segunda-feira, setembro 28, 2009

Olhos de cigana

"Um olhar meio...não sei...é como se... ah, quando olha nos seus olhos a pessoa se perde...não sei explicar! Seria mais ou menos como hipnose... não sei explicar direito. Pra mim, é perigo. Porque quando olho nos seus olhos parece que eu perco todas as minhas muralhas, parece que você vai lá dentro e pode descobrir coisas que eu não quero que saiba. A invasão que você falou que há no beijo, há no seu olhar. Mas a invasão que eu falei não é gual do beijo, porque você falou que acha ruim... e a do olhar não é ruim"
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Foi o que disseram. Mas sabe, ultimamente nem eu tenho achado que há em mim esse olhar assim, tão penetrante. Talvez porque eu simplesmente não penetre o sufiente pra controlar o que quero. E eu sei o que quero, sei sim. Embora saiba também que normas são normas, que meus ouvidos ainda vão ouvir muito sobre isso. Só que sinceramente...Tem pesado ser isso tudo. Porque eu queria par pra toda dança, pau pra toda obra. Eu queria me definir em linhas mais iguais, ou pelo menos adaptáveis. Menos submissas e mais seguras. Mais fiéis e menos derrapantes. Mais racionais e menos amantes.
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sábado, setembro 26, 2009

Arlequim de outra história

- Você nao é mais colombina, não é?
- Acho que não.
- E por quê?
- Não sei. Só sei que não sou
- Eu também nao sou mais um Pierrot.
- Não?Por quê?
- Não sei. Só sei que não sou. Ou que não posso ser. Mas tem toda uma historia... Não dá mais pra ser pierrot.
- Tem? Conta pra mim?
- Conto!
- Era brincadeira...
- Mas eu conto, se você quiser...
- Então conta!
- Era um dia de carnaval. E eu, fazendo jus a minha lágrima de Pierrot, não era muito de folia. Permanecia sentado, esperando a festa acabar, e todos os confetes cairem no chão, me dizendo que não havia mais tempo pra fantasia. Mas foi aí que me apareceu alguém... Uma colombina. E uma Colombina que também não queria folia. Não era a primeira, de fato. Aliás, eram as outras que haviam feito de mim Pierrot. Mas essa... Essa sentou ao meu lado, essa me deu o seu colo. Essa, assim que cheguei e toquei as suas costas por trás, se afogou em mim num abraço que eu queria evitar pra não pensar. Pra não me aceitar Pierrot, pra esquecer as fantasias. Mas eu já era um. Já tinha me tornado 'o sofredor dos amores não correspondidos', que era sempre roubado pelo Arlequim (e haviam tantos Arlequins naquela festa...). E eu passei um tempo assim, sendo Pierrot todos os dias, sem confetes e sem festas. Até que me veio uma daquelas primeiras personagens que me fizeram o personagem. E ela me puxou pra dançar... Aos poucos a lágrima foi se apagando. Quando me vi, eu era um Arlequim de outra história. - Parou por um instante para tomar fôlego - Não vou dizer que não me pego pensando se não posso ser Arlequim dessa e Pierrot daquela (e talvez seja...), mas de qualquer forma, eu danço a música que toca, e com o par que me escolhe. Não sei se por incerteza de já não ser o mesmo o meu par, ou o medo de escolher um par e voltar a ser o personagem antigo. Ou se por preguiça de tentar, e me adaptar a esse nova/velha machinha de carnaval.
- Nossa...
- Então, satisfeita?
- Satisfeita.
- Mesmo? Até com o conteúdo?
- Era pra não estar?
- Não sei. Eu continuo sendo um Arlequim indeciso.
Fez-se silêncio por alguns instantes.
- Sim, mas você continua não sabendo por que não é mais colombina?
- Agora eu não sei mais o que sou.

segunda-feira, setembro 21, 2009

De onde posso te ver.

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E olha só o que eu encontrei na velha gavetinha de lembranças...

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Enquanto você passa na rua, andando junto às tuas cores e coisas, te observo de longe, da minha janela. Alguma coisa em mim paupita forte, o seio toca a blusa. E você, a sua canção lá de baixo, enquanto talvez me procure entre os andares dos prédios. Eu aceno, timidamente, com jeito de quem quer e não quer ser vista. Um dia... Ah, um dia eu grito o teu nome e peço que suba as escadas. Peço que toque a música que já toca aqui dentro. Mas agora, se por um acaso você ameaçar olhar para a minha janela, eu vou me esconder por trás das cortinas. Então, eu te acompanho dar a volta e ouço o bipe de mensagem para que eu desça, e vá ver o pôr-do-sol. Jogar conversa fora, e ouvir você dizer "Dá próxima vez vamos ver a lua". Esperar por uma noite em que você me diga que não tem que ir, e fique mais. Queira entrar para tomar uma xícara de chá e fumar uns cigarros. Queira entrar pra que eu possa descobrir no verde dos teus olhos uma razão para sermos dois em um. Para dançar um passo em uno, dos, tres, cuatro... Na língua que você mais gosta, pois inglês te causa náuseas. Mas então o sol repousa e você me diz que a noite já lhe chama para voltar ao seu lugar. Enquanto subo as escadas ouço os seus passos se distanciando, e aos poucos, já não há som algum. Desligo o meu abajur e vou descansar.

sábado, setembro 19, 2009

Explosão.

- Você precisa descansar...
- Por que você ta dizendo isso?
- Porque você pensa demais, se estressa demais, cobra demais, ama demais...você gosta do extremo, mas ele não te faz bem.

Eu já sabia, todo mundo sabia. Eu já esperava que um dia alguém me dissesse isso sem ensaiar. Mesmo assim, foi como me transportar a algum lugar bem diferente de tudo. Como se eu não pertencesse a esse mundo, como se eu fosse do meu mundo que não é de ninguém. Por não ser pra ninguém a moradia, por não ser pra ninguém a definição de tudo. Não ser o eu sozinha, que completa nada. E estar ainda incompleta, indecisa, incompreendida. Desse muito que eu tenho pra dizer e sentir, metade é o que não é de valhia alguma, metade é o que sobra, essa metade é o demais. O demais no coração, na ação, na vontade. O demais no olho úmido que não vê mais como fugir dessas necessidades, o demais do caminho desviado das mãos que deveria-se lavar, pra o braço que sangra. E o rosto que arde, e os lábios que tremem. A agonia de não mudar e ver todas as esperanças irem embora com líquido vermelho. Não sei me render ao desapego, não sei deixar de ser o extremo de tudo, o 'a todo vapor'. Mas agora sinceramente, eu só sei que dói ser assim.

Preciso fumar um cigarro.
Ativar sozinha a endorfina, já que sou só eu que me acompanho.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Deficiente sentimental.

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É tristeza, só. Depois de um tempo não se torna mais ciúme. É simplesmente tristeza. Por não ser aquela que destacou sorrisos nos rostos que fazem de mim alguém um pouco mais feliz todos os dias. É só por não ser, simplesmente não ser a pessoa, não ser a escolhida. Canso de fingir que não sinto essa diferença de tratamento para comigo. Mas sinceramente, machuca. Ou talvez seja mesmo eu que não saiba me expressar.

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Eu te suplico não destruas tantas coisas que são tuas.
(...)
Se tu soubesses como é triste
Perceber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Ao som do Vinícius.

Carlos chegou cansado de mais um dia de trabalho estressante como todos os outros, e não pensou antes de tirar os sapatos e se largar no sofá. Tateou a mesinha procurando o controle do DVD player, escolheu uma das músicas do CD da Maria Bethânia que já estava lá pela fossa do dia anterior. Levantou o braço novamente para pegar o maço de cigarros e relaxou a cabeça no braço do sofá para logo dormir e levantar no meio da madrugada para deitar na cama vazia, com cheiro de nada, com cara de dor. O telefone tocou, o primeiro pensamento foi não atender, mas o som se tornou insistente e perturbador.
- Alô.
- Carlos?
Com algum esforço, ajeitou a coluna para que pudesse ouvir a voz do outro lado. Havia reconhecido, claro. Mas pensou ser um sonho, achou que já havia cochilado no sofá e agora delirava ouvindo a voz dela, justamente dela.
- S-sim, sou eu. - Gaguejou.
- Eu quero conversar com você, podemos?
- Mas já passa das nove da noite.
"Idiota, você não deveria ter dito, vai fazer com que ela não venha, que bobo você, Carlos, bobo! Está de calças borradas porque a mulher te ligou e coloca ela pra correr com duas palavras, bobo!"
- Estou de carro, chego aí dez minutos. Podemos conversar? - Repetiu, insistente.
- É claro.
Desligou o telefone, buscou nos Cds algo leve, passou pelo Caetano, pela Gal Costa, pela Marisa Monte. Parou num especial 'Tom canta Vinicius', e escolheu a música para a ocasião. Tocava "minha namorada" quando Melissa tocou a campanhia.
- Demorei?
- Nem cinco minutos! - Deu um sorriso amarelo, que não disfarçou a sua empolgação. - Senta...
- Obrigada.
Ela sentou olhando para todos os lados do apartamento, como se procurasse algo de familiar, algo que lembrasse a única vez em que passara a tarde ali. Mas não havia mais nada. O que viu foi um apartamento com toques masculinos, roupas espalhadas pelo chão, restos de comida e de cigarro por toda a casa, livros, livros e livros. Aconchegou um pouco o pescoço e se manteve olhando para o teto, tentando ganhar fôlego. O rapaz apareceu na porta com uma garrafa do mesmo vinho daquela tarde, que ela nem pensou em recusar.
-Temos que conversar, não é?- Ele disse, enquanto colocava gelo nas taças.
-Temos, eu tenho, eu preciso, nós precisamos.
-É?
Melissa levantou a cabeça bruscamente e olhou para Carlos, não notando que o movimento a havia feito apanhar o queixo do rapaz com uma das mãos.
-Você sente algo por mim?
De feliz, o semblante de Carlos passou a desesperado. O coração pulsava como que em uma maratona, a boca secou, as mãos tremiam e vinha uma sensação de torpor. Ele cauculou a respiração, contou alguns números para se acalmar, mantendo a linha de serenidade que ele, como bom ator de teatro deveria saber encenar. Sabia o que aquela conversa resultaria. Conversas do tipo "nós não podemos", sorrisos frouxos, despedidas convenientes e algumas noites em claro.
-Ah, Melissa... Eu nao vou posso negar que numa época dessas eu confundi as coisas, e passei a sentir algo que nem eu sabia o que era... e que era forte pra caralho. Só que aos poucos acho que a euforia da situação foi passando. Você é linda.
Ela enrubeceu.
-E às vezes eu olho e digo: "meu Deus, que menina mais perfeita!" e meio que te adimiro. Você me atrai, sempre me atraiu, mas sentimento é algo mais amplo, então...não.
-É só isso?
-Se você quiser, depois eu te digo algumas outras coisas...ou não.
Fez-se silêncio por um tempo.
-Na verdade, são coisas que nem cabe mais comentar. Deixa pra lá.
-Eu quero ouvir o você tem pra falar.
-Eu não quero.
-Você ta desistindo sem tentar...
-Não sei ainda começar uma guerra pra não ganhar, Melissa. E eu sei que eu não vou ganhar. Eu não luto pra perder.
-Tenho que ir.
-Está tarde, não quer ficar? Eu durmo aqui mesmo, e você dorme na minha cama.
-Não, não, estou acostumada. Obrigada, Carlos. Até amanhã.
-Cuide-se, juízo!
-Não precisa desejar, é só o que eu tenho tido.
Ao fechar a porta ele se pos a gritar, não sabia se sentia alívio ou dor, mas era um grito fino, quase que discreto, para não acordar mais ninguém além dos seus pudores que naquele dia estavam inegavelmente acordados. Num papel amarrotado, rabiscou 'Que linda namorada você poderia ser', e fumou os cigarros da semana inteira. Do outro lado da cidade, Melissa parou em frente ao seu apartamento, na garagem o parabrisa do carro destacava a frase escrita após a chuva. "Eu quis ser."

sexta-feira, setembro 11, 2009

Como equação matemática

- É louco, não é?
- O que?
- Essas relações... São tão diferentes, e tão parecidas...
- Que paradoxal! Continue...
- Engraçado que num primeiro caso 'x' tem total controle sobre 'y' e 'z'. Pode escolher quem quiser, quando quiser, mesmo 'y' e 'z' estando interligados. Então, 'x' despreza 'y', sabendo que ele sempre vai estar esperando.
- Prossiga...
- Num segundo caso, 'x' é controlado por 'a', que por sua vez também controla 'b', mas 'a' prefere 'b', mesmo quando 'x' o procura.
- A vida é mesmo um eterno efeito borboleta.
- É, é...

Terminam cada um a sua chicara de café, e levantam-se prestes a descobrir as razões das suas equações, buscando as raizes, e, quem sabe, tendo resultados.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Diálogo Marciano.

- Sonhei contigo. Mas quero que se realize, então não posso contar.
- Conta...
- E se nao se realizar?
- Dependendo do sonho pode ser realizado.
- Não sei se quero correr o risco. Você é imprevisível demais pra saber.
- Arrisca... ou você tem medo de arriscar?
- Ai você me incita. É que eu acho que faz parte da minha opinião em relação as portas... que parecem sempre fechadas. E quando ta escuro, eu não sei se ela vai estar aberta, ou se eu vou dar de cara com ela... Acho que tenho medo de machucar o rosto.
- Não tenha medo.
- O que me garantiria que eu nao tenho que ter medo?
- Eu estou falando pra não ter. Não vou dar com a porta na sua cara.
- Promete?
- Prometo.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Até onde a voz pudesse ir


Se eu gritasse para o mundo ouvir
Até onde a voz pudesse ir
Eu não seria um sonhador
E nem mais um segredo, meu amor.

terça-feira, setembro 01, 2009

Eu sou, eu sou amor, da cabeça aos pés.

Já estou cheia. Cheia de me sentir tão carregada de tudo que eu não posso exprimir. Eu não quero me controlar. Não preciso multilar as minhas vontades pra esperar que o tempo cochiche ao meu ouvido que é a hora certa. Matar a sede na saliva já não é do feitio de ninguém. Mas ainda é do meu, da minha essência meio arcadista, meio 'carpe diem'. De repente tudo virou de ponta cabeça e eu, por amar demais, me tornei a anormal da história. Não gosto de controle, de passos ensaiados. Eu sou do espontâneo, do que dá na telha. No fim das contas tudo isso me fez sentir um gostinho salgado na boca. Me fez sentir completamente exclusa desse estilo contemporâneo egoísta, onde alimentar a si próprio se torna centenas de vezes mais importante que alimentar o outro, mesmo que a fome dele seja maior. Estou perdida nos meus sacrifícios matinais e nas minhas escolhas topetudas. Tudo isso se tornou aberração. Toda dedicação virou pó. Nada mais vale a pena, porque todas as almas encolheram, toda a essência romantica sumiu. Por tempos me recusei a acreditar. Mas me bateram tantas portas na cara que não posso mais deixar de adimitir: O mundo é volúvel.

E eu não sei sobreviver por muito tempo a coisas que me excluem.