domingo, janeiro 10, 2010

Ponto final.

Ela pegou o isqueiro e acendeu o quarto cigarro. Pensou em você, pensou que você diria que ela parecia uma pequena chaminé, e logo depois a olharia com aqueles olhos de fogo, e alisaria os seus cabelos negros. Não era muito mais que uma hora da manhã, e ela estava sentada no sofá da sala de novo. Olhos vermelhos feito sangue, cabelos desgrenhados, corpo que pedia à rego nitidamente. Se achava ainda mais ridícula, claro. Sempre achara, mas de uns tempos pra cá sua auto-estima havia sido reduzida a algo bem menor que zero. Só que você havia dito o contrário. Disse, não só uma vez, que ela era linda, que tinha o corpo milimetricamente esculpido. Riu-se ao lembrar dos comentários que soltava em qualquer acesso de coragem, riu-se quando lembrou que você disse que pararia de falar, para não falar besteira. Depois sentiu raiva. Que idiota você é! A sorte bateu à sua porta mais de uma vez e você correu, vendou os olhos, preferiu não abrir. Ela poderia lhe dar o mundo, menino. Ela lhe faria voar tão alto que você perderia o fôlego, mas resolveria esse problema da melhor maneira possível. No rádio a voz da Dolores O'Riordan cantava Kiss Me, tornando-se perturbadora. Ela pensou em quanto tempo você perdeu. Em como a sua covardia é brochante, pensou que você poderia ser menos encantador por isso, mas que se tornava mesmo era cada vez mais excitante. Ela pensou no quão perfeito você é, lembrou a sua voz, as suas mãos, cada linha do seu corpo que só de olhar por tanto tempo ela já sabia de cor. Pensou em você chorando naquela madrugada esquisita, e em quanta vontade ela sentiu de te embalar e dizer que não mais sairiam lágrimas dos seus olhos de esmeralda se você ficasse. E quanto medo você tem da felicidade, baby. Ela tinha ali dentro tanto para te dar, e mostrar... Que vacilo, hein?! Que vacilo! Olhou mais uma vez para o espelho quebrado. Sentia-se assim, como se refletia: Partida em dois, três, quatro, mil pedaços. Abriu o armário e consultou com calma os efeitos colaterais de cada medicamento. Sentou-se no sofá e soluçou um pouco mais, tomou mais alguns goles do conhaque barato do mercado da esquina. O telefone tocou muitas vezes, mas ela preferiu não atender. A secretária eletrônica anunciou o recado. A voz soava cada vez mais longe.

Eu te amo..Eu... te amo..., você está me... ouvindo? E... você é muito...muito... importante pra mim. Venha, me tome... me pegue, menina. Quero descobrir tudo isso que tem pra...

Ela não mais ouviu. Sentia uma tontura, já tinha sono. Logo dormiu. Dormiu para sempre. Tarde demais, garoto. Tarde demais.

3 comentários:

disse...

Por que tão tarde??
E há quem pense que nunca é tarde...

Pâmela Marques. disse...

Eu tenho tantos pensamentos assim. Vários deles. E me seguro para que isso não aconteça.

Mariana Pimentel disse...

Então Chico nos iludiu ao dizer que amores serão sempre amáveis?... O sentimento vai estar sempre aí, não morre, enquanto nós vamos morrendo aos poucos. [Mas eu ainda acredito no Chico, espero que você também ^^}