sábado, outubro 30, 2010

O limite.

O céu parecia despencar quando Fernanda entrou no apartamento. O primeiro impulso foi jogar-se no sofá, com a cabeça enterrada numa das almofadas. Tudo que ela queria era chorar. Havia engolido aquelas lágrimas o dia inteiro, havia fingindo estar forte. Mas ali, sozinha, em meio ao breu e ao silêncio do próprio apartamento, ela podia desengasgar o choro. Sentia a necessidade de conversar com alguém, mas quem? Não havia mais um porto seguro para ela. Queria falar que estava tudo ruim. Queria contar que o amor da sua vida amava outra garota, queria dizer que sentia falta dos seus pais, queria dizer que odiava as responsabilidades que ganhou, mas não eram dela. Queria não estar tonta, embriagada, chorosa, perdida. Tragara já muitos cigarros, falara muitas coisas. Mas no fim da noite, quando o som da música havia ido embora junto com todos os convidados da festa, ela estava só. Sempre, sempre só. Sempre presa a ter de amar demais, e receber amor de menos. Sempre intensa, impulsiva, espontânea. Sempre esquisita, estranha, diferente. Suplicava pelo "algo mais" que haviam lhe prometido, pelo sonho que nunca chegava. Fazia frio, o termômetro marcava temperatura alta. Era inegável o precipício pavoroso ao qual pertencia. Ao qual estava presa desde o seu primeiro choro, desde a primeira vez em que se encontrou no mundo. Era antigo aquele estado deplorável. Era assustador, mas ela estava ali. Apenas esperando a visita macabra da morte.

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