quinta-feira, setembro 02, 2010

A festa da festa.

- Alô.
- Clarissa, festa na casa do Sérgio às 3h. Recado dado.
- Do Sérgio? Você tá maluca?
- Cla, já passou da hora de vocês voltarem a se falar, você não acha? Já faz tanto tempo...
- Mas, Bruna...
- Nem mas, nem meio mas, Clarissa. Você vai.
- Ok, ok.

Não sabia se era a hora, mas se a oportunidade havia chegado, eu deveria ir em frente. Precisava encarar aquela verdade, testar o meu próprio coração e entender tudo aquilo. Pus o meu novo vestido vermelho, e me arrumei para uma festa comum. Não parei para pensar no que estava fazendo, sabia que se parasse, desistiria. Estacionei o carro na garagem do prédio. Não era a minha intenção, mas não quis render a conversa com o porteiro, que já havia aberto o portão para mim e me cumprimentado como antigamente. "Droga! Primeira a chegar." Pensei, quando Sérgio abriu a porta para mim e sorriu, como se não acreditasse no que via.

- Entre, Clarissa, sente. O pessoal deve estar chegando.

Tocava Chico Buarque. E eu odiava aquela fisgada no peito que ficava mais forte à cada segundo. Minhas mãos suavam, meu corpo inteiro tremia. Nem nas minhas piores estimativas eu havia pensado sentir tudo aquilo.

- Mando descerem as cervejas, ou a gente fica só no wiskhy enquanto a galera não chega?
- N-não sei, Sérgio. A festa é sua. - Gaguejei - Mas se não for incomodo, eu gostaria de um copo d'agua.
- Mas é claro... - Falou, dando-me o copo cheio, que me pus a tomar num gole só.

Não era bom aquilo. Eu havia mostrado estar nervosa. Mesmo após tanto tempo, tantas outras bocas, mãos, perfumes, aquele rapaz ainda me tirava do sério.

- Bom, acho que podemos conversar um pouco. - Olhou para o relógio. - Parece que você chegou um pouco antes do horário.
- É...

Eu, monossilábica. Nunca fui boa com palavras quando nervosa. Tocava "A Rita", e eu fingia não pensar naquela música, olhando o copo vazio. Podia trocar Rita por Sérgio e cantar a canção sem esforço. Talvez ele pudesse fazer o mesmo comigo. Nós dois, pura mágoa. Enganos, mancadas, viagens, compromissos, tudo aquilo havia feito desgastar o amor. Não me lembro em que ponto exatamente, perdemos o foco. Sei que do meio para o fim, ele se perdeu. E nos vimos ali, dois amantes perdidos entre frieza e desejo. Foi então que eu fui lá (na minha insuportável mania de querer resolver todas as coisas), e quebrei o nosso elo. Desfiz o nosso laço, desamarrei os cadarços dos nossos tênis surrados, mandei Sérgio embora. A partir daí, foi um desastre. Me contaram dos comprimidos, das internações. Depois me falaram sobre um novo amor, e outro, outro. Falaram sobre um cargo maior na empresa de seguros. Então percebi que ele estava bem. Não nos viamos desde aquele dia no apartamento, naquele mesmo sofá, em que eu fui embora. Agora eu estava ali, sentada. Olhando para o teto e pedindo que a festa começasse logo.

- Escute, Clarissa...

Sérgio se dirigiu ao som, e passou algumas músicas. Parou, olhou-me. Era "O meu amor". Era a nossa música. Como ele podia fazer aquilo? Como podia brincar com o meu nervosismo daquela maneira? E pior! Como podia mexer assim com a minha libido? Sérgio sentou-se ao meu lado. Estendeu-me a mão, aceitei. Como era maravilhoso sentir a pele dele novamente! Meu Deus, como era bom, doce, excitante. Soltei a minha mão, e passei a percorrer-lhe o seu braço. Aquele braço forte, lindo. Com a outra mão, Sérgio levantou-me o queixo. Nossos olhos se encontraram, fatais. Nos beijamos. Percebi que o tempo não havia desfeito o nosso encaixe. Nossas bocas pareciam ensaiadas. "Eu te amo" começou a tocar, e eu senti que além de mim, Sérgio também beirava uma taquicardia. Nossos corpos tentaram se encostar mais, como se desejassem adentrar um ao outro. Mas havia outra forte de fazer aquilo. Sérgio desamarrou o meu vestido e descobriu o meus seios. Eriçados, loucos, desejosos. Eu lhe tirei a camisa, e todo o resto. Deitamo-nos no chão, sem maiores preocupações. Ele olhou-me.

- Clarissa...
- Shiii, não, não, não fale nada. Não estrague o nosso momento.

Amamo-nos, em silêncio. Quentes, firmes, maduros. Qualquer palavra faria mudar aquela história. E não era isso que eu queria. Sérgio também não. Demos vazão as nossas vontades, apenas. Crus, nus, inteiros. Não nos cabia entender aquele sentimento. Não teríamos nunca inteligência para tanto. Algumas coisas não foram feitas para serem entendidas, mas para serem sentidas. Sérgio dormiu no meu colo. Corpo colado com o meu, suado. Como era bom aquele cheiro de sexo bem sucedido, aquele cheiro de amor. Fiquei mais um pouco ali, sentindo toda aquela atmosfera que ao mesmo tempo, fazia e não fazia tanta falta. Tocava "Trocando em miudos" quando parei na porta, olhando-lhe mais uma vez. Tomei o ultimo gole de whisky. E parecia que o Chico cantava para mim: Uma saidera, muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde.

Um comentário:

Caicai disse...

Bom exemplo de quando explicacoes sao completamente desnecessarias.. espero que os dois fiquem bem depois desse "remember"..rs

beijos,Evinha