domingo, novembro 15, 2009

Uma dose de whisky.

A festa estava passando, afinal. E para maior alegria, com a companhia desejada. Mas não estava completo esse estado de espírito, pois o desejo era estar mais perto, mais amante, menos amigo. A garota pediu que fossem sentar fora da casa, que conversassem, que ficassem juntos.

- Vamos sentar ali. - falou, apontando para o passeio vizinho.

Mas havia alguma força ali que os puxava para perto. Eles trocavam olhares pedintes, ainda que não falassem. Ele a recostou na parede, ela sorriu, mesmo estando assustada, com medo do que aconteceria naquele momento. Ele vacilou, e deu-lhe apenas um selinho rápido.
- Você não entendeu mesmo o combinado, não é?
- Mas que combinado?
- Nós combinamos que você teria paciência.
- Eu te peço poesia, e você me pede paciência!
- Pressa combina com dor.
- Você já sentiu muita vontade de alguma coisa?
- Claro que já.
- E conseguiu não ter pressa de alcançar?

Fez-se silêncio. Ele sorriu, como que se deliciando com o seu triunfo.
- Vamos tomar um whisky? - Ela disse.
- Pra te dar vontade?
- Pra me dar coragem.

Tomaram o tal whisky. Mas os olhos de escudo da garota pareciam aveludados, impossíveis de serem ultrapassados, e ainda que fossem, eles eram tão diferentes das limitações daquela menina ... dentro dos seus braços, presa aos seus medos, tão menos independente que aquela que ele via todos os dias. Secretamente, ela pedia que ele a desafiasse. Que encostasse novamente na parede, que lhe tirasse o fôlego e não prolongasse a culpa que dentro dela insistia em explodir. Junto com a sua face que passara de cor de pêssego para quase tomate. E o corpo que parecia entrar em erupção, enquanto ela quase sentia o vapor sair pelos seus lábios. Sabia que com ele acontecia o mesmo, quase podia sentir o coração do rapaz aos saltos. Mas ele não se moveu. Ela olhou para o relógio e fingiu se assustar com o horário.

- Eu preciso ir.
- Mas...
- É tarde.
- Eu levo você.
- Eu estou de carro.
- Deveria ter adivinhado.
- Um dia alguém me disse que me preferia assim.
- Faltou a minha blusa favorita.
- Faltaram coisas demais essa noite.

Ela levantou-se. Ele não se moveu, acompanhou com o olhar a saída da garota, e quase sentiu rufarem os tambores e soarem os clarins enquanto ela caminhava pela calçada em direção ao carro. Não sabia se extasiava pela beleza luxuriante da menina ou se martirizava por continuar sendo o covarde de sempre, o mesmo homem que não suportaria a ideia de receber um não. A lua parecia rir-se dele. Até ela havia encantado mais aquela mulher. Milhares de pessoas no mundo seriam capazes de dizer sem medo o que sentiam. E quantos outros homens ela beijaria além dele? Quantas outras vozes cochichariam besteiras ao pé do ouvido da garota dos sonhos do borra botas que aquela altura do campeonato ainda era o jogador a sair de campo em todas as jogadas? Ele permanecia com medo de todas as fraturas futuras, continuava sonhando grande e fazendo pequeno. Pegou mais uma garrafa de whisky e duas aspirinas, foi embora com a mesma dor de cabeça de sempre. Que pra ele mais cheirava a incompetência, e que pra ela, naquela noite, soava como o fim.

Um comentário:

Griitoo disse...

Oláá !
Encontrei o teu blog nem sei bem como, li o post e gostei bastante de duas partes. ((Claro, gostei do texto como um todo, mas em particular de duas partes.))
Eu retirei essas duas partes e coloquei no meu fotolog.. claro, devidamente identificado com o teu nome, não retirando nenhum direito de autor xD
Espero que voce não se incomode :/
Ah.. e eu tbm te add no meu blog. Ele está em construção por falta de tempo e vergonha na cara.. :D

Caso voce queira ver o post do fotolog.. www.fotolog.com/amteya

:*