quarta-feira, dezembro 02, 2009

Olhos - Claros como o dia.

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"Oi, eu não posso atender agora, deixe o seu recado depois do bip". Essa era no mínimo a décima vez que Rafael ligava para ela. Tinha entendido, afinal, que não havia ninguém em casa, mas depois de um tempo ligava mesmo só pra ouvir aquela voz que lhe parecia pueril por demais, mas que de vez em quando se tornava grave e ele ria-se pensando "coisas da idade". Abriu a porta do apartamento e antes de qualquer coisa ligou o notebook que parecia mesmo pedir para ser ligado. Conversas no Messenger eram a sua diversão de todas as noites. Sem baladas ou barzinhos, e agora sem nem tefonemas com mil convites. Todos os seus amigos já haviam aprendido: Ele havia mudado. Há algum tempo já não saia, não passava todas as noites em farras, não acordava no outro dia na casadaputaquepariu porque tinha posto a comida das últimas três semanas para fora. Não adiantaria ligar, implorar, ou mesmo arrastar Rafael para fora de casa, ele não sairia. Tomou um banho rápido e sentou-se no sofá, tragando o oitavo ou nono cigarro do dia. Em muito pouco tempo, o bipe que ele esperava ouvir soou.
- Quero te falar algo.
Alice. A menina dos sonhos de qualquer homem. Tinha cabelos loiros que se enrolavam entre os dedos de Rafael nos mais secretos sonhos. Olhos azuis impossíveis de ler, e um corpo que parecia esculpido milimetricamente. Agora, a menina havia de lhe dizer algo. Como controlar o coração que já pulsava involuntariamente? Esperou as palavras aparecerem na tela, as imaginou lindas, em poucos milésimos de segundos. Mas essas demoraram mais do que ele esperava.
-Digita...
-Não.
-Por que não?
-Porque não é o que eu quero dizer. E o quero, não consigo escrever.
-Posso te pedir uma coisa?
-Pede...
-Me diz as coisas... Me diz tudo o que você quer dizer, não fica com tanto medo, ou vergonha... ou seja lá o que for, nem que a gente tenha que fazer um trato de que eu vou esquecer se você nao quiser que eu lembre. Eu só quero que você me diga, porque talvez eu precise ter de você algumas palavras pra segurar tantas outras que eu solto.
-Eu vou tentar.
-Tenta agora?
-Agora não.
-Eu ia pedir justamente que você não me dissesse não...


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3 comentários:

Matheus Sobral. disse...

Dizer as coisas é difícil. É como andar pelado no meio de uma avenida engarrafada.

Pâmela Marques disse...

Vem cá?
Você está me descrevendo, é isso? Rs.
É que pareceu. Nossa, eu sou tão medrosa e até infantil às vezes, mas confesso que não posso evitar.

Mariana Pimentel disse...

" E a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme..." Li esse texto, logo lembrei desse trecho. Logo também lembrei de tanta coisa...