quinta-feira, junho 03, 2010

Ah, literatura!


Apontaram às 11h40 do dia, e ela não resistiu. Se pôs a ir ao encontro dele, esquecendo a sua mania de superioridade e até as lágrimas de minutos atrás. Quando o viu, ele fez sinal para abraçar-lhe. Abraçou-lhe e desceu as escadas. Ela, que haveria de subir, inventou qualquer desculpa para descer também. Ele voltou a subir e disse que assistiria a sua aula. Era literatura (ah, literatura!). Na aula, os alunos leriam um conto de Machado de Assis que ela já conhecia. Se candidatou à leitura, escolhendo as partes mais envolventes. Descrevia os personagens como se o descrevesse, falava com força e leveza ao mesmo tempo. Mirada na leitura, não reparou se ele lhe olhava ou ouvia. O que soube, foi que quando levantou os olhos ele lhe pareceu pensativo, longe, quase preocupado. Continuo a ler outras partes, em voz alta, para toda a turma. Mas para ela, só havia ele na platéia. Leu sobre o sonho adolescente do personagem, e depois de recobrar o folêgo, fez ressoar a voz em meio a sala completamente concentrada:

Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas cálidas, principalmente novas, - ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse (...) E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca. Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela.

Quando arriscou um olhar, ele tinha os olhos grudados no livro. Ao soar do alarme, ela desceu as escadas. Ele lhe pareceu dócil, atrativo. Ela o abraçou sem medo de parecer carente, e afundou a face no seu peito. Ele sorriu, acariciando a sua cabeça, e logo depois as costas. Ficaram assim por um bom tempo. Ela trocaria a eternidade por ele. Ela viveria a eternidade com ele.

Um comentário:

Tâmara disse...

Meu anjo, minha menina...
fico impresionada com a sua delicadeza literaria, por ser tão jovem. Isso é coisa rara. Fico horas por aqui a te ler e me vejo aos 17. A diferença que nos separa é que aos 17 eu nao tinha tanta coragem de ousar com a literatura quanto vc tem. E fico feliz quandto vc vai ao intimidade e diz que me vê em voce. Fico feliz por me sentir siamesa de voce.

Ah!...meu signo é aquário!


beijo enorme.

Tâmara


@intimidade (Twitter)...