e me arrancou da cama. Minha cabeça pesava como chumbo, meus olhos ardiam. Mas não foi esse o problema do dia. Antes houvesse só a doença. Só que me percebi mais distante da racionalidade do que deveria estar. É tanta a confusão por aqui que às vezes pareço enlouquecer. Certas horas vacilo e comento algo sobre a minha carência insistente, outras finjo não querer ficar, abraçar, entender, descobrir. Me pergunto por onde anda o lírio que há algum tempo joguei fora. Talvez com as pétalas tão perdidas quanto o meu pensamento, como as rosas vermelhas que misturadas ao vinho tinto quase embrulham o meu estômago. Tento testar a força do meu pensamento, brinco com o horário e desejo prioridade, mas depois ponho todos os meus sonhos na garrafa e eles se fazem rubros de bebida e sangue. Então, aqui dentro grito 'Pare!', mas nada pode estancar o meu pensamento, não posso intervir nessa febre que não passa, nesse soluço engasgado e irritante. Só sei ser assim. Pelos menos por agora, é só o que sou. Amanhã posso conseguir realizar os jogos que escrevo firme no papel. Mas por hoje o meu rosto permanece em brasa. Por hoje eu permaneço carente. E por agora, eu prefiro me esquivar.

domingo, novembro 15, 2009

Uma dose de whisky.

A festa estava passando, afinal. E para maior alegria, com a companhia desejada. Mas não estava completo esse estado de espírito, pois o desejo era estar mais perto, mais amante, menos amigo. A garota pediu que fossem sentar fora da casa, que conversassem, que ficassem juntos.

- Vamos sentar ali. - falou, apontando para o passeio vizinho.

Mas havia alguma força ali que os puxava para perto. Eles trocavam olhares pedintes, ainda que não falassem. Ele a recostou na parede, ela sorriu, mesmo estando assustada, com medo do que aconteceria naquele momento. Ele vacilou, e deu-lhe apenas um selinho rápido.
- Você não entendeu mesmo o combinado, não é?
- Mas que combinado?
- Nós combinamos que você teria paciência.
- Eu te peço poesia, e você me pede paciência!
- Pressa combina com dor.
- Você já sentiu muita vontade de alguma coisa?
- Claro que já.
- E conseguiu não ter pressa de alcançar?

Fez-se silêncio. Ele sorriu, como que se deliciando com o seu triunfo.
- Vamos tomar um whisky? - Ela disse.
- Pra te dar vontade?
- Pra me dar coragem.

Tomaram o tal whisky. Mas os olhos de escudo da garota pareciam aveludados, impossíveis de serem ultrapassados, e ainda que fossem, eles eram tão diferentes das limitações daquela menina ... dentro dos seus braços, presa aos seus medos, tão menos independente que aquela que ele via todos os dias. Secretamente, ela pedia que ele a desafiasse. Que encostasse novamente na parede, que lhe tirasse o fôlego e não prolongasse a culpa que dentro dela insistia em explodir. Junto com a sua face que passara de cor de pêssego para quase tomate. E o corpo que parecia entrar em erupção, enquanto ela quase sentia o vapor sair pelos seus lábios. Sabia que com ele acontecia o mesmo, quase podia sentir o coração do rapaz aos saltos. Mas ele não se moveu. Ela olhou para o relógio e fingiu se assustar com o horário.

- Eu preciso ir.
- Mas...
- É tarde.
- Eu levo você.
- Eu estou de carro.
- Deveria ter adivinhado.
- Um dia alguém me disse que me preferia assim.
- Faltou a minha blusa favorita.
- Faltaram coisas demais essa noite.

Ela levantou-se. Ele não se moveu, acompanhou com o olhar a saída da garota, e quase sentiu rufarem os tambores e soarem os clarins enquanto ela caminhava pela calçada em direção ao carro. Não sabia se extasiava pela beleza luxuriante da menina ou se martirizava por continuar sendo o covarde de sempre, o mesmo homem que não suportaria a ideia de receber um não. A lua parecia rir-se dele. Até ela havia encantado mais aquela mulher. Milhares de pessoas no mundo seriam capazes de dizer sem medo o que sentiam. E quantos outros homens ela beijaria além dele? Quantas outras vozes cochichariam besteiras ao pé do ouvido da garota dos sonhos do borra botas que aquela altura do campeonato ainda era o jogador a sair de campo em todas as jogadas? Ele permanecia com medo de todas as fraturas futuras, continuava sonhando grande e fazendo pequeno. Pegou mais uma garrafa de whisky e duas aspirinas, foi embora com a mesma dor de cabeça de sempre. Que pra ele mais cheirava a incompetência, e que pra ela, naquela noite, soava como o fim.

Eu me afundo bem ali, além.


Incrível, mas tenho a imensa facilidade de me perder nos sentimentos. E de traga-los pra depois baforar aos quatro cantos. Alguém me disse uma vez que essa é a minha maior qualidade. Até concordei, mas agora discordo. Não gosto de sentir tantas coisas assim, me tirando o sono, me invadindo os poros, me roubando a paz. Porque as pessoas... Ah, as pessoas são tão menos do que me ponho a esperar! Os momentos, os lugares, os ambientes, tudo é pouco demais pra a minha cabeça em ebulição. Parece que nada me satisfaz, e isso me preocupa. Além disso, me dói. Dói principalmente no dia em que estou à flor da pele, sentindo que cada abraço que não foi é cortante como o fio de uma navalha. E desconfortante, também. Eu quero sempre mais, e muito pra mim, é tão pouco... Me pergunto porque não acontece com todas as pessoas a sensibilidade demasiada que se abriga em mim. Ainda que eu esconda, ela permanece lá. Magoando a mesma velha ferida, explodindo à ponto de molhar o meu rosto. À ponto de me condicionar a fazer o mesmo pedido 16 vezes, esperando fervorosamente que ele se realize. Porque eu quero surpresa, sabe? Quero atenção independente das condições. Eu preciso andar, correr, tomar o mundo feito vinho tinto, aos goles rápidos, longos, prazerosos. Só que por mais difícil que seja admitir, eu não consigo sozinha.

sábado, novembro 07, 2009

s e p a r a d o s, se parados.

- Sabe, no fim das contas a protagonista não deve agradar a platéia ou até o diretor. Independente de ser bom ou ruim, a protagonista sempre sobrevive no final.
- e Romeu e Julieta? Tristão e Isolda? ...Elas morreram.
- Merda, eva.
- Xeque-mate!
- Quem venceu agora? O bem ou o mal? Se a protagonista nem sempre vive, quem sempre vence?
- O cansaço. Ela é vencida pelo cansaço.
- E acaba como? Cansada já está... Viva? Morta? ou mesmo cansada, muda? Foge? Enfrenta?
- Ela está cansada justamente porque lutou. Lutou sozinha. E lutar sozinha faz os braços sangrarem. Por isso ela desiste. Mas desistir não é morrer, é só descansar.
- É congelar, para mais tarde voltar
- Ou não.
- Congelar, para sempre?
- Para mim, quem descansa morre um pouco, mas quem congela...quem congela morre de vez. Quero descansar, sabe? Morrer não é do meu feitio.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Você, sempre você.


"Melhores amigas até encenando."

Amiga, estive esperando tempo livre pra vir aqui te escrever. Agora que a correria dos dias de espetáculo passaram, posso tentar exprimir o maravilhoso sentimento que tenho por você. Sabe, nesses 9 anos de amizade você foi pra mim muito mais do que uma companheira. Com você, eu descobri emoções que vou guardar para o resto da minha vida. Quantas vezes abraçamos uma a outra e sufocamos o choro pelas mais diversas situações? Ah, perdi as contas! Quantas noites de conversa jogada fora, e banhos de chuva com direito a resfriado?
Você, Isabella, é o meu espelho, o meu alicerce, minha amante, minha amada, meu amor. Ainda que passem ventos fortes, e os cenários mudem milhares de vezes, nada substituirá a sua presença na minha vida. Porque estávamos juntas em todos os melhores e piores momentos. Choramos de saudade e rimos de pura euforia. Quando vacilei, foi o teu amor que me curou de uma loucura qualquer. Quando a minha voz faltou, foi você quem me disse que eu tinha força pra fazê-la voltar. Sei que os nossos destinos dirão que esse sentimento não vai passar. E multiplicarão mais e mais os nossos sorrisos.
Cada dia com você me faz mais feliz por perceber o quão maravilhosa e única é a nossa amizade.
Eu te amo, minha pequena. E é pra sempre.

terça-feira, outubro 27, 2009

Esconderijo

-

Tenho passado tempos longos tentando abortar tudo isso que insiste e deságua em mim. Cada passo nesse mundo louco de mau-me-quer e bem-me-quer me parece cansativo em demasia. Ainda assim, me flagro pensando nas oportunidades mil desse espaço absurdo de grande, nesse carinho bom de ter, nessa magia louca. Tenho vontade de correr e gritar, expelir um daqueles gritos estilo Paulie - Lost and Delirious. O tempo passa mais rápido que o habitual, só pra tornar mais difícil voltar e rever os meus desvarios. Colho rosas vermelhas pra ninguém, choro por nada, ouço músicas tempestivas ao relento. Talvez tenha deixado de ser o muito que me tomava, ou são só os dias pesados e negros pela ausência de cumplicidade que me deixam assim. Talvez seja pela lembrança de afago, ou o medo das surpresas que se tornam rotineiras, mas nem por isso importunas. Ao final, não aborto nada. Pelo contrário, abordo tudo. Minuciosamente, ajeito cada detalhe como num jogo de xadrez, e modéstia à parte, quase sempre chego ao xeque-mate. Escolho as peças e a hora de jogar, faço o jogo um tanto contido, preso a correntes fortes. Cego qualquer detalhe do meu íntimo, deixando o sentimentalismo pra as telenovelas que tenho assistido em maior escala, mesmo sem perceber. Finjo fácil que não há no meio disso tudo um órgão que pulsa, finjo que não há nada que bombeie o sangue que ponho pra fora quando me furo com os tais espinhos de que tanto falava. Sou um personagem, sou tudo, sou todos, sou ninguém. Mas a única que não sou, sou eu mesma.





"tenho um coração, bem melhor que não tivera."

quarta-feira, outubro 14, 2009

Soprando o pó das ilusões.

-


Vesti a blusa que ela mais gosta, melhor ainda... A que um dia num desvario, ela se pôs a comentar que me achava sexy vestido. Não tinha a certeza de encontrá-la, mas não custava nada almejar isso. Já no fim da tarde foi que pude vê-la. Ela sorriu, e sorriu tão linda... Foi pela minha presença o sorriso. Então eu parei o meu veículo imponente de duas rodas na sua frente, enquanto me lambuzava de maça do amor. Amor, justo amor. O que eu não sentia, não sinto. O que me recuso o tempo todo a sentir. Ela comentou algo sobre a minha boca suja, me dando adjetivos infantis. Perguntei que caminho seguiria, e assim que me disse, decidi que iria vê-la. Talvez eu gostasse de estar ao seu lado, gostasse da sua companhia. Talvez fosse pelo fato dos dias sem conversar com ela, ou simplesmente um carinho tácito por aquela menina com olhos de cigana e corpo simétrico. Minutos depois eu já estava indo encontrá-la. A vi de longe, sentei-me ao seu lado e soltei as gargalhadas que ela me despertou, fosse por graça ou nervosismo. Disfarcei com um sorriso frouxo o meu desconcerto quando a ouvi falar dum outro romance. Quando o relógio apontou o tempo de término pra ela, me levantei também. Não diferente do costume, ela beijou o meu pescoço e eu agitei de leve. Sorri, adorando-a um pouco. A vi indo e fui-me também, afinal, ela era o único motivo que me fazia estar ali. Gosto de estar assim, gosto de vê-la de perto, mesmo tendo-a de longe. Como que de alguma forma me alivie essa distância paradoxalmente próxima. Prefiro que seja, mesmo sem ser. Prefiro a certeza de um carinho que me pertencerá sempre, e que no meu íntimo, é inevitavelmente recíproco.


Num daqueles dias em que o meu eu - lírico
se transforma no eu - outro só para satisfazer a minha imaginação.

sábado, outubro 10, 2009

Polivox.

Mão.
corpo.
pele.
toque.
vontade.
impulso.
consequência.
tristeza.
peso.
arrependimento.
escolha.
dúvida.
insistência.
repulsa.
resposta.
pergunta.
tentativa.
objetivo.
alcance.
vitória.
consciência.
medo.
segurança.
insegurança.
martírio.
tortura.
decisão.
coragem.

Polivox polivox polivox polivox polivox ...

sexta-feira, outubro 09, 2009

Afogar-me a deriva de ti.


Tu puseras nos meus olhos uma venda
Para que eu não pudesse ver-te por dentro
Para que os meus olhos-terra não lessem
Os teus olhos-folha.

E frente a sua vontade o meu olhar insiste
A fim de descobrir-te além do superficial
Mas tu és ainda a minha incógnita
O meu desatino secreto

Tu és a frágil linha entre o querer e o poder
O meu segredo, minha busca.
És a sombra que em mim permanece
Como furacão que passa e faz ventar o coração

És de tudo, o que não sei renegar
A insistência da taquicardia
E o desejo de que sejas para mim
Algo que vá além das definições humanas

E se quiseres, ah, se quiseres
A minha vontade de ti
Matar-te-ei em beijos mil
Num só segundo de cada olhar.

-

remexendo novamente no meu relicário...

quinta-feira, outubro 08, 2009

Como um elixir de vida.

-

Eles chegaram em meio à noite. Pedindo solução para a vida de um ser de apenas dois dias. Uma menina, Luiza. Me pareceram aflitos e inseguros, embora amorosos e dedicados. Sem pensar, a mulher (minha), puxou o seio farto cheio de líquido. A sensação foi louca, desconcertante, inquietante. Incrível como havia ali algo como um elixir, algo que saia de um corpo de pele, carne e osso, como todos os outros. Mas um corpo feminino que expirava fecundação, parto, proliferação da espécie. Vida que dá vida. Vida que espirra existência entre as pernas, justificando muito mais do que o nosso vão conhecimento. O que sei é que estar nesse espaço redondo é mesmo algo muito louco.

domingo, outubro 04, 2009

Nostalgica.

-

Essa noite eu tive um sonho. Mas não foi um sonho comum, como todos os outros, de todas as noites. Foi um sonho com alguém com quem perdi um elo forte, e me rendi à conveniência. Onde eu chorava sem vergonha ou preocupação. Isso me fez pensar nos laços que tenho perdido. Não porque quero, ou desfaço, mas porque eles tem sido desatados como nós. Um dia sem se falar resulta em 10 anos*. Custei a acreditar que aquele grupo de sete já nem existe mais. Custo ainda hoje a crer que tantos outros foram embora, se desabrigaram de mim. Não gosto do fato de ter que aceitar que as coisas tem terminar. As pessoas ainda estão ali, ainda há tempo. Mas quem tentaria? Não eu, nem o outro. Não há quem tente dar um passo à frente, o passo que talvez redefinisse linhas para a vida inteira. Continua tudo assim, incomodando nos dias como hoje, em que devaneio um pouco mais. Logo passa, eu sei, sempre passa.

-

* comentário de Mariana Pimentel.

Eu sinto saudade.

sábado, outubro 03, 2009

Transparece nas veias.

-

Meus olhos grudam nesses deslizes meus, meu pensamento gira em torno de muito mais que conflitos, talvez tão verdadeiros quanto a minha vontade de que tudo termine, ou seja um sonho ruim. Tenho reconhecido o meu pesar, por entre todos esses disfarces mau feitos. Viro a cara, finjo esquecer e passo reto. Caminho na corda bamba sem balançar, e escondo que não gosto de não receber palmas ao fim do espetáculo. É a verdade o que me assusta. Assusta não saber lutar para mudar. Assusta que eu permaneça imóvel e pareça tão incólume. Mas eu tenho coração. E (surpresa!) ele pulsa. Sente. Pede.

-

sexta-feira, outubro 02, 2009

Evapora, ou é cinza.


( Enquanto a sua imagem vai e vem,
Aonde posso ir se você não está?
O sol me reconforta, e eu ando .
E sei que você anda por ai.
Eu nunca mais te vi ao meu redor.
Nem sei se eu me encontrei ou te perdi.

Café ou sorvete

-

-É como querer ao mesmo tempo café e sorvete, sabe?
(...)
-Você já se sentiu assim?
-Acho que não...
-Sorte sua.


-

quinta-feira, outubro 01, 2009

mais[ou]menos.


"Eu preferia você mais humano e menos fiel"
...Só porque a frase continua martelando na minha cabeça até agora.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Olhos de cigana

"Um olhar meio...não sei...é como se... ah, quando olha nos seus olhos a pessoa se perde...não sei explicar! Seria mais ou menos como hipnose... não sei explicar direito. Pra mim, é perigo. Porque quando olho nos seus olhos parece que eu perco todas as minhas muralhas, parece que você vai lá dentro e pode descobrir coisas que eu não quero que saiba. A invasão que você falou que há no beijo, há no seu olhar. Mas a invasão que eu falei não é gual do beijo, porque você falou que acha ruim... e a do olhar não é ruim"
-
Foi o que disseram. Mas sabe, ultimamente nem eu tenho achado que há em mim esse olhar assim, tão penetrante. Talvez porque eu simplesmente não penetre o sufiente pra controlar o que quero. E eu sei o que quero, sei sim. Embora saiba também que normas são normas, que meus ouvidos ainda vão ouvir muito sobre isso. Só que sinceramente...Tem pesado ser isso tudo. Porque eu queria par pra toda dança, pau pra toda obra. Eu queria me definir em linhas mais iguais, ou pelo menos adaptáveis. Menos submissas e mais seguras. Mais fiéis e menos derrapantes. Mais racionais e menos amantes.
-

sábado, setembro 26, 2009

Arlequim de outra história

- Você nao é mais colombina, não é?
- Acho que não.
- E por quê?
- Não sei. Só sei que não sou
- Eu também nao sou mais um Pierrot.
- Não?Por quê?
- Não sei. Só sei que não sou. Ou que não posso ser. Mas tem toda uma historia... Não dá mais pra ser pierrot.
- Tem? Conta pra mim?
- Conto!
- Era brincadeira...
- Mas eu conto, se você quiser...
- Então conta!
- Era um dia de carnaval. E eu, fazendo jus a minha lágrima de Pierrot, não era muito de folia. Permanecia sentado, esperando a festa acabar, e todos os confetes cairem no chão, me dizendo que não havia mais tempo pra fantasia. Mas foi aí que me apareceu alguém... Uma colombina. E uma Colombina que também não queria folia. Não era a primeira, de fato. Aliás, eram as outras que haviam feito de mim Pierrot. Mas essa... Essa sentou ao meu lado, essa me deu o seu colo. Essa, assim que cheguei e toquei as suas costas por trás, se afogou em mim num abraço que eu queria evitar pra não pensar. Pra não me aceitar Pierrot, pra esquecer as fantasias. Mas eu já era um. Já tinha me tornado 'o sofredor dos amores não correspondidos', que era sempre roubado pelo Arlequim (e haviam tantos Arlequins naquela festa...). E eu passei um tempo assim, sendo Pierrot todos os dias, sem confetes e sem festas. Até que me veio uma daquelas primeiras personagens que me fizeram o personagem. E ela me puxou pra dançar... Aos poucos a lágrima foi se apagando. Quando me vi, eu era um Arlequim de outra história. - Parou por um instante para tomar fôlego - Não vou dizer que não me pego pensando se não posso ser Arlequim dessa e Pierrot daquela (e talvez seja...), mas de qualquer forma, eu danço a música que toca, e com o par que me escolhe. Não sei se por incerteza de já não ser o mesmo o meu par, ou o medo de escolher um par e voltar a ser o personagem antigo. Ou se por preguiça de tentar, e me adaptar a esse nova/velha machinha de carnaval.
- Nossa...
- Então, satisfeita?
- Satisfeita.
- Mesmo? Até com o conteúdo?
- Era pra não estar?
- Não sei. Eu continuo sendo um Arlequim indeciso.
Fez-se silêncio por alguns instantes.
- Sim, mas você continua não sabendo por que não é mais colombina?
- Agora eu não sei mais o que sou.

segunda-feira, setembro 21, 2009

De onde posso te ver.

-

E olha só o que eu encontrei na velha gavetinha de lembranças...

-

Enquanto você passa na rua, andando junto às tuas cores e coisas, te observo de longe, da minha janela. Alguma coisa em mim paupita forte, o seio toca a blusa. E você, a sua canção lá de baixo, enquanto talvez me procure entre os andares dos prédios. Eu aceno, timidamente, com jeito de quem quer e não quer ser vista. Um dia... Ah, um dia eu grito o teu nome e peço que suba as escadas. Peço que toque a música que já toca aqui dentro. Mas agora, se por um acaso você ameaçar olhar para a minha janela, eu vou me esconder por trás das cortinas. Então, eu te acompanho dar a volta e ouço o bipe de mensagem para que eu desça, e vá ver o pôr-do-sol. Jogar conversa fora, e ouvir você dizer "Dá próxima vez vamos ver a lua". Esperar por uma noite em que você me diga que não tem que ir, e fique mais. Queira entrar para tomar uma xícara de chá e fumar uns cigarros. Queira entrar pra que eu possa descobrir no verde dos teus olhos uma razão para sermos dois em um. Para dançar um passo em uno, dos, tres, cuatro... Na língua que você mais gosta, pois inglês te causa náuseas. Mas então o sol repousa e você me diz que a noite já lhe chama para voltar ao seu lugar. Enquanto subo as escadas ouço os seus passos se distanciando, e aos poucos, já não há som algum. Desligo o meu abajur e vou descansar.

sábado, setembro 19, 2009

Explosão.

- Você precisa descansar...
- Por que você ta dizendo isso?
- Porque você pensa demais, se estressa demais, cobra demais, ama demais...você gosta do extremo, mas ele não te faz bem.

Eu já sabia, todo mundo sabia. Eu já esperava que um dia alguém me dissesse isso sem ensaiar. Mesmo assim, foi como me transportar a algum lugar bem diferente de tudo. Como se eu não pertencesse a esse mundo, como se eu fosse do meu mundo que não é de ninguém. Por não ser pra ninguém a moradia, por não ser pra ninguém a definição de tudo. Não ser o eu sozinha, que completa nada. E estar ainda incompleta, indecisa, incompreendida. Desse muito que eu tenho pra dizer e sentir, metade é o que não é de valhia alguma, metade é o que sobra, essa metade é o demais. O demais no coração, na ação, na vontade. O demais no olho úmido que não vê mais como fugir dessas necessidades, o demais do caminho desviado das mãos que deveria-se lavar, pra o braço que sangra. E o rosto que arde, e os lábios que tremem. A agonia de não mudar e ver todas as esperanças irem embora com líquido vermelho. Não sei me render ao desapego, não sei deixar de ser o extremo de tudo, o 'a todo vapor'. Mas agora sinceramente, eu só sei que dói ser assim.

Preciso fumar um cigarro.
Ativar sozinha a endorfina, já que sou só eu que me acompanho.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Deficiente sentimental.

-

É tristeza, só. Depois de um tempo não se torna mais ciúme. É simplesmente tristeza. Por não ser aquela que destacou sorrisos nos rostos que fazem de mim alguém um pouco mais feliz todos os dias. É só por não ser, simplesmente não ser a pessoa, não ser a escolhida. Canso de fingir que não sinto essa diferença de tratamento para comigo. Mas sinceramente, machuca. Ou talvez seja mesmo eu que não saiba me expressar.

-

Eu te suplico não destruas tantas coisas que são tuas.
(...)
Se tu soubesses como é triste
Perceber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Ao som do Vinícius.

Carlos chegou cansado de mais um dia de trabalho estressante como todos os outros, e não pensou antes de tirar os sapatos e se largar no sofá. Tateou a mesinha procurando o controle do DVD player, escolheu uma das músicas do CD da Maria Bethânia que já estava lá pela fossa do dia anterior. Levantou o braço novamente para pegar o maço de cigarros e relaxou a cabeça no braço do sofá para logo dormir e levantar no meio da madrugada para deitar na cama vazia, com cheiro de nada, com cara de dor. O telefone tocou, o primeiro pensamento foi não atender, mas o som se tornou insistente e perturbador.
- Alô.
- Carlos?
Com algum esforço, ajeitou a coluna para que pudesse ouvir a voz do outro lado. Havia reconhecido, claro. Mas pensou ser um sonho, achou que já havia cochilado no sofá e agora delirava ouvindo a voz dela, justamente dela.
- S-sim, sou eu. - Gaguejou.
- Eu quero conversar com você, podemos?
- Mas já passa das nove da noite.
"Idiota, você não deveria ter dito, vai fazer com que ela não venha, que bobo você, Carlos, bobo! Está de calças borradas porque a mulher te ligou e coloca ela pra correr com duas palavras, bobo!"
- Estou de carro, chego aí dez minutos. Podemos conversar? - Repetiu, insistente.
- É claro.
Desligou o telefone, buscou nos Cds algo leve, passou pelo Caetano, pela Gal Costa, pela Marisa Monte. Parou num especial 'Tom canta Vinicius', e escolheu a música para a ocasião. Tocava "minha namorada" quando Melissa tocou a campanhia.
- Demorei?
- Nem cinco minutos! - Deu um sorriso amarelo, que não disfarçou a sua empolgação. - Senta...
- Obrigada.
Ela sentou olhando para todos os lados do apartamento, como se procurasse algo de familiar, algo que lembrasse a única vez em que passara a tarde ali. Mas não havia mais nada. O que viu foi um apartamento com toques masculinos, roupas espalhadas pelo chão, restos de comida e de cigarro por toda a casa, livros, livros e livros. Aconchegou um pouco o pescoço e se manteve olhando para o teto, tentando ganhar fôlego. O rapaz apareceu na porta com uma garrafa do mesmo vinho daquela tarde, que ela nem pensou em recusar.
-Temos que conversar, não é?- Ele disse, enquanto colocava gelo nas taças.
-Temos, eu tenho, eu preciso, nós precisamos.
-É?
Melissa levantou a cabeça bruscamente e olhou para Carlos, não notando que o movimento a havia feito apanhar o queixo do rapaz com uma das mãos.
-Você sente algo por mim?
De feliz, o semblante de Carlos passou a desesperado. O coração pulsava como que em uma maratona, a boca secou, as mãos tremiam e vinha uma sensação de torpor. Ele cauculou a respiração, contou alguns números para se acalmar, mantendo a linha de serenidade que ele, como bom ator de teatro deveria saber encenar. Sabia o que aquela conversa resultaria. Conversas do tipo "nós não podemos", sorrisos frouxos, despedidas convenientes e algumas noites em claro.
-Ah, Melissa... Eu nao vou posso negar que numa época dessas eu confundi as coisas, e passei a sentir algo que nem eu sabia o que era... e que era forte pra caralho. Só que aos poucos acho que a euforia da situação foi passando. Você é linda.
Ela enrubeceu.
-E às vezes eu olho e digo: "meu Deus, que menina mais perfeita!" e meio que te adimiro. Você me atrai, sempre me atraiu, mas sentimento é algo mais amplo, então...não.
-É só isso?
-Se você quiser, depois eu te digo algumas outras coisas...ou não.
Fez-se silêncio por um tempo.
-Na verdade, são coisas que nem cabe mais comentar. Deixa pra lá.
-Eu quero ouvir o você tem pra falar.
-Eu não quero.
-Você ta desistindo sem tentar...
-Não sei ainda começar uma guerra pra não ganhar, Melissa. E eu sei que eu não vou ganhar. Eu não luto pra perder.
-Tenho que ir.
-Está tarde, não quer ficar? Eu durmo aqui mesmo, e você dorme na minha cama.
-Não, não, estou acostumada. Obrigada, Carlos. Até amanhã.
-Cuide-se, juízo!
-Não precisa desejar, é só o que eu tenho tido.
Ao fechar a porta ele se pos a gritar, não sabia se sentia alívio ou dor, mas era um grito fino, quase que discreto, para não acordar mais ninguém além dos seus pudores que naquele dia estavam inegavelmente acordados. Num papel amarrotado, rabiscou 'Que linda namorada você poderia ser', e fumou os cigarros da semana inteira. Do outro lado da cidade, Melissa parou em frente ao seu apartamento, na garagem o parabrisa do carro destacava a frase escrita após a chuva. "Eu quis ser."

sexta-feira, setembro 11, 2009

Como equação matemática

- É louco, não é?
- O que?
- Essas relações... São tão diferentes, e tão parecidas...
- Que paradoxal! Continue...
- Engraçado que num primeiro caso 'x' tem total controle sobre 'y' e 'z'. Pode escolher quem quiser, quando quiser, mesmo 'y' e 'z' estando interligados. Então, 'x' despreza 'y', sabendo que ele sempre vai estar esperando.
- Prossiga...
- Num segundo caso, 'x' é controlado por 'a', que por sua vez também controla 'b', mas 'a' prefere 'b', mesmo quando 'x' o procura.
- A vida é mesmo um eterno efeito borboleta.
- É, é...

Terminam cada um a sua chicara de café, e levantam-se prestes a descobrir as razões das suas equações, buscando as raizes, e, quem sabe, tendo resultados.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Diálogo Marciano.

- Sonhei contigo. Mas quero que se realize, então não posso contar.
- Conta...
- E se nao se realizar?
- Dependendo do sonho pode ser realizado.
- Não sei se quero correr o risco. Você é imprevisível demais pra saber.
- Arrisca... ou você tem medo de arriscar?
- Ai você me incita. É que eu acho que faz parte da minha opinião em relação as portas... que parecem sempre fechadas. E quando ta escuro, eu não sei se ela vai estar aberta, ou se eu vou dar de cara com ela... Acho que tenho medo de machucar o rosto.
- Não tenha medo.
- O que me garantiria que eu nao tenho que ter medo?
- Eu estou falando pra não ter. Não vou dar com a porta na sua cara.
- Promete?
- Prometo.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Até onde a voz pudesse ir


Se eu gritasse para o mundo ouvir
Até onde a voz pudesse ir
Eu não seria um sonhador
E nem mais um segredo, meu amor.

terça-feira, setembro 01, 2009

Eu sou, eu sou amor, da cabeça aos pés.

Já estou cheia. Cheia de me sentir tão carregada de tudo que eu não posso exprimir. Eu não quero me controlar. Não preciso multilar as minhas vontades pra esperar que o tempo cochiche ao meu ouvido que é a hora certa. Matar a sede na saliva já não é do feitio de ninguém. Mas ainda é do meu, da minha essência meio arcadista, meio 'carpe diem'. De repente tudo virou de ponta cabeça e eu, por amar demais, me tornei a anormal da história. Não gosto de controle, de passos ensaiados. Eu sou do espontâneo, do que dá na telha. No fim das contas tudo isso me fez sentir um gostinho salgado na boca. Me fez sentir completamente exclusa desse estilo contemporâneo egoísta, onde alimentar a si próprio se torna centenas de vezes mais importante que alimentar o outro, mesmo que a fome dele seja maior. Estou perdida nos meus sacrifícios matinais e nas minhas escolhas topetudas. Tudo isso se tornou aberração. Toda dedicação virou pó. Nada mais vale a pena, porque todas as almas encolheram, toda a essência romantica sumiu. Por tempos me recusei a acreditar. Mas me bateram tantas portas na cara que não posso mais deixar de adimitir: O mundo é volúvel.

E eu não sei sobreviver por muito tempo a coisas que me excluem.

sábado, agosto 29, 2009

Tanto amor em mim, em ti...

-
...nem tanto.
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?rl=cpp&cmm=11907827

'...Ah, que bom seria
Se eu pudesse te abraçar
Beijar, sentir.
(...)
Eu sei te amar
Como ninguém mais.
Ninguém mais

Como ninguém jamais
Te amou
Ninguém jamais te amou
Como eu.'

Tão rara, tão rara...


- Meu amor, a vida passa num instante, e um instante é muito pouco pra sonhar. -

É louco perceber como a vida é vaga. Como o nosso tempo de vida, nosso 'espaço nesse espaço' pode durar 100 anos ou 100 dias. Um rapaz, trinta e poucos anos, uma vida. A morte. Ele não esperava, ninguém esperava. Morreu. Foi encaixotado por um carro de passeio pra mais tarde ser encaixotado noutra caixa, pra nunca mais. Talvez tivesse acordado um dia antes sorrindo. Talvez tivesse entrado na internet, tomado umas cervejas, falado algumas besteiras. E agora não está mais entre nós. Uma pancada forte no asfalto, o suficiente para acabar com tudo. É num instante só que as coisas deixam de contar. "Para morrer basta estar vivo", já diz a bisavó sentada na cadeirinha de balanço, gozando da esperteza mesmo com alguns muitos anos nos ombros. Pode ser assim, pode não ser. Presos ao comodismo ou ao medo, temos a tendência a achar que somos imortais e deixamos uma parte de cada sonho pra depois. Um bocadinho de sonho dali, outro de lá... e no final nos contentamos com quase nada, com 'depois eu faço', com 'amanhã deve rolar'. A vida é escassa, baby. Dá medo de piscar os olhos e já não estar aqui. Até porque, o próprio tempo é ralativo demais. E se tudo acabar amanhã? Onde vai parar o grande amor que você não declarou? Pra onde vai o seu sonho de ser ator? E se amanhã não puder mais olhar o sol e dizer 'Eu estou vivo!', onde vai parar aquela vontade de aprender inglês, de tocar violão, de namorar às escondidas? Pra onde vai aquele desejo secreto de transar na chuva? Pruma caixa. Tudo, tudo pode morrer de repetente, no tempo de um beliscão. Se você quer saber, eu acho que o segredo é mesmo se molhar. Morder os lábios, arder de vontade, fazer, VIVER. Enquanto se pode.