domingo, agosto 22, 2010

Ferrugem.


Ela sabia. Sabia como mais ninguém que as coisas não mudariam. Se conhecia o suficiente para entender que os seus impulsos não seriam nunca deixados para trás. Tinha o coração enorme, em chamas, em plena carência. O seguia, ainda que não gostasse disso. Odiava. Odiava quando as lágrimas vinham, odiava quando as palavras escapavam-lhe dos lábios e dos dedos. Odiava o "querer sempre mais", mas no fundo sabia que toda essa vontade vinha por não ter nada nas mãos. Tudo de mais concreto que havia entrado em sua vida, a tinha deixado sempre em segundo plano. E justo ela, que tinha tanto pra mostrar e para ser. Justo ela, que pedia apenas algo que a completasse e mandasse embora o oco dentro do peito. Algo lhe faltava, sempre. Ela não era de se abater, de se entregar sem lutar. Lá ia de novo, como se pro Vietnã, guerrear, sangrar, mutilar-se. E voltar de cara choro, de derrota, de sonho perdido. Pra no outro dia se levantar, e erguer as mesmas armas novamente, nenhuma dor era insuportável a ponto de lhe fazer desistir. Quanto tempo sua armadura resistiria aos tiros, às balas de canhão, às grandes corridas para algum lugar seguro? Verdade que já haviam se passado dezesseis invernos tempestivos, mas ela via todo o ferro enferrujar e pedir a rego como nunca antes.

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