domingo, março 14, 2010

Livre.


"Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas. (...) Chamei algumas palavras cá de dentro, e elas acudiram de pronto, mas de atropelo, e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. O beijo de Capitu fechava-me os lábios. Uma exclamação, um simples artigo, por mais que investissem com força, não logravam romper de dentro. E todas as palavras recolheram-se ao coração, murmurando: Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo, por menos que as emoções o dominem..." (Dom Casmurro - Machado de Assis)

É pouco mais que decolar um sentimento. É vê-lo voar com suas próprias asas, sem que eu possa levantar uma, ou mesmo as duas mãos e pegá-lo, prendê-lo. Ele voa tão livre que muitas vezes eu já nem posso encará-lo. Outras, ele pousa sobre os meus ombros, e vem descansar, caminhar comigo, então, repete-me ao pé do ouvido num cochicho: Não vou embora. Não sei se alivio ou entro em apineia por isso, talvez os dois.

4 comentários:

Milla disse...

certas coisas nunca nos deixam completamente, pois sempre resta um pouco dentro de nós que jamais consegue sair, nem mesmo o tempo tira isso de nós...mas nós aprendemos a conviver depois de um tempo..

beijos

Luara Q. disse...

vc escreve muito bem!

J. disse...

Engraçadas essas coincidências: só hoje já li uns cinco textos relacionados a voos e asas. E o seu é mais uma lindeza que encontrei. Voar tem uma beleza impressionante! Adorei!
Neijos.

Samara disse...

Isso me ocorre de tempos em tempos, sentimentos que saem de mim, e que voltam quase me dizimando. "/