sexta-feira, janeiro 08, 2010

Por onde andará o sentimento?

Hoje, recebemos aqui em casa uma visita. Aquela mulher havia nos visitado muitas vezes. Tinha uma forte depressão e vezes seguidas chegava em minha casa descontrolada, um arrepio me subia a espinha à cada grito daquela mulher, tão jovem, tão bonita, com toda a vida praticamente perdida. Mas dessa vez ela estava visivelmente controlada, e contava sobre um dos casos mais tristes que já ouvi.
Eles eram dois vizinhos próximos. Seus filhos brincavam juntos, suas filhas eram amigas, suas vidas eram unidas por uma amizade fraterna. O primeiro tem um velho vício: Alcool. Nunca ninguém havia sabido disso, ele costuma beber a sua "branquinha" às escondidas, como faz quase tudo na vida. Dono de posses, tinha um caminhão bonito, grande, bem conservado. Mas levava na bagagem alguns acidentes sérios, uma quase-morte. Tinha também algumas sequelas, e uma péssima vista que o impedia de dirigir à noite, e mesmo durante o dia, deveria estar acompanhado de uma outra pessoa.
O segundo era um homem trabalhador, pai de três filhos, um ainda de colo. Sempre sorridente e bem humorado. Trabalhava na pequena terra do pai com os irmãos todos os dias. Dirigia um trator já bem gasto, mas em perfeitas condições de uso. Podia dirigir a noite. Mas naquele dia em especial, decidiu não dirigir. Sentou-se no reboque do caminhão, para voltar para casa e encontrar os filhos e a esposa. O trator, o caminhão, o álcool, a péssima visão, um acidente. Um crânio aberto, uma perna pela metade. Sangue, dor. Três filhos orfãos. E o pior: Uma demisiada frieza. O primeiro, embriagado, falava de si mesmo e apontava os prejuízos do seu carro. O segundo morrera.
Depois de ouvir, as lágrimas me escorriam pela face e meu corpo todo tremia e arrepiava. Nunca havia ouvido falar sobre tamanha secura, sobre tamanha pobreza de espírito. O primeiro anda por aí, pelas ruas dessa velha cidade. Dirige o seu caminhão, sem companhia alguma. O segundo nunca mais verá aos seus filhos. O primeiro sorri. O segundo já não está mais aqui. E eu me pergunto para onde vamos com tanta desunião, tanto desamor. Me pergunto que dia essa tal justiça deixará de tardar, e de falhar. Me pergunto quando deixaremos de ser mais individualistas, para sermos mais humanos.

Nenhum comentário: