sábado, dezembro 26, 2009

O outro dia.

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Alice procurou o celular dentro da bolsa, e discou alguns números. Ocupado. O ciúme lhe subiu instantaneamente, e junto com ele, a velha estima em baixa, a velha dúvida de como ela ainda podia sentir que roubavam de si algo que nem se quer tinha. Ela tinha a cabeça girando e o alcool explodindo as suas veias, sempre que se sentia assim dizia "vou parar de beber, ando passando dos limites", mas uma semana depois já voltava as velhas doses cada vez mais diferentes e loucas. Afogava todas aquelas vontades nos copos cheios, nos cigarros, na música que parecia explodir os seus tímpanos. Assim, ela esquecia de tudo o que perturbava os seus instintos. Mas bastava tontear um pouco os passos para todas as coisas virem à tona, e de pressa levarem qualquer sanidade que ainda existia. Como que por programação, já enviava a mensagem que estava na caixa de rascunhos há tempos, e nunca havia tido coragem de enviar.

Because I love you so much. You're my poison, that
poison makes everyone crazy. I don't know take your smile
of my mind. I still wanna have you.

- Amanda?
- Alice? Amiga, como é que você me liga quatro horas da manhã? O que houve?
- Manda, eu bebi demais, tô na Happy, vem me pegar?
- O que você me pede chorando que eu não faço sorrindo? Chego aí agora, sua bebum!

Alice praticamente desmaiou no banco de espera da balada. E quando acordou, mal lembrava do que tinha acontecido na noite passada. A cabeça explodia e o mundo ainda estava de cabeça para baixo, o café que Amanda tinha deixado na beirada da cama lhe causava embrulho no estômago. Entrou no Messenger, mal se ajeitou na cadeira e ouviu o bipe de mensagem instantânea.

- Ei, você me mandou uma mensagem hoje?
- Só se foi por telepatia, acabei de acordar.
- Às quatro da manhã.
- Eu mandei? Meu Deus!
- Bebeu demais de novo?
- Ah, desculpe César, juro que não vai se repetir.
- Não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que você diz isso...
- Mas agora é sério.
- Depois conversamos, preciso sair.

A cabeça latejou um pouco mais e uma dor fina lhe fisgou o coração. Sentia vergonha, medo, mágoa. Era um misto insuportável de sentimentos pesados demais para uma manhã de ressaca. Chorou, com a cabeça recostada nos joelhos, de vez em quando batendo-a contra os ossos do membro. Odiava aquela insistência, odiava o fato de ter nascido naquele 29 de outubro que havia lhe predestinado tanta sensibilidade, tanta carência. Por fim, odiava-se mais um pouco. O telefone tocou, interrompendo o seu desespero. No visor, o nome do velho amigo, que parecia adivinhar o momento certo de ligar.

-Alô.
-Alô, Lice?! Bebeu todas ontem hein?!
-É...
-Que voz é essa?
-Ah, ressaca.
-Não é só ressaca, Alice, você chorou? O que aconteceu? Foi aquele idiota do César de novo, não foi?! Ah, faço picadinho daquele playboy metido à besta.
-Felipe...por favor...
-Não fale mais nada, minha pequena. Tome um banho, se arrume. Vamos sair.
-Sair? Mas pra onde?
-E quem disse que a gente precisa saber pra onde ir? Embreve você nem se lembrara dele.
-Isso foi uma cantada?
-Não, foi uma promessa.

Deixou que Felipe a levasse para sair. Passearam pela praia, foram ao cinema, depois viram o pôr do sol no MAM. Há coisas que devem morrer junto com a noite, devem ser expelidas junto com tudo o que se põe pra foram. Há sentimentos que não merecem acordar.

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