terça-feira, agosto 31, 2010

Palavras


Talvez toda a sua preparação não a tivesse de verdade preparado. Naquele dia ela ouviu a voz sussurrada no seu ouvido tantas vezes lhe fazer cair como ela não imaginava nunca. Cada palavra adormecia músculo por músculo, enquanto ela tentava sem sucesso reverter a situação, falando daquelas coisas que insistia em tocar com naturalidade, como eterna sadomasoquista sentimental. Como se fingisse não ouvir, ouvindo. Sentindo, morrendo de medo, de ciúmes. Com aquela vontade chata de chorar. Ela conhecia de cor aquelas palavras, pois havia treinado ouvi-las em alguns de seus piores pesadelos. Mas saber que tudo era real, doía como navalha cortando carne viva. E o talvez se deitou sobre seus tímpanos, rendendo algumas lágrimas e chamando algumas loucuras, quando ela tentava a todo custo não se deixar levar. Mas estava só. Distante demais de um ombro que lhe acolhesse algum pranto. Por isso a solidão ecoava e doía, fazendo com que toda a tristeza fosse impossível de ser contida.

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