terça-feira, julho 13, 2010

A boca vermelha de uma dama louca.


"Minha profissão
É suja e vulgar
Quero um pagamento
Para me deitar
E junto com você
Estrangular meu riso
Dê-me seu amor
Dele não preciso."


Era início da madrugada quando Raica adentrou a rua 25 de março, e recostou-se sobre a parede, numa esquina. Acendeu um cigarro e arrumou seus cabelos cacheados vermelhos. Havia começado o serviço um pouco mais tarde naquele dia, e as outras mocinhas estavam felizes, pois sabiam que com ela lá arranjar qualquer homem ficava difícil. Raica era uma ruiva linda, e, diferente das outras, gostava do que fazia. Havia naquela moça uma fome de libido, de gozo, de loucura. Fazia da sua vida uma jogatina, roubava no jogo, enganava os jogadores já viciados pelo seu corpo simétrico. Não se importava, não. Queria mais era que vestissem a roupa e pagassem o seu dinheiro. Limpava o batom, retocava a maquiagem, e estava pronta para a próxima rodada da noite. Constantemente, os seus clientes voltavam. Enchiam-lhe de presentes, pediam-na em casamento, juravam amor eterno. Ela ria-se. Achava engraçado ver todos aqueles rapazes loucos, que nunca seriam mais que a sua garantia de bolso cheio. Se muito lhe irritavam, ela trocava de ponto, de nome, de disfarce. Era Maria, Augusta, Carina. Quase nunca Raica. Raica ela só era para os (poucos) amigos que tinha ganhado com o passar do tempo.

Naquele dia a noite parecia diferente, o movimento estava fraco, ameaçando uma chuva. Raica já tinha fumado o seu quinto ou sexto cigarro. Estava quase indo embora, quando um carro vermelho parou a sua frente. O homem não falou, apenas olhou-a, como forma de perguntar se estava em serviço. Ela balançou a cabeça afirmativamente, e ele abriu a porta do carro para que ela entrasse. O moço, ela notou que se chamava Luiz, quando disse seu nome para um quarto num daqueles motéis de requinte, exatamente como Raica adorava. Ela fez o seu papel, foi paga, e deu por encerrada a noite de trabalho.

Os dias continuaram chuvosos, e ela decidiu dar-se umas férias. Não suportava trabalhar com chuva. Passou uma semana de pernas para o ar, mas depois acabou desistindo de esperar o tempo chuvoso passar, antes que o bolso começasse a dar sinais de que esvaziaria. Antes que pudesse se aquietar no seu ponto, uma das suas colegas lhe acenou.


- Raica, um homem veio aqui todos esses dias procurando por você.
- Todos os dias homens procuram por mim. - Brincou.
- Mas esse parecia estar muito interessado, deixou até o cartão.
- Ah... Eu gostava tanto desse ponto! - Falou, já premeditando uma fuga.


Olhou o cartão e viu impresso nome dele: Luiz Durans. Fez algum esforço para lembrar-se quem era e depois despertou. Não se esqueceria nunca do cheiro de luxo que aquele lugar tinha, dos lençóis azuis que faziam conjunto com o belo par de olhos do rapaz. Amassou o cartão, jogou-o fora. Não tinha o costume de ligar para clientes, nem de atendê-los muitas vezes. Era uma romântica nata, e apegava-se fácil fácil. O céu desabava sobre a sua cabeça, a maquiagem derretia pela sua face, quando estacionou novamente na esquina o carro vermelho que ela lembrava de cor. O vidro baixou, e os olhos azuis do rapaz pousaram novamente sobre os seus olhos verdes.

- Raica, não é? - Disse Luiz com um sorriso atrevido no rosto.
... Continua.

# Há tempos não publico um conto aqui, não é? Depois do La Noche, estou começando A boca vermelha de uma dama louca, espero que gostem. :)


A boca vermelha de uma dama louca II.
A boca vermelha de uma dama louca III.
A boca vermelha de uma dama louca IV.
A boca vermelha de uma dama louca V

6 comentários:

Isabella disse...

Lindo, lindo, lindo. *-*

mãs...
ainda espero o texto que vce me prometeu. ;D

Paulinha disse...

Adoooreeei, to precisando escrever um conto tb, pra um concurso... o seu está ótimo! xD

itsmires disse...

continuaa :}

Mayara disse...

Adorei, mesmo. Eu não costumo ler muito contos com continuação e tudo mais, mas esse estou ansiosa pra ler.
Beijos,
May

Mariana Pimentel. disse...

Olha só! A "colhega" da Soraia, hahaha. Continuua!

P. disse...

Eu gosto do seus contos, acho maravilhosos!
Realmente você não escrevia algo tão maravilhoso, desde o La Noches!
Parabéeens!