quinta-feira, novembro 11, 2010

Aquele último dia (parte III).

Não eram nem seis horas ainda, e Marcos já perambulava louco pela casa. A mãe espantou-se ao entrar no quarto e encontrar a cama cheia das mais diferentes camisas e calças. Se não soubesse para que o seu rapaz havia feito toda aquela bagunça, teria reclamado o resto da noite. Mas ela sabia, entendia, e adorava! O seu menino, que ainda ontem corria pela casa inteira com as mãos cheias de carrinhos, bolas de gude e bonecos, agora estava preocupado em conquistar uma menina. O quarto tinha cheiro forte de perfume masculino, que de tão bom, fizera a mãe fechar os olhos como que para sentir melhor o aroma. Foi a voz de Marcos que a fez abrir os olhos, e admirar-se novamente.
- Mãe...
A voz dele expressava nitidamente a sua timidez.
- Me diga, como estou?
Os olhos de dona Elvira bilharam.
- Você... Você está lindo, meu filho!
- Mas mãe...
Sentou-se na cama, com os olhos baixos.
- Me diga, se a senhora fosse uma menina de 16 anos, aceitaria sair comigo hoje?
- Se eu aceitaria, minha criança?
- Mãe! - Falou, repreendendo o dengo.
- Tudo bem, meu filho. Mas olhe, eu não só sairia com você, como deixaria fazer tudo mais que quisesse comigo.
Riram-se, os dois. A conversa tirou um pouco da tensão e da insegurança do rapaz, e isso o ajudou a fazer um dos muitos pedidos complicados daquela noite.
- Pai, me empresta o carro essa noite?
- Nós vamos viajar amanhã cedo, Marcos. Nada de farras hoje.
- Mas pai, eu vou sair com uma garota.
A fala de Marcos fez o pai desgrudar os olhos da Tv e olhar para ele. Só assim pode notar que o filho estava realmente preparado para uma bela noite. E como parecia com ele, aquele menino! Nostalgico, seu Pedro puxou o chaveiro do bolso com um sorriso pouco comum.
- Vá, meu filho. Boa sorte, só não vá chegar tarde demais, lembre-se de que amanhã...
Ele não o ouviu. Nas últimas palavras de seu pai Marcos provavelmente já estava saindo da garagem, destribuindo sorrisos para o porteiro.
Pontual, buzinou em frente a casa de Vivian exatamente às sete horas. A moça apareceu na porta deslumbrante. Os conhecidos cachinhos pareciam entrar em sintonia com a natureza, com o vento. O vestido preto decotado combinava com os seus olhos negros, e constrastava com a sua pele muito branca. Estava ainda mais bonita e sorridente. Marcos fez a linha cavalheiro à moda antiga abrindo a porta para Vivian e deixando escapar um elogio tímido. O caminho pareceu muito longo até a casa de Abreu. As mãos do rapaz já escorregavam no volante, suadas. Quando chegaram, o coração de Marcos podia se comparar a uma escola de samba inteira.
- Nossa, não chegou ninguém ainda?
- Você sabe como eles são, Vivian, pontualidade zero.
Ele procurou seguir os passos que ensaiou em casa. E, é claro, nada deu certo. Atrapalhado, procurou a chave para abrir a porta. Vivian estranhou, mas preferiu não comentar nada, talvez, por já ter compreendido o que iria acontecer. Só não esperava dar de cara com mesa posta, luz de velas, música e decoração. Era um típico jantar romântico.
- Me desculpa por mentir para você? Se eu dissesse a verdade correria o risco de não te ter aqui hoje...
A moça não falou. De súbito, roubou de Marcos um beijo longo. Beijo de encanto. Sabiam que só aquele beijo não lhes garantiria nada. Sabiam que ainda precisavam de uma longa conversa. Sabiam que precisavam dividir alguns segredos, talvez impossibilidades. Mas não se importavam. Pediam, cada um do seu jeito, que aquele momento não terminasse nunca. Pois nunca em suas vidas haviam sentido tamanha felicidade e sintonia. Eram um só. E talvez formassem, os dois, o ser mais completo que já havia pisado sobre a terra.

Um comentário:

Samara disse...

Eita, me arrepiei no final. Adoro teu jeito de escrever. Vou tentar me atualizar no teu blog. :)