domingo, outubro 31, 2010

Desperto.

Cheguei a um ponto crítico, inegável. Ando beirando a loucura, querendo gritar, querendo ser. Enchendo a cara e esquecendo de tudo depois. Parece fácil, mas não é. Eu queria te dizer tanta coisa, mas tanta coisa... Inútil. Minhas palavras andam tão confusas quanto meu coração. Eu não tô me sacando mais, você me entende? Passo noites a fio pensando em milhares, milhares de coisas, pessoas, cheiros, lugares. Não me seguro em nada disso. Não quero brincar com você, não quero brincar com ninguém. Hoje eu acordei querendo que todo mundo me mandasse embora. Embora, sabe? Pra me desfazer de todos os meus laços sem culpa. Hoje eu acordei querendo ir pra qualquer lugar, esquecer. Pegar aquele ônibus pro Rio Vermelho e só voltar pra casa quando desse na telha. Hoje eu acordei querendo recomeçar do zero, sem marcas, sem sangue, sem cicatrizes. Falar palavrões e tomar banho de cachoeira. Andar em alta velocidade e não sentir medo de você. Não sentir medo de morrer, não sentir medo de ser feliz. Hoje eu acordei querendo não ser eu mesma.

sábado, outubro 30, 2010

O limite.

O céu parecia despencar quando Fernanda entrou no apartamento. O primeiro impulso foi jogar-se no sofá, com a cabeça enterrada numa das almofadas. Tudo que ela queria era chorar. Havia engolido aquelas lágrimas o dia inteiro, havia fingindo estar forte. Mas ali, sozinha, em meio ao breu e ao silêncio do próprio apartamento, ela podia desengasgar o choro. Sentia a necessidade de conversar com alguém, mas quem? Não havia mais um porto seguro para ela. Queria falar que estava tudo ruim. Queria contar que o amor da sua vida amava outra garota, queria dizer que sentia falta dos seus pais, queria dizer que odiava as responsabilidades que ganhou, mas não eram dela. Queria não estar tonta, embriagada, chorosa, perdida. Tragara já muitos cigarros, falara muitas coisas. Mas no fim da noite, quando o som da música havia ido embora junto com todos os convidados da festa, ela estava só. Sempre, sempre só. Sempre presa a ter de amar demais, e receber amor de menos. Sempre intensa, impulsiva, espontânea. Sempre esquisita, estranha, diferente. Suplicava pelo "algo mais" que haviam lhe prometido, pelo sonho que nunca chegava. Fazia frio, o termômetro marcava temperatura alta. Era inegável o precipício pavoroso ao qual pertencia. Ao qual estava presa desde o seu primeiro choro, desde a primeira vez em que se encontrou no mundo. Era antigo aquele estado deplorável. Era assustador, mas ela estava ali. Apenas esperando a visita macabra da morte.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Sargaço mar*

Vejo a sua foto subir no canto direito da tela do meu computador e não sinto fisgar o peito. Só cansaço, e algum medo de que você venha me contar mais alguma novidade ruim. Vejo as suas palavras amigas aparecerem e lembro de todas as frases quentes que ouvi naquele fim de março. Tento não pensar em todo o resto. Impossível. Seu corpo moreno ainda flutua pelo meu pensamento. Meus dedos ainda sentem o teu peito, minha boca ainda pede mais. Mais uma hora, um dia, um momento. Só pra saciar essa vontade louca do teu gosto, só pra te ouvir dizer novamente que eu sou a menina mais linda que você já viu. Só para beijar os teus olhos e sentir a sua barba arranhar o meu rosto. Só pra te ver chegar daquele jeito que eu adoro, sem marcar horário, sem que eu menos espere. Só pra falar sobre política e música, beijos e poesia. Só pra poder roubar pra mim mais um pedacinho de você, já que não posso tê-lo inteiro, completo, meu. Já que sei que os seus passos andam por outros caminhos, já que sei que o seu amor é mesmo o mundo inteiro. Peço, embora saiba que é de pedras perigosas o seu mar. Aqui, na areia quente dessa praia, desidrato. Sonho em me atirar, me perder, me afogar. Sonho, apenas. E volto sempre pra casa, com esse gosto amargo de limitação.

* Título emprestado da música do Cd Maré, da Adriana Calcanhotto. Muito bom, por sinal. ;)

segunda-feira, outubro 11, 2010

Menino de fogo.

Você - Fogo, inteiro. Menino frágil perdido nos meus olhos, menino louco por desbravar o mundo inteiro. E eu aqui, também louca, pensando em te mostrar tudo isso. Mas sabe, garoto, tenho medo. Não medo de não saber como te mostrar o mundo, não medo de não te ser suficiente. Tenho medo de te invadir demais, te assustar. Coração do outro é terreno complicado, é coisa difícil de se ter nas mãos. E noto que, ao fechar o meu punho, posso sentir o seu em decompasso descobrindo os meus dedos. Além do teu coração, algo mais descobrirá os meus dedos? Meus dedos, meu gosto, meu corpo inteiro? A que mais será que estamos predestinados a ser? Me pego já cheia de dúvidas, de planos. Me pego pensando em detalhes nunca antes imaginados. Lembro de você no fim do dia, e quase me assusto notando o revertério que me causaram as tuas palavras por esses tempos. Dessa vez, é o meu coração que revela taquicardia. Surge em mim a vontade de te proteger, cuidar, ninar. Junto com a vontade de ter perto, de sentir. Realizar o teu desejo de andar de mãos dadas comigo, escalar os tais caminhos, descobrir todas as cores. Eu sei que quero, eu sei que posso. O que me resta agora é só esperar que o tempo diga para nós dois o que há de se concretizar.