terça-feira, outubro 27, 2009

Esconderijo

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Tenho passado tempos longos tentando abortar tudo isso que insiste e deságua em mim. Cada passo nesse mundo louco de mau-me-quer e bem-me-quer me parece cansativo em demasia. Ainda assim, me flagro pensando nas oportunidades mil desse espaço absurdo de grande, nesse carinho bom de ter, nessa magia louca. Tenho vontade de correr e gritar, expelir um daqueles gritos estilo Paulie - Lost and Delirious. O tempo passa mais rápido que o habitual, só pra tornar mais difícil voltar e rever os meus desvarios. Colho rosas vermelhas pra ninguém, choro por nada, ouço músicas tempestivas ao relento. Talvez tenha deixado de ser o muito que me tomava, ou são só os dias pesados e negros pela ausência de cumplicidade que me deixam assim. Talvez seja pela lembrança de afago, ou o medo das surpresas que se tornam rotineiras, mas nem por isso importunas. Ao final, não aborto nada. Pelo contrário, abordo tudo. Minuciosamente, ajeito cada detalhe como num jogo de xadrez, e modéstia à parte, quase sempre chego ao xeque-mate. Escolho as peças e a hora de jogar, faço o jogo um tanto contido, preso a correntes fortes. Cego qualquer detalhe do meu íntimo, deixando o sentimentalismo pra as telenovelas que tenho assistido em maior escala, mesmo sem perceber. Finjo fácil que não há no meio disso tudo um órgão que pulsa, finjo que não há nada que bombeie o sangue que ponho pra fora quando me furo com os tais espinhos de que tanto falava. Sou um personagem, sou tudo, sou todos, sou ninguém. Mas a única que não sou, sou eu mesma.





"tenho um coração, bem melhor que não tivera."

quarta-feira, outubro 14, 2009

Soprando o pó das ilusões.

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Vesti a blusa que ela mais gosta, melhor ainda... A que um dia num desvario, ela se pôs a comentar que me achava sexy vestido. Não tinha a certeza de encontrá-la, mas não custava nada almejar isso. Já no fim da tarde foi que pude vê-la. Ela sorriu, e sorriu tão linda... Foi pela minha presença o sorriso. Então eu parei o meu veículo imponente de duas rodas na sua frente, enquanto me lambuzava de maça do amor. Amor, justo amor. O que eu não sentia, não sinto. O que me recuso o tempo todo a sentir. Ela comentou algo sobre a minha boca suja, me dando adjetivos infantis. Perguntei que caminho seguiria, e assim que me disse, decidi que iria vê-la. Talvez eu gostasse de estar ao seu lado, gostasse da sua companhia. Talvez fosse pelo fato dos dias sem conversar com ela, ou simplesmente um carinho tácito por aquela menina com olhos de cigana e corpo simétrico. Minutos depois eu já estava indo encontrá-la. A vi de longe, sentei-me ao seu lado e soltei as gargalhadas que ela me despertou, fosse por graça ou nervosismo. Disfarcei com um sorriso frouxo o meu desconcerto quando a ouvi falar dum outro romance. Quando o relógio apontou o tempo de término pra ela, me levantei também. Não diferente do costume, ela beijou o meu pescoço e eu agitei de leve. Sorri, adorando-a um pouco. A vi indo e fui-me também, afinal, ela era o único motivo que me fazia estar ali. Gosto de estar assim, gosto de vê-la de perto, mesmo tendo-a de longe. Como que de alguma forma me alivie essa distância paradoxalmente próxima. Prefiro que seja, mesmo sem ser. Prefiro a certeza de um carinho que me pertencerá sempre, e que no meu íntimo, é inevitavelmente recíproco.


Num daqueles dias em que o meu eu - lírico
se transforma no eu - outro só para satisfazer a minha imaginação.

sábado, outubro 10, 2009

Polivox.

Mão.
corpo.
pele.
toque.
vontade.
impulso.
consequência.
tristeza.
peso.
arrependimento.
escolha.
dúvida.
insistência.
repulsa.
resposta.
pergunta.
tentativa.
objetivo.
alcance.
vitória.
consciência.
medo.
segurança.
insegurança.
martírio.
tortura.
decisão.
coragem.

Polivox polivox polivox polivox polivox ...

sexta-feira, outubro 09, 2009

Afogar-me a deriva de ti.


Tu puseras nos meus olhos uma venda
Para que eu não pudesse ver-te por dentro
Para que os meus olhos-terra não lessem
Os teus olhos-folha.

E frente a sua vontade o meu olhar insiste
A fim de descobrir-te além do superficial
Mas tu és ainda a minha incógnita
O meu desatino secreto

Tu és a frágil linha entre o querer e o poder
O meu segredo, minha busca.
És a sombra que em mim permanece
Como furacão que passa e faz ventar o coração

És de tudo, o que não sei renegar
A insistência da taquicardia
E o desejo de que sejas para mim
Algo que vá além das definições humanas

E se quiseres, ah, se quiseres
A minha vontade de ti
Matar-te-ei em beijos mil
Num só segundo de cada olhar.

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remexendo novamente no meu relicário...

quinta-feira, outubro 08, 2009

Como um elixir de vida.

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Eles chegaram em meio à noite. Pedindo solução para a vida de um ser de apenas dois dias. Uma menina, Luiza. Me pareceram aflitos e inseguros, embora amorosos e dedicados. Sem pensar, a mulher (minha), puxou o seio farto cheio de líquido. A sensação foi louca, desconcertante, inquietante. Incrível como havia ali algo como um elixir, algo que saia de um corpo de pele, carne e osso, como todos os outros. Mas um corpo feminino que expirava fecundação, parto, proliferação da espécie. Vida que dá vida. Vida que espirra existência entre as pernas, justificando muito mais do que o nosso vão conhecimento. O que sei é que estar nesse espaço redondo é mesmo algo muito louco.

domingo, outubro 04, 2009

Nostalgica.

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Essa noite eu tive um sonho. Mas não foi um sonho comum, como todos os outros, de todas as noites. Foi um sonho com alguém com quem perdi um elo forte, e me rendi à conveniência. Onde eu chorava sem vergonha ou preocupação. Isso me fez pensar nos laços que tenho perdido. Não porque quero, ou desfaço, mas porque eles tem sido desatados como nós. Um dia sem se falar resulta em 10 anos*. Custei a acreditar que aquele grupo de sete já nem existe mais. Custo ainda hoje a crer que tantos outros foram embora, se desabrigaram de mim. Não gosto do fato de ter que aceitar que as coisas tem terminar. As pessoas ainda estão ali, ainda há tempo. Mas quem tentaria? Não eu, nem o outro. Não há quem tente dar um passo à frente, o passo que talvez redefinisse linhas para a vida inteira. Continua tudo assim, incomodando nos dias como hoje, em que devaneio um pouco mais. Logo passa, eu sei, sempre passa.

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* comentário de Mariana Pimentel.

Eu sinto saudade.

sábado, outubro 03, 2009

Transparece nas veias.

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Meus olhos grudam nesses deslizes meus, meu pensamento gira em torno de muito mais que conflitos, talvez tão verdadeiros quanto a minha vontade de que tudo termine, ou seja um sonho ruim. Tenho reconhecido o meu pesar, por entre todos esses disfarces mau feitos. Viro a cara, finjo esquecer e passo reto. Caminho na corda bamba sem balançar, e escondo que não gosto de não receber palmas ao fim do espetáculo. É a verdade o que me assusta. Assusta não saber lutar para mudar. Assusta que eu permaneça imóvel e pareça tão incólume. Mas eu tenho coração. E (surpresa!) ele pulsa. Sente. Pede.

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sexta-feira, outubro 02, 2009

Evapora, ou é cinza.


( Enquanto a sua imagem vai e vem,
Aonde posso ir se você não está?
O sol me reconforta, e eu ando .
E sei que você anda por ai.
Eu nunca mais te vi ao meu redor.
Nem sei se eu me encontrei ou te perdi.

Café ou sorvete

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-É como querer ao mesmo tempo café e sorvete, sabe?
(...)
-Você já se sentiu assim?
-Acho que não...
-Sorte sua.


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quinta-feira, outubro 01, 2009

mais[ou]menos.


"Eu preferia você mais humano e menos fiel"
...Só porque a frase continua martelando na minha cabeça até agora.