quinta-feira, junho 10, 2010

Papo de Botequim

Num dia de sol, lá pelo mês de fevereiro, juntaram-se numa só mesa alguns nomes da Música Brasileira. Cansados da vida corrida da caótica São Paulo, eles haviam combinado de papear um pouco. Entre um gole ou outro duma cachaça de rolha, Adriana Calcanhotto levantou-se da mesa e exclamou:
- Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar!
-Mas por esses dias?- Pergunta Djavan.
-Sim, talvez até hoje! E o pior: Disseram que o desastre começará pelo Brasil. Deus está chateado por demais conosco!
Nesse instante, sem pestanejar, levantou-se Manuel Rosa:
-Vamos fugir proutro lugar, baby!
Frejat rebateu:
- Não me venha falar de medo, Samuel!
- Mas Frejat, é bom a gente ir mesmo... Aqui tá fazendo calor, deu pane no ventilador. Tomei a costeira em Belém do Pará, puseram uma usina no mar. Talvez fique ruim pra pescar. – Diz Chico Buarque, já com voz fina de embriagues.
Ary Barroso levantou, indignado:
- O Brasil, meu amor, é Terra de Nosso Senhor! Terra boa e gostosa, da morena sestrosa de olhar indiferente. O Brasil, samba que dá, bamboleio que faz gingar! Eu é que não saio daqui!
- Não me convidaram pra essa festa pobre! – Diz Cazuza, cambaleando.
Todos riram, logo depois concentraram-se, cada um nos seus medos, em silêncio. Aos poucos, o clima do botequim foi ficando tenso. O garçom, notando o desânimo dos clientes, que antes estavam muito animados, resolveu ligar a TV. É sempre bom uma televisãozinha de vez em quando, até para eles, que eram tão cultos, sem contar que a TV transmitia sem cortes o carnaval, olha só que maravilha! Ele, como bom brasileiro, sabia que não existe nada melhor que mulher, suor, e cerveja. O carnaval de Salvador exibia o corpo seminu da cantora, e o ritmo puxava os olhos dos rapazes sentados à mesa. Caetano Veloso, envolvido pelo pagode baiano, passou a dançar e cantar, Gilberto Gil, não ficando atrás, cantarolava o Kuduro à todo gás. Os amigos olhavam assustados. Cazuza e Frejat, já com o diabo subindo ao quadril, cochichavam que eles deveriam ter bebido demais, e só. Caetano desmentiu, e rebateu:
- Meu amigo, num país onde cueca é lugar pra se guardar dinheiro, lata de lixo é lugar de se colocar criança, em que Igreja é sinônimo de dinheiro fácil, médicos se agridem em plena sala de cirurgia, deixando morrer uma criança e pais jogam filhos pela janela, você acha mesmo que dançar o Kuduro é o maior problema?
- É, eu acho que não. Você tem toda razão. – Diz Cazuza, encabulado. – E agora eu sugiro que nós peguemos a estrada em direção ao Rio, porque o carnaval está fervendo por lá também.
E pegaram, afinal. Foram todos os cantores de renome, e alguns de nem tanto renome assim, dançar junto com as mulheres vestidas (?) para sambar por todo o sambódromo.
- Mulher, mulher, mulher, mulher, mulher, mulher, mulher. – Cantava o Neguinho da Beija-Flor, inspiradíssimo pelos corpos fartos e dançantes.
Depois de recuperado o fôlego, resolveram viajar. Se o mundo realmente acabasse naquele dia, eles teriam que desfrutar de todas as belezas brasileiras. Que não são escassas, não envergonham, não deixam a desejar. Passaram por todo o litoral, tiraram um dia pra vadiar em Itapoã, ao sol que arde em Itapõa, depois tocaram a viola na praça Caymmi. Dançaram frevo em Olinda. No Nordeste viram gente forte, que vai à luta, que sabe o que quer, e não o povo fraco deitado na rede de pernas pro ar. Viram gente gritar na grande São Paulo. Descansaram em Ipanema, e foram direto para Minas, exploraram a Gruta de Maquiné. Viram crianças sorrirem e mulheres cantarem. Depois se deliciaram com chimarrão no Rio Grande do Sul. No final de alguns dias de viagem, todos descobriram que o mundo não iria se acabar. Era conversa, balela, como sempre. Deitaram-se todos sobre a grama, e Caetano se pronunciou:
- E desse tempo todo que passamos juntos, o que tenho a dizer sem medo, é que, em quanto houver Brasil, eu sou do camarão ensopadinho com Chuchu!
Riram-se e continuaram respirando todo o ar brasileiro, que, venhamos e convenhamos, é bom por demais de inspirar e expirar. E só pra depois bater no peito e dizer: Eu sou brasileiro, com muito orgulho, e com muito amor.

# Texto publicado à pedido de Luciana Lustosa, minha professora de geografia, que pediu (praticamente ordenou) que ele fosse divulgado aqui. :)

Um comentário:

Roh Pimentel disse...

Certa a Lulu, tinha que ter publicado a um tempão!