domingo, maio 24, 2009

Há quem acredite em milagres.

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Abri os olhos e vi o telhado da minha casa ainda escuro. "Droga, que raio de falta de sono é esse?". O relógio marcava seis e meia da manhã. A dor no meu estômago apontou mais uma crise de gastrite nervosa. Não sei se pelo clima realmente, ou se pela minha falta de vontade de levantar, eu morria de frio. Nem mesmo o casaco muito pesado me tirava aquela sensação de vazio, aquele arrepio intenso. Fui até a cozinha, bebi um copo de leite. Tomei um banho quente, peguei uma caixa de cigarros, um isqueiro, e sai. Lembrei de quantas vezes havia saído assim, sem rumo, sem rota, sem destino. A fumaça do Hollywood invadia as minhas narinas, enquanto era baforada pelos meus lábios que há tempos preferiam o contato da fumaça, e só. Não que de fato preferissem, mas era melhor pensar assim. "Para os amores impossíveis, tempo", lembrei da frase que li em algum lugar, em algum momento. Busquei não seguir pelo caminho conhecido, não dar asas a minha submissão. Entrei no botequim da esquina, tocava Flor de Azeviche, do Zeca Baleiro. Sentei e pedi uma bebida qualquer ao garçom com cara de noite mal dormida. "Será que foi por insônia, ou por fervor?", eu me perguntava, tentando ler o olhar do homem, impulsionada pelo vampirismo psíquico do meu signo. Aliás, quase tudo que eu havia feito durante todo o tempo, era seguir a minha vassalagem escorpiana. "Quando você fala bala no meu velho oeste (...) O sangue encharca a camisa", a música tocava, dando ao ambiente um tom claro, uma leveza imensa. É, o meu interior sangrava mesmo, encharcando a minha camisa. Parei no segundo copo, paguei a conta, dando uma gorjeta que tirou a cara de sono do garçom. Procurei o Mp4 player no meu bolso largo, pus os fones e deixei que os meus passos me levassem novamente. "Não é porque eu sei que ela não virá que eu não veja a porta já se abrindo, e que eu não queira tê-la, mesmo que não tenha a mínima lógica nesse raciocínio." A música que tocava era indutiva, sem perceber, os meus passos já me guiavam para o velho caminho. Meus pés passavam pela ponte, pela farmácia, pelas casas que pareciam me espiar. O portão estava aberto, como sempre. Sem fazer barulho, me meti entre o espaço e entrei, com o coração pulsando. Querendo ir, pensando em voltar. A janela estava aberta. Estacionei em frente a porta, ensaiando chamar o nome de alguém, um nome em especial, que havia invadido os meus sonhos na noite passada (mesmo quando eu nem estava dormindo...). A minha voz saiu fina, meio rouca, dificilmente reconhecível. Ela apareceu, enrolada num lençol. Sem muito esforço percebi que não havia nada mais cobrindo o seu corpo que o pano que lhe caía nos ombros, quase descobrindo os seus seios fartos. Quando me viu, ela enrubesceu, sorriu e me pediu para esperar até que ela se vestisse. Abriu a porta, e me embalou num abraço quente. Todas as minhas armas estavam no chão, o meu poder de sedução se resumia a zero diante da magnitude ariana daquela menina-mulher. Nos sentamos, e eu senti novamente o porque de ter me distanciado dela. Porque havia distância em corpos, havia medo nos seus olhos, havia pudor nas suas atitudes. Não sabia se ela me expulsava, ou se queria estar comigo, mesmo porque, a transição entre um e outro pensamento era rápida demais. Eu deveria tentar?
- Sonhar não te custa nada mais que o tempo - Ela leu em voz alta a frase na minha camisa.
- Nada mais que o tempo - Falei, junto com ela.
- Mas há sonhos que não podem acontecer.
- Não, não há. Todos os sonhos precisam acontecer.
- Não quando a gente corre o risco de machucar as pessoas tornando-os realidade.
- Devemos só sonhar, então?
- É, devemos.

Eu peguei a sua mão, pus na minha cintura. Ela estava imóvel. Tive medo de que me empurrasse para longe. Medo da repudia que ela poderia sentir, mas fui em frente.

- Olha pra mim.
- Eu não olho nos olhos nunca, já disse.- Ela disse, sem esconder o medo na sua fala.
- Então fecha os olhos.
- Como?
- Fecha os olhos. - Falei, sussurrando no seu ouvido.

Ela os fechou, e eu pude perceber como era ainda mais bonita de perto. Sua pele branca, macia. Seus cabelos claros e brilhosos.

- Agora você está num sonho.

Eu a beijei, fervorosamente. Ela apertou a minha cintura. Como se o sangue corresse mais rápido e explodisse nas suas veias. Meu pulso acelerava. Sentia a soma dos nossos corpos. O beijo terminou e ela me olhou com um sorriso atrevido no rosto.
- E agora, o que faremos?
- A gente pode simplesmente, continuar sonhando...


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