segunda-feira, setembro 14, 2009

Ao som do Vinícius.

Carlos chegou cansado de mais um dia de trabalho estressante como todos os outros, e não pensou antes de tirar os sapatos e se largar no sofá. Tateou a mesinha procurando o controle do DVD player, escolheu uma das músicas do CD da Maria Bethânia que já estava lá pela fossa do dia anterior. Levantou o braço novamente para pegar o maço de cigarros e relaxou a cabeça no braço do sofá para logo dormir e levantar no meio da madrugada para deitar na cama vazia, com cheiro de nada, com cara de dor. O telefone tocou, o primeiro pensamento foi não atender, mas o som se tornou insistente e perturbador.
- Alô.
- Carlos?
Com algum esforço, ajeitou a coluna para que pudesse ouvir a voz do outro lado. Havia reconhecido, claro. Mas pensou ser um sonho, achou que já havia cochilado no sofá e agora delirava ouvindo a voz dela, justamente dela.
- S-sim, sou eu. - Gaguejou.
- Eu quero conversar com você, podemos?
- Mas já passa das nove da noite.
"Idiota, você não deveria ter dito, vai fazer com que ela não venha, que bobo você, Carlos, bobo! Está de calças borradas porque a mulher te ligou e coloca ela pra correr com duas palavras, bobo!"
- Estou de carro, chego aí dez minutos. Podemos conversar? - Repetiu, insistente.
- É claro.
Desligou o telefone, buscou nos Cds algo leve, passou pelo Caetano, pela Gal Costa, pela Marisa Monte. Parou num especial 'Tom canta Vinicius', e escolheu a música para a ocasião. Tocava "minha namorada" quando Melissa tocou a campanhia.
- Demorei?
- Nem cinco minutos! - Deu um sorriso amarelo, que não disfarçou a sua empolgação. - Senta...
- Obrigada.
Ela sentou olhando para todos os lados do apartamento, como se procurasse algo de familiar, algo que lembrasse a única vez em que passara a tarde ali. Mas não havia mais nada. O que viu foi um apartamento com toques masculinos, roupas espalhadas pelo chão, restos de comida e de cigarro por toda a casa, livros, livros e livros. Aconchegou um pouco o pescoço e se manteve olhando para o teto, tentando ganhar fôlego. O rapaz apareceu na porta com uma garrafa do mesmo vinho daquela tarde, que ela nem pensou em recusar.
-Temos que conversar, não é?- Ele disse, enquanto colocava gelo nas taças.
-Temos, eu tenho, eu preciso, nós precisamos.
-É?
Melissa levantou a cabeça bruscamente e olhou para Carlos, não notando que o movimento a havia feito apanhar o queixo do rapaz com uma das mãos.
-Você sente algo por mim?
De feliz, o semblante de Carlos passou a desesperado. O coração pulsava como que em uma maratona, a boca secou, as mãos tremiam e vinha uma sensação de torpor. Ele cauculou a respiração, contou alguns números para se acalmar, mantendo a linha de serenidade que ele, como bom ator de teatro deveria saber encenar. Sabia o que aquela conversa resultaria. Conversas do tipo "nós não podemos", sorrisos frouxos, despedidas convenientes e algumas noites em claro.
-Ah, Melissa... Eu nao vou posso negar que numa época dessas eu confundi as coisas, e passei a sentir algo que nem eu sabia o que era... e que era forte pra caralho. Só que aos poucos acho que a euforia da situação foi passando. Você é linda.
Ela enrubeceu.
-E às vezes eu olho e digo: "meu Deus, que menina mais perfeita!" e meio que te adimiro. Você me atrai, sempre me atraiu, mas sentimento é algo mais amplo, então...não.
-É só isso?
-Se você quiser, depois eu te digo algumas outras coisas...ou não.
Fez-se silêncio por um tempo.
-Na verdade, são coisas que nem cabe mais comentar. Deixa pra lá.
-Eu quero ouvir o você tem pra falar.
-Eu não quero.
-Você ta desistindo sem tentar...
-Não sei ainda começar uma guerra pra não ganhar, Melissa. E eu sei que eu não vou ganhar. Eu não luto pra perder.
-Tenho que ir.
-Está tarde, não quer ficar? Eu durmo aqui mesmo, e você dorme na minha cama.
-Não, não, estou acostumada. Obrigada, Carlos. Até amanhã.
-Cuide-se, juízo!
-Não precisa desejar, é só o que eu tenho tido.
Ao fechar a porta ele se pos a gritar, não sabia se sentia alívio ou dor, mas era um grito fino, quase que discreto, para não acordar mais ninguém além dos seus pudores que naquele dia estavam inegavelmente acordados. Num papel amarrotado, rabiscou 'Que linda namorada você poderia ser', e fumou os cigarros da semana inteira. Do outro lado da cidade, Melissa parou em frente ao seu apartamento, na garagem o parabrisa do carro destacava a frase escrita após a chuva. "Eu quis ser."

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