sábado, setembro 26, 2009

Arlequim de outra história

- Você nao é mais colombina, não é?
- Acho que não.
- E por quê?
- Não sei. Só sei que não sou
- Eu também nao sou mais um Pierrot.
- Não?Por quê?
- Não sei. Só sei que não sou. Ou que não posso ser. Mas tem toda uma historia... Não dá mais pra ser pierrot.
- Tem? Conta pra mim?
- Conto!
- Era brincadeira...
- Mas eu conto, se você quiser...
- Então conta!
- Era um dia de carnaval. E eu, fazendo jus a minha lágrima de Pierrot, não era muito de folia. Permanecia sentado, esperando a festa acabar, e todos os confetes cairem no chão, me dizendo que não havia mais tempo pra fantasia. Mas foi aí que me apareceu alguém... Uma colombina. E uma Colombina que também não queria folia. Não era a primeira, de fato. Aliás, eram as outras que haviam feito de mim Pierrot. Mas essa... Essa sentou ao meu lado, essa me deu o seu colo. Essa, assim que cheguei e toquei as suas costas por trás, se afogou em mim num abraço que eu queria evitar pra não pensar. Pra não me aceitar Pierrot, pra esquecer as fantasias. Mas eu já era um. Já tinha me tornado 'o sofredor dos amores não correspondidos', que era sempre roubado pelo Arlequim (e haviam tantos Arlequins naquela festa...). E eu passei um tempo assim, sendo Pierrot todos os dias, sem confetes e sem festas. Até que me veio uma daquelas primeiras personagens que me fizeram o personagem. E ela me puxou pra dançar... Aos poucos a lágrima foi se apagando. Quando me vi, eu era um Arlequim de outra história. - Parou por um instante para tomar fôlego - Não vou dizer que não me pego pensando se não posso ser Arlequim dessa e Pierrot daquela (e talvez seja...), mas de qualquer forma, eu danço a música que toca, e com o par que me escolhe. Não sei se por incerteza de já não ser o mesmo o meu par, ou o medo de escolher um par e voltar a ser o personagem antigo. Ou se por preguiça de tentar, e me adaptar a esse nova/velha machinha de carnaval.
- Nossa...
- Então, satisfeita?
- Satisfeita.
- Mesmo? Até com o conteúdo?
- Era pra não estar?
- Não sei. Eu continuo sendo um Arlequim indeciso.
Fez-se silêncio por alguns instantes.
- Sim, mas você continua não sabendo por que não é mais colombina?
- Agora eu não sei mais o que sou.

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