segunda-feira, dezembro 28, 2009

Termina, e nasce outra vez.

Fim de ano é sempre a mesma coisa, a voz da Simone nas ruas perguntando o que você fez no ano que está terminando e já nasce de novo. Mas esse natal em especial, eu ouvi a letra da música até o final, pela primeira vez. Então, é Natal, pro enfermo e pro são? Pro rico e pro pobre? Num só coração? Ah, faça-me rir. Pro Branco e pro negro? Pra paz afinal? Desculpe, Simone... Mas não é. E dói perceber como os seres humanos estão cada vez menos humanos. Um arrepio me subiu a espinha quando no fim da música ouvi "Hiroshima, Nagasaki, Mururoa...", como dizer que existe Natal feliz com tão pouco sentimento? Tudo isso por quê? Onde foram parar os velhos ensinamentos do homem mais sábio que já existiu e disse "Amai ao próximo como a ti mesmo."? Tanto egoísmo não serve de nada. Orgulho, pra que? Vamos sorrir, minha gente! Vamos perdoar, vamos amar. Porque a vida é bonita, sim, é bonita e é bonita! Vamos nos dar chances diferentes, vamos viver sem pensar em competir. Porque não há nada melhor que uma vitória conjunta. Nada melhor que abraçar o outro e encontrar uma alma nua, sem especulações. Nada melhor que o sentimento puro, bonito, à flor da pele. Nada melhor que viver e ser feliz. E nós estamos vivos, não estamos? Ei, belisque-se agora, sinta! Você pode levar esse bumbum da cadeira e abraçar quem não abraça há anos, pode pedir desculpas e perdoar. Sorria, vamos! Fomos feitos anatomicamente capazes disso. Sentimentalmente capazes disso. Enormemente capazes disso.

Escapolindo dos lábios

-

Estou com medo de acordar a todo mundo com esses meus dedos pesados que fazem o teclado soar tão alto, mas eu precisava escrever. Fico a todo tempo abrindo a mesma janela pra ver se você foi embora, só que ainda está ali. E hoje eu assisti aquele filme, sabe? Aquele que te indiquei nem faz muito tempo...Ele me deixou sensível, com uma vontade enorme de gritar, de jogar a capa do meu orgulho fora, é algo como se você quisesse voar mas suas asas estivessem presas e machucadas demais, você me entende? Eu queria, queria mesmo te perguntar se aquele dia não pode ser hoje. Sim, aquele dia que a gente sempre se promete. "Um dia...", hoje, que tal? A janela está aberta e venta de leve, o céu me diz que essa madrugada será de chuva, e eu gosto de dormir quando chove. Vem dormir comigo? Acabo de abrir a janela novamente, mas nada. Você está ocupado e seria deselegante falar algo. Sem contar que a chance de levar um "passe-longe" aumentariam pelo menos 80%. Então fico me perguntando porque você ainda está acordado às duas da manhã e cochicho pra mim mesma que talvez você só esteja parado ali esperando mesmo que eu fale, pra que o seu coração pule. Que boba! Claro que não, menina. Não há coração nenhum pulando além do seu. E eu poderia mesmo usar o meu coração para dizer que o ano vai embora já já, que eu não queria continuar assim, sem correr atrás, esperando que o tempo passe e a gente (não) se fale. Esse músculo aqui dentro me irrita essa noite, esse calor, essa insistência...Tudo o que dilacera as minhas veias e explode lacrimejando os meus olhos cansados. Olho a janela de novo, você se foi. Eu, desespero. Sinto vontade de ligar, mas não. Apenas fecho os olhos e mentalizo: dors bien, mon petit.

sábado, dezembro 26, 2009

O outro dia.

-

Alice procurou o celular dentro da bolsa, e discou alguns números. Ocupado. O ciúme lhe subiu instantaneamente, e junto com ele, a velha estima em baixa, a velha dúvida de como ela ainda podia sentir que roubavam de si algo que nem se quer tinha. Ela tinha a cabeça girando e o alcool explodindo as suas veias, sempre que se sentia assim dizia "vou parar de beber, ando passando dos limites", mas uma semana depois já voltava as velhas doses cada vez mais diferentes e loucas. Afogava todas aquelas vontades nos copos cheios, nos cigarros, na música que parecia explodir os seus tímpanos. Assim, ela esquecia de tudo o que perturbava os seus instintos. Mas bastava tontear um pouco os passos para todas as coisas virem à tona, e de pressa levarem qualquer sanidade que ainda existia. Como que por programação, já enviava a mensagem que estava na caixa de rascunhos há tempos, e nunca havia tido coragem de enviar.

Because I love you so much. You're my poison, that
poison makes everyone crazy. I don't know take your smile
of my mind. I still wanna have you.

- Amanda?
- Alice? Amiga, como é que você me liga quatro horas da manhã? O que houve?
- Manda, eu bebi demais, tô na Happy, vem me pegar?
- O que você me pede chorando que eu não faço sorrindo? Chego aí agora, sua bebum!

Alice praticamente desmaiou no banco de espera da balada. E quando acordou, mal lembrava do que tinha acontecido na noite passada. A cabeça explodia e o mundo ainda estava de cabeça para baixo, o café que Amanda tinha deixado na beirada da cama lhe causava embrulho no estômago. Entrou no Messenger, mal se ajeitou na cadeira e ouviu o bipe de mensagem instantânea.

- Ei, você me mandou uma mensagem hoje?
- Só se foi por telepatia, acabei de acordar.
- Às quatro da manhã.
- Eu mandei? Meu Deus!
- Bebeu demais de novo?
- Ah, desculpe César, juro que não vai se repetir.
- Não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que você diz isso...
- Mas agora é sério.
- Depois conversamos, preciso sair.

A cabeça latejou um pouco mais e uma dor fina lhe fisgou o coração. Sentia vergonha, medo, mágoa. Era um misto insuportável de sentimentos pesados demais para uma manhã de ressaca. Chorou, com a cabeça recostada nos joelhos, de vez em quando batendo-a contra os ossos do membro. Odiava aquela insistência, odiava o fato de ter nascido naquele 29 de outubro que havia lhe predestinado tanta sensibilidade, tanta carência. Por fim, odiava-se mais um pouco. O telefone tocou, interrompendo o seu desespero. No visor, o nome do velho amigo, que parecia adivinhar o momento certo de ligar.

-Alô.
-Alô, Lice?! Bebeu todas ontem hein?!
-É...
-Que voz é essa?
-Ah, ressaca.
-Não é só ressaca, Alice, você chorou? O que aconteceu? Foi aquele idiota do César de novo, não foi?! Ah, faço picadinho daquele playboy metido à besta.
-Felipe...por favor...
-Não fale mais nada, minha pequena. Tome um banho, se arrume. Vamos sair.
-Sair? Mas pra onde?
-E quem disse que a gente precisa saber pra onde ir? Embreve você nem se lembrara dele.
-Isso foi uma cantada?
-Não, foi uma promessa.

Deixou que Felipe a levasse para sair. Passearam pela praia, foram ao cinema, depois viram o pôr do sol no MAM. Há coisas que devem morrer junto com a noite, devem ser expelidas junto com tudo o que se põe pra foram. Há sentimentos que não merecem acordar.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Paranóia delirante

Ela era uma menina cheia de sonhos. Sempre havia sido a mais sonhadora de todas, mas paradoxalmente, a mais sensata, madura, à frente do seu tempo. Pura imagem. Toda aquela frieza servia apenas para esconder o vulcão em erupção que havia dentro de Fernanda, e ela fazia isso com sucesso. Manipuladora, tinha aos seus pés todos os homens que desejasse, e quando os tinha, marcava-os para sempre. Mas nenhuma paixão durava muito mais que três ou quatro meses, "Pra sempre é tempo demais...", ela dizia, enquanto já olhava com os seus olhos de cigana para um outro rapaz e se esquecia do primeiro por quem devaneava à dias atrás. Não digo que ela não sentia. Ah, sim! Só que o seu poder de regeneração para com os sentimentos era de causar inveja. "É o signo!", dizia, rindo-se. Escorpiana nata, Fernanda não deixava a desejar quanto as caracteristicas que o horóscopo ditava, era sim, o vapor que resultava do contato entre o fogo e o gelo, o fascínio do almíscar. Mas havia por esses tempos acontecido algo que a garota nunca havia imaginado: Ela estava apaixonada. Não, não era novidade, verdade. Só que dessa vez era diferente. Ele era diferente. Ela, estava extremamente presa ao seu vulcão, e já não conseguia escondê-los quando eles explodiam em sua face, deixando-a rubra. Havia desaprendido todos os truques de sedução. Se via pouco, perto daquele rapaz lindo que parava a sua frente, dentro daquele carro vermelho que mais parecia uma nave e tudo o que ela desejava mesmo era uma passagem para o céu. Aquela passagem, aquele homem, aquele deus de ébano de cabelos loiros, encaracolados e aqueles olhos azuis que pareciam lhe convidar para entrar.
Naquela noite Fernanda estava mais sensível, era de todos os rapazes em anos, o único que ela havia desistido. Desistir não era do seu feitio. Sempre insistente e quase perturbadora, a garota iria ao inferno para conseguir o que queria. Mas dessa vez não. Não podia mais insistir. Aquele homem não a queria, e aos poucos ela foi se acostumando com a ideia de pelo menos um homem na face da terra que não se rendeu aos seus encantos. "Paciência - ela dizia - Virão muitos outros", com os olhos marejados, quase pedindo à rego, quase gritando que ele era louco, que devia ser gay. Mas permaneceu calada e triste. Triste à ponto de desapontar as amigas quando abriu a porta do apartamento de pijama, segurando uma caneca de café.
 - Eu não acredito que você ainda não se arrumou!
- Rebeca, não adianta, eu não vou sair.
- Claro que você vai.
- Eu nem tenho roupa, tô com cólica, quero dormir.
- Você fica menstruada uma vez por semana, Fer?
- Ah, chata. Riram-se.
Rebeca puxou uma roupa do guarda-roupa de Fernanda e fez sinal para que ela vestisse. A menina balançou a cabeça negativamente, puxou uma camisa do Kurt Cobain, um short jeans surrado e um par de havainas.
 - Você vai assim?
- Claro, nós não vamos só passear pela praça?
- Mas...Ele vai estar lá.
- Ele que se exploda.
- Fernanda gritou batendo a porta do guarda-roupa com força.
Mal chegavam a esquina e a garota já tinha os olhos brilhando. O viu de longe, já passava tanto tempo olhando para aquele "monumento" que podia reconhecê-lo a quilometros de distância. "Havia mais que o desejo da boca e do beijo", o Djavan se tornava perturbador. Passou a música rapidamente e deixou que a voz poser do mais novo cover da Madonna tocasse nos seus timpanos, mas mesmo a Katy Perry lhe dizia o que ela não queria ouvir. "You know I like my boys a little bit older. I just wanna use your love". Guardou o mp4player. O rapaz olhou para o lado e os seus olhos pousaram na garota. Se não fosse o seu pessimismo, veria que os dele também brilhavam. O coração de Fernanda acelerou quando ela viu Alan levantar do banco da praça e ir em sua direção. Respirou fundo, lembrou de todos os quesitos e esqueceu a raiva. Sorriu provocante e o fitou. Pôs a mão na sua nuca e beijou o seu pescoço.
 - Menina, pare com isso.
- Por que, Alan, você não é inseduzível?
-Eu disse que não tenho alguns sentimentos, o que não quer dizer que eu seja inseduzível.
- Mas você, sendo seduzido por mim?
- Isso é completamente possível. Aliás, provável.
Um arrepio lhe subiu a espinha. É, nem tudo estava perdido, afinal. Fernanda voltou a fitar o garoto que não lhe deu tempo de pensar. Terminou a frase num beijo. O mundo poderia terminar ali, que não haveria problema algum. Ela navegava naqueles azul maravilhoso sem pudor. Num movimento leve, Alan puxou as chaves da tal nave vermelha.
- Você tem horário pra chegar em casa?
Não, ela não tinha. Era suficientemente independente para fazer o que quisesse.
- Não tenho não.
- Então hoje você vai para a minha.

E Fernanda comprou a passagem para o céu, afinal.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

P.s: I love u.

Ela: Eu não posso. É como se eu quisesse comprar um sapato novo, mas ele não me serve.
Ele:
Então que tal ficar descalça por algum tempo?

[P.s. Eu te Amo - filme]





Simplesmente porque esses tempos eu tenho mesmo querido andar descalça, sabe? Mas acho que agora me ponho como a ala masculina da história. Meu peito quer baforar o convite que explode por aqui. Vem andar descalço comigo? Por que não se arriscar? Juro que só te daria uma caminhada, e todo o resto será por conta da sua vontade, vontade que eu sei que se tornará grande como a minha. Chega de contar vantagem! Quero ver você me provar toda essa perfeição que divulga para os meus ouvidos. Atitude, você tem? Então venha. Toque aqui agora, e me prove o quão bom você é.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Eu já não quero acordar.
























...me agarra na cintura,

me segura e jura que não

vai soltar.

Eu já não quero um sinal, já não desejo que me diga nada, não quero ouvir. Tenho medo, sabe? Em poucas palavras você pode colocar por água à baixo todos os meus sonhos. E é tão bonito sonhar... Quero mesmo é falar de você e sentir vontade de cantar. E lembrar do teu sorriso lindo, dos teus olhos feito pérola, da tua boca me dizendo que não ia me largar. Enquanto eu, tímida, apenas pensava em mil frases diferentes pra te dizer, não dizendo nada. Talvez nem precisasse, meus olhos lhe diziam tudo. Eu sabia que naquela hora os tais olhos de cigana que você comentou dia desses estavam marejados e sedentos. Sabia que num só olhar eu quase lhe tirava o fôlego e a roupa. E me é bom por demais lembrar de tudo assim, sem mágoa. Sentir subir o calafrio ao lembrar do seu olhar cruzando com o meu quando os acordes do violão tocaram, olhar que permaneceu me seguindo durante a noite, que me conduziu, me prendeu, me controlou. E como num jogo, trocamos de posição muitas vezes. Preciso de muito mais que isso, verdade. Mas quero lhe dizer que esses suspiros não podem passar, e tudo deve permanecer bonito. Pois eu já me cansei da valsa triste, quero tango! Sedutor, quente, inebriante, eterno. Não, não...Eterno é tempo demais. Eu quero o tempo de um passo em duo. E outro, quando os pés sapatearem no salão, pedindo aos corpos que se juntem e se descubram e se envolvam até a nova dança começar.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

- ENTRA -

Pode entrar que a porta tá aberta
E deita na cama, seu lar, meu ser
Se quiser até fica
para sempre
Faz meu
existir valer a pena
Faz meu ser, ser feliz, com o teu ser
Brinca comigo, como se não fosse nada
Me transforma no que quiser
Me deixa na forma do seu brinquedo favorito
E não me guarde no armário ou no velho baú
Me aconchega no teu peito, e me deixa ser feliz
Assim como tudo ou nada
Assim, pra mim, vale a pena
Mesmo que de brincadeira
Te ter
Faz da minha
súplica
O teu desejo
Descubra-me como quero:
Muito mais que beijo
Desprenda-nos deste engano
Basta-me uma noite
E só um pouco dos
teus olhos
Que se acabe num olhar
E recomece todos os dias
Como um elixir tomado muitas vezes
Pelo mesmo par de amantes
Que como diamantes
Insistem em não perecer!
(Eva Cidrack e Rosângela Pimentel)

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Toda esse beleza que tiveste.

-

Eram sete horas da manhã quando Rafael tocou a campainha da casa de Camila e Letícia. Desejava ver só uma delas, verdade. Mas tinha que se adaptar a ideia de não demonstrar os seus sentimentos, o que só funcionava na cabeça dele, porque fora dela, todos já tinham percebido o seu amor exacerbado por Camila. Letícia atendeu a porta com animação, estava de pé fazia tempo. Diferente de Camila, ela conservava uma vida bastante diurna.

- Rafael, bom dia! Entre...
- Bom dia, Letícia, Camila não está em casa?
- Claro que está, e você não conhece Camila? Deve estar no nono ou décimo sono agora. Mas espere, eu vou chamar.
- Não! - enrubesceu um pouco - Se não for incômodo, gostaria que eu mesma fosse acorda-la.
- Ah, tudo bem...

Entraram no quarto, os dois. Letícia concentrou os olhos na prateleira de livros, para não parecer inconveniente. Rafael parou em frente a cama, deslumbrado, encantado. Como se naquela cama houvesse uma obra prima, uma beleza rara que não se via em anos e anos. Camila acordou assustada.

- Rafael? Meu Deus, eu devo estar horrível! Espere, já volto.

Camila correu em disparada para o banheiro. Nos segundos que corria pensava no porque de Rafael ter tido a infeliz ideia de aparecer justamente aquela hora da manhã. Ela devia estar horrível. Sem contar que o ciúme já lhe mordiscava o coração por ter deixado o rapaz no quarto sozinho com a amiga. Nunca havia admitido, mas morria de ciúmes daqueles dois. Talvez por achar Letícia tão mais bonita, atraente e simpática que ela.

"Muito mais apaixonante, covenhamos", pensava, enquanto arruma os cabelos negros e encaracolados.

No quarto, Rafael já estava sentado sobre o criado mudo sem perceber, o êxtase era tão grande, que ele já não notava muito dos seus movimentos.

- Letícia...
- Oi.
- Ela acorda sempre linda assim?
- Olhe, Rafael... Não. Mas você a verá linda todos os dias.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Esse tal planeta vermelho.

Como duas crianças bobas, como dois ímãs soltos por forças incalculáveis, tudo em nós termina em guerra. É esse tal planeta vermelho mordiscando os nossos instintos nervosos, fazendo de cada desafio impossível de não ser cedido, ou proposto. Mas temos medo, sim, medo do que faria de nós ainda mais distantes, inconstantes, temperamentais. Sei que por ai também ronda aquela velha vontade de 'tentar ficar amigos sem rancor', desperdiçamos muito ainda desse desejo por sermos tão iguais e paradoxalmente diferentes, por tanta inconstância, por tanta imprevisibiladade. Uma mistura difícil, verdade. Só que cada vez mais excitante justamente pela dificuldade. Se livrar dos instintos guerrilheiros? E por quê? Cada carinho é um tiro ao alvo, e de vez em quando, o sangue pinta de vermelho as nossas camisas. Então a gente diz o que ninguém diz. Pensa? Ah, quase nada. Só o suficiente para deixar o outro louco, sem palavras, quase (e essa primeira palavra é mesmo muito importante) machucado. É estranho, mas toda essa briga acirrada nos faz parecer menos sós. Como se à cada levantar de tom, a cada insulto, a cada mania de querer ser o primeiro a dizer a ultima frase que ressoará por um tempo na cabeça dos dois, nós nos tornássemos mais humanos e parecidos, menos indiferentes. E no final? Ah, no final fica tudo no mesmo. Porque afinal, a gente só queria sair da rotina. E para as piores brigas? As melhores reconciliações.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Mistério e solidão.

Porque hoje, era disso que eu precisava.
Ser, apenas ser.

Engraçado, havia esquecido desse comentário, que me arrancou uma curiosidade tremenda na época em que foi postado, e depois a curiosidade for adormecendo, adormecendo e em pouco tempo eu já nem lembrava mais. Só que hoje por uma coincidência dei de cara com ele de novo. Um pouco mais carente que o habitual, desejei um colo. Do tal anônimo, talvez. Ou de qualquer pessoa que entendesse o que há por trás dos meus olhos e do meu sorriso amarelo. De qualquer pessoa que pudesse me olhar e definir plenamente o que há aqui dentro ardendo feito fogo. Alguém que num olhar soubesse muito além das palavras que solto boba de vez em quando, e que fogem da realidade...ah, às vezes sou tão utópica! É, queria ter decifradas as minhas utopias só pra me afogar sem compromisso num abraço. Sem contas pra prestar, sem culpa, sem dor. Hoje a regra 'corpo quente, coração frio' não funcionou, e nem me esforcei pra se quer passar perto disso. Admito: Quero colo, vou fugir de casa, e peço em súplica pra dormir aí, com você. Passo por aí. Ligo antes, pode deixar. Juro que entro sem que ninguém veja. Mas só por hoje, deixe que eu repouse a minha cabeça cansada sobre o teu seio. Sim, mas de quem? Ah, não sei. Só sei que queria atingir a combinação plena de tudo, me sentir completa. Estou perdida em pedaços por todos os cantos. E hoje eu só quero colar os cacos, e descansar. Nada mais que isso, nada mais.

- Que tal aparecer, anônimo? xP

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Perco a voz.

-Alô.
-Pedro?
-Ele mesmo.
-Reconhece a voz?
-Claro! Oi Bia, desculpe não ter te dado atenção no colégio, estava com pressa. O que você queria me dizer?

(Queria dizer que sinto sua falta, só por alguns dias sem te ver. Queria falar dos teus olhos... Ah, os teus olhos! Eles me dizem tantas coisas... Cada linha dourada parece pedinte, parece louca, parece querer tanto carinho que me derrete, e me deixa perdida. Mas os teus braços não pedem, tua boca não cede. Queria te dizer que quando você se recosta na parede e puxa minha cintura como quem diz "vamos, me abrace logo...", e põe a cabeça no meu ombro, eu peço que não termine, e que você não diga que o tempo acabou, que precisa ir, que você não saia pulando serelepe para abraçar outros e outros corpos. Programo estar menos aflita e pareço não me importar, quando você vem e me toma, e me diz que não vai soltar. Mas sempre, sempre solta. Tento não expor os meus olhos cheios d'água. Então você me vem num dia comum e deixa escapar qualquer coisa assim, sem querer, me rendendo um dia cheio de sorrisos bobos. No outro você prefere não olhar para o lado. Queria te falar que gosto da maneira como você joga o cabelo para trás e dirige o seu carro. Queria te dizer que te gosto um tanto de dar medo. Queria te pedir para usar aquela blusa preta que eu adoro hoje à noite. Queria te pedir para olhar nos meus olhos de vez em quando, mas que por favor, não aperte a minha mão daquela maneira de novo. Ou que aperte sim, mas que aperte para não mais soltar. Queria te dizer que hoje eu vou te chamar para sair. Pra que saber aonde ir? Vamos sem rumo, por ai, por onde der na telha. Passo pra te pegar às 7h.)

-Ah, sim, sem problemas. Está melhor da gripe?
-Sim, sim. Melhorei bastante.
-Que bom!
-Então, era só isso mesmo? É que eu preciso ir ali.
-Ah, claro... Pode ir, não quero te atrapalhar.
-Você não atrapalha.
-Beijo.
-Ãh? Ah, sim, beijo.
-Beijo.

pimpimpim.

- Sempre que estou indo,
volto atrás.(♪)

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Adeus, maturidade.

-

Vou jogar fora a minha maturidade. Não se choque, por favor. Nem deve ser assim tão sério jogar fora essa ponte para a resolução de todas aquelas brigas cheias de acusações infantis. O que eu acho de verdade é que ela anda fazendo um trabalho bonito com as minhas mágoas, afogando-as tão fundo que já nem consigo perceber em que parte do lado esquerdo do meu peito elas se encontram. Mas em dias como hoje, meu Deus! Elas se tornam insuportaveis e latejam de um lado para o outro como se desejassem ecoar, atravessar os meus lábios num grito alto, aquele mesmo que eu preferi não soltar, aquele que eu escondi com o meu antigo 'tá tudo bem...' e algumas lágrimas. Só que hoje as mágoas querem berrar. Dizer que não, eu não entendi nada daquilo. Dizer que eu queria correr e abraçar, e dizer que amo, sim, que amo mesmo. Dizer que aquele discurso foi pura imagem. Eu quero mandar embora a maturidade e todas as minhas mentiras sinceras, tão convincentes que até eu custo a acreditar que são falsas. Quero dizer as minhas verdades agora. Quero baforar por ai tudo que escondo, tudo o que deixo para mais tarde, tudo que espero que aconteça. Vou jogar fora a minha maturidade, e tenho dito.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Olhos - Claros como o dia.

-

"Oi, eu não posso atender agora, deixe o seu recado depois do bip". Essa era no mínimo a décima vez que Rafael ligava para ela. Tinha entendido, afinal, que não havia ninguém em casa, mas depois de um tempo ligava mesmo só pra ouvir aquela voz que lhe parecia pueril por demais, mas que de vez em quando se tornava grave e ele ria-se pensando "coisas da idade". Abriu a porta do apartamento e antes de qualquer coisa ligou o notebook que parecia mesmo pedir para ser ligado. Conversas no Messenger eram a sua diversão de todas as noites. Sem baladas ou barzinhos, e agora sem nem tefonemas com mil convites. Todos os seus amigos já haviam aprendido: Ele havia mudado. Há algum tempo já não saia, não passava todas as noites em farras, não acordava no outro dia na casadaputaquepariu porque tinha posto a comida das últimas três semanas para fora. Não adiantaria ligar, implorar, ou mesmo arrastar Rafael para fora de casa, ele não sairia. Tomou um banho rápido e sentou-se no sofá, tragando o oitavo ou nono cigarro do dia. Em muito pouco tempo, o bipe que ele esperava ouvir soou.
- Quero te falar algo.
Alice. A menina dos sonhos de qualquer homem. Tinha cabelos loiros que se enrolavam entre os dedos de Rafael nos mais secretos sonhos. Olhos azuis impossíveis de ler, e um corpo que parecia esculpido milimetricamente. Agora, a menina havia de lhe dizer algo. Como controlar o coração que já pulsava involuntariamente? Esperou as palavras aparecerem na tela, as imaginou lindas, em poucos milésimos de segundos. Mas essas demoraram mais do que ele esperava.
-Digita...
-Não.
-Por que não?
-Porque não é o que eu quero dizer. E o quero, não consigo escrever.
-Posso te pedir uma coisa?
-Pede...
-Me diz as coisas... Me diz tudo o que você quer dizer, não fica com tanto medo, ou vergonha... ou seja lá o que for, nem que a gente tenha que fazer um trato de que eu vou esquecer se você nao quiser que eu lembre. Eu só quero que você me diga, porque talvez eu precise ter de você algumas palavras pra segurar tantas outras que eu solto.
-Eu vou tentar.
-Tenta agora?
-Agora não.
-Eu ia pedir justamente que você não me dissesse não...


O usuário parece estar offline.

Mágoa.

"Queria esquecê-la. Queria traí-la. Trancá-la lá fora sem pena da chuva. Deixando-a molhar como pano de porta, que sem borda aos poucos se encharca. Queria poder juntá-la com as mãos e com desespero de marujo perdido, arrancá-la para fora do barco. Deixá-la à deriva em companhia das ondas. Ela que se salvasse. Que se afogasse lentamente na imensidão fria dos mares. De longe eu acenaria em meu iate invencível, lamentando por não ter feito isso há mais tempo. Feliz por ter extirpado todo o tumor. Chegaria em casa tranqüila, talvez cansada da viagem. Tomaria uma Novalgina e iria cheia de graça pra cama. Sonharia com cores impossíveis e palavras ainda perdidas. Acordaria plena. Descansada. Completamente feliz. Escreveria meus versos roubados do invisível e ouviria os sons capturados do mundo. Prosseguiria vivendo a procura do irreal e do permitido. E seria feliz se não fosse a falta que se alojaria no peito (...) a reclamar junto com a lua sua ausência."
Alice Venturi

terça-feira, dezembro 01, 2009

Desabafo não poéticoIII


Sinto náuseas, meu estômago pede à rego e minha mente gira um pouco. Sinto tanta raiva de mim, e de tudo. Sinto vontade de fugir, de correr para algum lugar onde eu seja verdadeiramente livre. Eu não quero nada, nada, nada disso! Eu não aguento mais. Tá tudo tão complicado dentro e fora de mim... Enquanto as minhas lágrimas amarrotam o papel e a música toca nos fones eu me sinto tão fraca, tão pouco querida e desejada, e tudo me parece tão frio, mesmo quando ardo e meu suor me incomoda por demais. Continuo sendo nada mais que uma menina louca que se perde no vento e em alguns copos de cerveja gelada. Gelo para o fogo. Gelo para o ardor que aqui dentro incomoda bem mais do que achei que incomodaria hoje. Talvez eu precise ainda dizer muita coisa, pra muita gente. Ah, quer saber? Dane-se o mundo. Cansei.