terça-feira, dezembro 22, 2009

Paranóia delirante

Ela era uma menina cheia de sonhos. Sempre havia sido a mais sonhadora de todas, mas paradoxalmente, a mais sensata, madura, à frente do seu tempo. Pura imagem. Toda aquela frieza servia apenas para esconder o vulcão em erupção que havia dentro de Fernanda, e ela fazia isso com sucesso. Manipuladora, tinha aos seus pés todos os homens que desejasse, e quando os tinha, marcava-os para sempre. Mas nenhuma paixão durava muito mais que três ou quatro meses, "Pra sempre é tempo demais...", ela dizia, enquanto já olhava com os seus olhos de cigana para um outro rapaz e se esquecia do primeiro por quem devaneava à dias atrás. Não digo que ela não sentia. Ah, sim! Só que o seu poder de regeneração para com os sentimentos era de causar inveja. "É o signo!", dizia, rindo-se. Escorpiana nata, Fernanda não deixava a desejar quanto as caracteristicas que o horóscopo ditava, era sim, o vapor que resultava do contato entre o fogo e o gelo, o fascínio do almíscar. Mas havia por esses tempos acontecido algo que a garota nunca havia imaginado: Ela estava apaixonada. Não, não era novidade, verdade. Só que dessa vez era diferente. Ele era diferente. Ela, estava extremamente presa ao seu vulcão, e já não conseguia escondê-los quando eles explodiam em sua face, deixando-a rubra. Havia desaprendido todos os truques de sedução. Se via pouco, perto daquele rapaz lindo que parava a sua frente, dentro daquele carro vermelho que mais parecia uma nave e tudo o que ela desejava mesmo era uma passagem para o céu. Aquela passagem, aquele homem, aquele deus de ébano de cabelos loiros, encaracolados e aqueles olhos azuis que pareciam lhe convidar para entrar.
Naquela noite Fernanda estava mais sensível, era de todos os rapazes em anos, o único que ela havia desistido. Desistir não era do seu feitio. Sempre insistente e quase perturbadora, a garota iria ao inferno para conseguir o que queria. Mas dessa vez não. Não podia mais insistir. Aquele homem não a queria, e aos poucos ela foi se acostumando com a ideia de pelo menos um homem na face da terra que não se rendeu aos seus encantos. "Paciência - ela dizia - Virão muitos outros", com os olhos marejados, quase pedindo à rego, quase gritando que ele era louco, que devia ser gay. Mas permaneceu calada e triste. Triste à ponto de desapontar as amigas quando abriu a porta do apartamento de pijama, segurando uma caneca de café.
 - Eu não acredito que você ainda não se arrumou!
- Rebeca, não adianta, eu não vou sair.
- Claro que você vai.
- Eu nem tenho roupa, tô com cólica, quero dormir.
- Você fica menstruada uma vez por semana, Fer?
- Ah, chata. Riram-se.
Rebeca puxou uma roupa do guarda-roupa de Fernanda e fez sinal para que ela vestisse. A menina balançou a cabeça negativamente, puxou uma camisa do Kurt Cobain, um short jeans surrado e um par de havainas.
 - Você vai assim?
- Claro, nós não vamos só passear pela praça?
- Mas...Ele vai estar lá.
- Ele que se exploda.
- Fernanda gritou batendo a porta do guarda-roupa com força.
Mal chegavam a esquina e a garota já tinha os olhos brilhando. O viu de longe, já passava tanto tempo olhando para aquele "monumento" que podia reconhecê-lo a quilometros de distância. "Havia mais que o desejo da boca e do beijo", o Djavan se tornava perturbador. Passou a música rapidamente e deixou que a voz poser do mais novo cover da Madonna tocasse nos seus timpanos, mas mesmo a Katy Perry lhe dizia o que ela não queria ouvir. "You know I like my boys a little bit older. I just wanna use your love". Guardou o mp4player. O rapaz olhou para o lado e os seus olhos pousaram na garota. Se não fosse o seu pessimismo, veria que os dele também brilhavam. O coração de Fernanda acelerou quando ela viu Alan levantar do banco da praça e ir em sua direção. Respirou fundo, lembrou de todos os quesitos e esqueceu a raiva. Sorriu provocante e o fitou. Pôs a mão na sua nuca e beijou o seu pescoço.
 - Menina, pare com isso.
- Por que, Alan, você não é inseduzível?
-Eu disse que não tenho alguns sentimentos, o que não quer dizer que eu seja inseduzível.
- Mas você, sendo seduzido por mim?
- Isso é completamente possível. Aliás, provável.
Um arrepio lhe subiu a espinha. É, nem tudo estava perdido, afinal. Fernanda voltou a fitar o garoto que não lhe deu tempo de pensar. Terminou a frase num beijo. O mundo poderia terminar ali, que não haveria problema algum. Ela navegava naqueles azul maravilhoso sem pudor. Num movimento leve, Alan puxou as chaves da tal nave vermelha.
- Você tem horário pra chegar em casa?
Não, ela não tinha. Era suficientemente independente para fazer o que quisesse.
- Não tenho não.
- Então hoje você vai para a minha.

E Fernanda comprou a passagem para o céu, afinal.

Nenhum comentário: