domingo, julho 25, 2010

A boca vermelha de uma dama louca V.

- Alô.
- Bom dia.
Fez-se silêncio.
- Raica? O que houve?
- Nada, Luiz, nada.
- Ei, será que posso aparecer por ai hoje?
- Venha.
Ela desligou, ele preferiu não retornar. Em alguns instantes, o moço já tocava a campainha do seu apartamento. Encontrou-a de cara feia, olheiras enormes, pijamas e pantufas.
- Você não está chateada comigo, está?
Raica não respondeu. Apenas desviou o olhar e focou na xícara de café que segurava.
- Raica...
Ele nunca a havia chamado pelo nome, e aquilo só piorou. Ela havia estupidamente adorado a voz dele chamando-a. Ela adorava o cheiro do seu perfume. Ela o adorava e se odiava por não conseguir odiá-lo. Ela tinha vontade de beijar-lhe a boca e rasgar-lhe a face. Tinha raiva, paixão. Tinha vontade de expulsá-lo dali. Tinha vontade de abraçá-lo para nunca mais soltar. Era um misto de sensações de endoidecer. Puxou a respiração de dentro do peito.
- Luiz, em algum momento da sua vida você já amou muito alguém?
- Eu não vim aqui para falar de amor com você.
- E por que não comigo?
- Porque você não é mulher pra mim, Raica.
O orgulho da moça desabrochou firme e ferido. Podia agüentar muito, mas aquilo já era demais. Luiz havia tocado brutalmente na parte mais frágil da ferida de Raica. Havia soltado numa só frase todos os seus demônios.
- Saia daqui, Luiz, agora. – Gritou.
- Mas, Raica...
- Não fale comigo, não me dirija a palavra. Vamos, saia. Fique longe. Vá embora, Luiz, agora!
Chorou um dia inteiro. Desligou o celular, a TV, o computador, o mundo. Buscou em si mesma a força para levantar novamente. Voltou a trabalhar. Muito mais, inclusive. Precisava gastar o tempo, ocupar a mente, o corpo. De vez em quando seu celular tocava a música dele de novo. Ela nunca atendia. Deixava cair a ligação. Até que um dia pôde perceber que se não atendesse, não iria nunca parar de sentir aquelas borboletas insuportáveis no seu estômago.
- Alô.
- Alô, Raica? Sou eu, Luiz. Por favor, não desligue. Me deixe falar com você.
- Fale, Luiz.
- Desde aquele dia que sai do seu apartamento, eu não consegui parar de pensar em você. No quanto fui bobo em te dizer aquilo. Você é sim mulher para mim, Raica. Aliás, a única mulher que me completou na vida. Por favor, me perdoe. Me deixe te mostrar cara a cara. Me deixe te fazer sentir.
- Me encontre naquele mesmo lugar.
Desligou. Arrumou-se, foi. Luiz a levou para o mesmo motel que o daquele primeiro de agosto. Não se falaram todo o caminho. Quando fechou a porta, Raica o beijou.
- Raica...
- Shhhi! Não fale nada não. – Puxou o lenço que tinha no pescoço, e amarrou a boca do rapaz. - Hoje eu vou te proporcionar uma noite diferente.
Jogou-o na cama, enquanto beijava-lhe o pescoço. Prendeu-lhe os braços.
- Gosta de algemas, Luiz?
Depois de completamente nus, a moça trabalhou como uma lady. O rapaz suspirava, ardia, suava. Todo o corpo tremia. Enquanto se movimentava rapidamente, prendeu o braço de Luiz em uma das algemas. Ele pareceu vibrar ainda mais com a ação. Com a mão livre, tirou o lenço da boca, e puxou-lhe os cabelos para cochichar algo no ouvido.
- Raica, eu não sei viver sem você.
Com um sorriso atrevido no rosto, controlando todos os movimentos de Luiz, Raica prendeu-lhe o outro braço.
- É mesmo Luiz? – Fechou a algema. – Uma pena...
Levantou-se de supetão, rindo-se. Vestiu-se, acompanhando o olhar assustado do rapaz e a sua tentativa para falar. Não perdeu a oportunidade de pegar o dinheiro sobre o criado mudo, e arremessar nas fuças dele.
- É, você não mentiu. Eu não sou mesmo para você. Sou mulher demais para que você possa pensar em ter. Até nunca mais, Luiz.

A porta se fechou. Raica sentiu-se livre. Não tinha mágoa, nem vontade, nem sequer saudade. Talvez houvesse um pouco daquele dose brutal de paixão. Mas sabia que alguns programas e tempo resolveriam. Raica não havia sido feita para um homem só. Guardava amor demais para ser divido apenas em dois.

2 comentários:

Caicai disse...

Posso dizer que virei fã da Raica?? hahahahahaha adorei!! Confesso que fiquei surpreendida, afinal ela tava de quatro por ele (sem maldade nesse comentário! hahaha).

Arrasou, Evinha!

P. disse...

Fiquei surpreendida com o final, pensei que seria mais um daqueles finais 'banais' (porém que eu adoro), eles ficariam juntos. Mas não, ela não foi feita para apenas um. PARABÉNS!