terça-feira, agosto 31, 2010

Palavras


Talvez toda a sua preparação não a tivesse de verdade preparado. Naquele dia ela ouviu a voz sussurrada no seu ouvido tantas vezes lhe fazer cair como ela não imaginava nunca. Cada palavra adormecia músculo por músculo, enquanto ela tentava sem sucesso reverter a situação, falando daquelas coisas que insistia em tocar com naturalidade, como eterna sadomasoquista sentimental. Como se fingisse não ouvir, ouvindo. Sentindo, morrendo de medo, de ciúmes. Com aquela vontade chata de chorar. Ela conhecia de cor aquelas palavras, pois havia treinado ouvi-las em alguns de seus piores pesadelos. Mas saber que tudo era real, doía como navalha cortando carne viva. E o talvez se deitou sobre seus tímpanos, rendendo algumas lágrimas e chamando algumas loucuras, quando ela tentava a todo custo não se deixar levar. Mas estava só. Distante demais de um ombro que lhe acolhesse algum pranto. Por isso a solidão ecoava e doía, fazendo com que toda a tristeza fosse impossível de ser contida.

domingo, agosto 29, 2010

O mundo.

(...)

- É que algumas pessoas tem o mundo para dar as outras, menine.
- Diga-me...
- O que?
- Você pode me dar o mundo?
- Eu lhe daria, se você se permitisse recebê-lo.

Noite.

A lua laranja quase cheia abençoava aquela noite. O cheiro de perfumes misturados, vento, poeira, asfalto. A magia de me desprender das coisas ruins que haviam me feito desandar esses dias. Velocidade, aventura, loucura. No mais, as verdades sérias das quais tem sido difícil fugir. Mas tudo tão leve, brando... Delicioso laço que se faz forte e sem maldade. O sangue que correu mais forte nas veias só me faz continuar achando todas as mesmas coisas, agora divulgadas. Por coincidência ou necessidade. Talvez tudo junto. Histórias, vinho, ilhas descobertas e outras tantas a descobrir. Utopias secretas, eternas. Viagens, sorrisos, lábios falantes e vermelhos. Corpos pulantes e felizes. Fe-li-ci-da-de, apesar dos pesares. Uma noite incrível.

"Hoje eu acordei com vontade de esquecer
Todas as preocupações e ir depressa para algum lugar
Aonde o tempo pareça não existir."


sábado, agosto 28, 2010

Aquele dia.

Era um dia comum. Chato, como todos os letivos. Pesaroso, como haviam sido naquele mês. Mas eu já havia me acostumado com isso. Arrisquei até uns sorrisos, metade deles falsos. Só havia uma coisa de diferente, que fazia meu coração fisgar de medo, ansiedade: Era a aceitação ou reprovação de uma obra. Não sabia o que me diriam, como eu seria interpretada. Procurei esquecer, me concentrar em todas as matérias para estudar, em todos os encantos que me sugavam o corpo, em tudo mais que pudesse mudar o meu foco. Qual não foi a minha surpresa, quando, no momento em que eu esperava a normalidade, me veio quase uma homenagem. Alguém me lia, em voz alta, me elogiava, me amava um pouco. Era uma admiração boa de se ver. Aquele sorriso ao proferir palavras minhas, ficara pra sempre guardado em mim. Aquele momento, aquele dia, aqueles pequenos minutos. Tudo aquilo cresceu aqui dentro, se transformou num carinho tácito e enorme. Mas para o meu desespero (secreto), tão maior que o que vem para mim. É estranho, não é? Estranho que nutramos pelas pessoas tantos carinhos, e que às vezes recebamos quase nada do que damos. Nos dias normais, eu tento não me importar. Mas é que esse vinho tinto me deixa sensível como o diabo.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Platônico.

(18 de março de 2007)

Não há ninguém que apareça pra te levar pra casa. Não há ninguém que te beije no fim do dia. Não, querido, não há. E sabe, isso é o que eu mais odeio em ti. Eu sei que há alguém que te desconcerta, que te põe louco, mas sei também que daqui há pouco tempo você já terá mudado de "alguém" algumas vezes. Hoje eu senti vontade de te ver beijando alguém. Qualquer moça, entende? Qualquer uma. Só para que eu entendesse que há outras dimensões na sua vida. Só para eu enxergar ao vivo que você não sonha comigo. Mas não, você continua ai. Um bobo, sempre só. Sempre triste, sempre queixoso, sempre repelente. Sabe, hoje, quando te vi sentado naquele passeio feio, próximo aquelas rosas bonitas, senti vontade de lhe estender a mão, dar-lhe uma daquelas flores. Dei-lhe só um dos meus sorrisos ensaiados, e segui o meu caminho. Não tive coragem. Pode gritar comigo, me chamar de medrosa (como sempre), me dizer que tenho medo de tudo. Porque não é mentira. Tive medo, sim. Medo de que você me negasse, ou aceitasse sem vontade a minha ajuda. Medo de que você me mandasse embora de novo. Fiquei de longe te observando, te vendo levantar, e ir para eu não sei onde. Nunca sei. Juro que às vezes isso me faz louca, mas só às vezes. Só quando deslizo e noto que não sou tua dona, nem sequer sua mulher. Que talvez eu seja só a amiga de cabelos negros e cacheados de all star quadriculado, como você me definiu. Pequena definição. Sou um tanto mais, baby. Mas sabe, não sei se quero que me descubra muito mais que isso. Não sei se quero te fazer dar de cara com os meus defeitos, a minha instabilidade, a minha sensibilidade. Talvez esse seu jeito independente tenda a odiar o meu carinho extremo, minha estranha necessidade de sentir. Então, por isso, continuo aqui, por trás desse muro. Te olhando pelas pequenas frechinhas que se abriram com o tempo, decorando teus passos com meus olhos, querendo e não querendo te ver um dia tocar a minha campainha.

terça-feira, agosto 24, 2010

Como diria Mafalda...


Como diria Mafalda: E não é que neste mundo tem cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?

Eu complemento: E não é que este mundo é a eterna quadrilha de Drummond, a maioria das pessoas é constituída de eternos piruás, e eu surto cada dia mais com a incapacidade de conviver nessa cidade-ovo, que me causa náuseas devastadoras?

(Para bom leitor, meia palavra basta.)

domingo, agosto 22, 2010

Ferrugem.


Ela sabia. Sabia como mais ninguém que as coisas não mudariam. Se conhecia o suficiente para entender que os seus impulsos não seriam nunca deixados para trás. Tinha o coração enorme, em chamas, em plena carência. O seguia, ainda que não gostasse disso. Odiava. Odiava quando as lágrimas vinham, odiava quando as palavras escapavam-lhe dos lábios e dos dedos. Odiava o "querer sempre mais", mas no fundo sabia que toda essa vontade vinha por não ter nada nas mãos. Tudo de mais concreto que havia entrado em sua vida, a tinha deixado sempre em segundo plano. E justo ela, que tinha tanto pra mostrar e para ser. Justo ela, que pedia apenas algo que a completasse e mandasse embora o oco dentro do peito. Algo lhe faltava, sempre. Ela não era de se abater, de se entregar sem lutar. Lá ia de novo, como se pro Vietnã, guerrear, sangrar, mutilar-se. E voltar de cara choro, de derrota, de sonho perdido. Pra no outro dia se levantar, e erguer as mesmas armas novamente, nenhuma dor era insuportável a ponto de lhe fazer desistir. Quanto tempo sua armadura resistiria aos tiros, às balas de canhão, às grandes corridas para algum lugar seguro? Verdade que já haviam se passado dezesseis invernos tempestivos, mas ela via todo o ferro enferrujar e pedir a rego como nunca antes.

segunda-feira, agosto 16, 2010

No barzinho.

- Garçom, vocês tem desamor por aqui?
- Temos sim, senhora.
- Desce quatro doses, com gelo, por favor.
- Mas quatro, senhora? Não acha um pouco demais?
- Meu bem, nem vinte doses disto recompensariam esse amor.
- Quantas doses dele tem ai?
- Infinitas, infinitas doses.

domingo, agosto 15, 2010

Stop, girl, please!

Garota, por favor, pare! Pare de imitar as minhas características, pare de seguir os meus passos. Pare de copiar o meu cabelo, as minhas roupas, os meus textos, as minhas dúvidas, os meus ídolos, as minhas escolhas, as minhas habilidades, os meus amigos, os meus amores, os meus olhos, os meus encantos, as minhas músicas, a minha história, o meu eu. Deve haver algo em ti que te permita mostrar e crescer por si só, sem ser essa sombra insuportável que busca sempre me transpor, que me irrita. Vá, voe! Aprenda a levantar o seu vôo sem olhar para o meu de canto de olho. Por que você sabe, não é? Se não olhar para a frente, você pode bater de frente com os montes, enquanto eu continuarei voando.

Para ouvir: Quem irá nos proteger - Vanessa da Mata.

# Antigo, clichê, piegas, mas que serviu como uma luva a esse 15 de agosto.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Como se fosse possível musicar o que há por dentro.

"Não há palavras pra explicar o que eu sinto..."

Não há. Eu tentei, tentei expressar em palavras toda essa sensação estranha que tem me adentrado esses dias, inútil tentativa. Não sei explicar o que passa por aqui. Não quis dissertar mais um desabafo, mais um BsemP, um Deve ser tudo uma questão de auto-estima. Tenho tido pensamentos maus. Não por mim, juro. Passo os dedos por sobre os livros na prateleira, busco alguma poesia que me identifique. Cyrano de Bergerac, Dom Casmurro. Pronto, eram meus eus em obras. Fui me lendo naquelas angústias, como quem pede para a dor doer. Murro em ponta de faca, entende? Verdade cara à cara, feito tapa. Ofereço as duas faces, corpo inteiro. Machuca. Prefiro assim. Nua e crua sobre isso aqui dentro que me molda essa diferença constante. Isso que é meu, nasceu comigo. E não morrerá porque é tudo aquilo que sou: Barquinho de papel, naufrágio, restos, pó.

"Sou uma gota d'água, sou um grão de areia."

terça-feira, agosto 10, 2010

A(pesar) de você.

"Hearing echoes from your heart
Learning how to recompose the words."

Eu analisava os passos da moça. Sempre independente, sempre diferente, sempre mais (ou menos). Observei o moço que estava ao lado e vi o quanto os olhos dele brilharam, o quão desconcertado ele estava por seus braços estarem preenchidos com outro corpo, e ainda assim, seu coração pulsar assustadoramente. Ele precisava seguir aquele caminho. Aquele caminho lhe era melhor, mais bonito, mais cômodo. Sofrer por amor é coisa complicada. Dor de amor não segura muitos tic tacs antes de desabar lágrimas. E lágrimas... Lágrimas não. Não cabiam mais. Não no rosto dele, não nos sonhos dele. Esperaria ela passar, esperaria acalmar o descompasso dentro do peito, fingiria novamente estar tudo bem. Assim foi. Só eu soube naquele momento o que ele sentia, porque pude ler nos seus olhos algo que me dizia "a moça dos meus sonhos ainda é você".

quarta-feira, agosto 04, 2010

Desses desabafos noturnos.

Eu estava aqui, tentando não explodir com todas essas ideias insuportaveis perambulando pelos meus pensamentos, lembrando dos ensinamentos que tenho tentado seguir. Lembrando do "servir, sem perguntar até quando", "semear o bem, sem pensar nos resultados", "compreender o próximo, sem exigir entendimento", "dar o melhor de nós, além da execução do próprio dever, sem cobrar taxas de reconhecimento". Verdade é que eu sempre fui assim, meio tirada à heroinazinha boba. Mas chega um momento em que as forças terminam. Chega um momento em que toda a falta de reconhecimento machuca. Chega um momento em que a gente para e se pergunta: Poxa, o que foi que eu fiz? Que parte de mim é que me torna tão diferente? Por que é que o meu carinho farto é tantas vezes trocado por carinhos escassos?
Queria ser desses seres evoluidíssimos que conseguem seguir todas essas leis de boa convivência sem querer nada em troca. Mas a minha conduta cada vez mais material e menos evoluída me torna esse poço insuportável de carência. Eu preciso de um sinal, um olhar, um recado. Algo que me faça pensar "Que bom que tu estás comigo, como estou contigo". Sabe, eu quero sempre ajudar. Tenho agonia de gente que se acostuma em ser triste, gente que não luta, gente que não enxerga oportunidades. Sinto vontade de arrancar a dor dali de alguma maneira. Poderia arrancá-la com as minhas próprias mãos, e em carne viva, chorar de felicidade por ver um sorriso. Gosto de ver as pessoas sorrirem. Me sinto bem em fazer o bem. Mas não tenho competência para Irmã Dulce. Preciso de algo em troca, de uma certeza que não me faça sentir esse oco enorme dentro de mim.
É como se eu estivesse indo para uma guerra lutar por algo que não me pertencerá. Como se eu iniciasse sempre o mesmo jogo perdido, o qual não me canso de jogar. Peço força suficiente para não querer jogar tudo para o alto. No fundo, sei que não conseguiria. Porque algo aqui dentro de mim, me pede para ser mudança, para servir e me machucar vezes seguidas. Algo dentro de mim me pede para ser amor da cabeça aos pés.

segunda-feira, agosto 02, 2010

(re)ler-me.

"Como sou insuportavelmente romântica, meu Deus!" Fernanda Yuong

Encontrei um folhetinho amassado na minha escrivaninha, com uma só folhinha escrita, uma letra rápida, despojada, apontando embriaguez, li:

Frio, amargo, forte. Tudo isto é o teu café.
E ainda assim, tenho sede de tomá-lo todos os dias.
(22.02.09)


Fiquei pensando em todos os personagens daquela confusão, e adormeci pensando em mim mesma e na minha (eterna) insensatez.

domingo, agosto 01, 2010

É teu.


- Olá.
- Oi.
- Como vai você, moça?
- Cansada.
- Não quer me contar o por quê?
- Tenho um coração... Um coração que me é grande demais.
- Mas é só esse o problema?
- Só esse? Não acha muito ter um coração que não me cabe no peito?
- Tenho a solução.
- Tem?
- Sim, sim. Dê-me um pedacinho dele.
- Ele já está aí, não vê? Ao seu lado, querendo que você o pegue. Não me coube no peito e saiu em pedaços por aí. Sente frio, sente fome.
- Por que é que você não me disse isso antes? Não poderia ajudá-lo sem que ele me pedisse ajuda.
- Então tome, pegue. Ele é seu, ele sempre foi seu.
O rapaz tomou o coração nas mãos, e o guardou dentro do peito.
- Pronto.
- Promete uma coisa?
- O que?
- Promete cuidar bem dele?
- Prometo.
- Promete cuidar bem dele infinitamente?
- Que seja infinito enquanto dure.
Ela sorriu.
- E que seja doce.
- Não, não.
- Não?
- Que seja tentador.
Beijaram-se.