sábado, dezembro 31, 2011

Madrugada.

Ele fazia cócegas nos meus pés, depois acariciava as minhas pernas. Estava acontecendo. Após quase um ano, ele finalmente havia nos notado, ele finalmente estava vindo. Beijou a minha nuca, e eu o segurei com os meus braços. Não me importava mais esconder, eu havia escondido tudo perfeitamente bem aquele tempo todo. Foi quando me beijou. Nós nos beijamos. Me parecia que aquele corpo já havia tocado o meu por outras vezes. Outras vidas, talvez. Bonito, beijou-me os seios, como um súdito. Desabotoou paciente o meu vestido, e sorriu lindo quando descobriu o meu ventre. Eu o quis mais perto. Eu o despi também. Aquela pele gostosa de homem maduro. Aquela voz grossa, mansa, louca, me pedindo dizendo “vem”. Nós nos amamos a madrugada quase inteira, até eu precisar voltar a realidade. Até nos despedirmos em frente a minha casa, com um selinho rápido. E os dias tem passado vazios. Por hora, tenho vontade de escrever-lhe um bilhete, em que eu lhe diga apenas:
“Meu bem, por favor, não seja tolo a ponto de se deixar me perder. Sinto sua falta”.
Mas não o faço. Espero como se não esperasse nada, que ele volte. E que possa ler nos meus olhos um pedido quase desesperado pela sua permanência.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Quem me dera.

Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.
(...)
Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.
Quem me dera, que ao menos dessa vez fosse diferente. Quem me dera conseguir entender o porque de tudo parecer tão pouco, tanto suor parecer sempre água pura. Quem me dera entender porque tudo apunhá-la os meus sorrisos que se refazem de novo, de novo, de novo. Quem me dera conseguir conviver sem dor com esses acontecimentos todos. Quem me dera ter ao meu lado pessoas que amam as outras como se não houvesse amanhã. Quem me dera poder ir embora. Quem me dera encontrar vontades gêmeas as minhas. Mas aqui tudo fede a mentira. Por todos os lados que olho, é tudo que posso ver. A descartabilidade das coisas. Descubro que há horror por trás desses cenários bonitos e floridos. E me pergunto se algum dia a verdade voltará ao seu lugar e trará de volta o meu sorriso.

# Não sei dizer se estou de volta. Mas sei que precisei desse espaço um tanto muito grande, e vim.

terça-feira, setembro 13, 2011

As cartas que não mando.*

Você vai me achar uma louca por eu estar te escrevendo depois de tantos anos, mas é que estes dias tem sido cheios de saudade de você. Sabe, minha amiga, nesses anos tantas coisas aconteceram... Eu esqueci aquele rapaz que me fez mal e de quem você odiava. Mas vieram tantos outros... Eu queria poder te contar. Só que nossos rumos são diferentes e suas escolhas hoje são tão puritanas que eu nunca lhe falaria sobre as loucuras que ando fazendo. Ainda assim, sinto saudade. Saudade dos nossos brigadeiros de panela, saudade das nossas sessões de filme, saudade do seu olho preocupado comigo quando eu fazia besteira. Ah, amiga... Saudade dos comentários pelos corredores da escola de que nós éramos inseparáveis. Em que ponto nos perdemos? Eu não faço ideia. Sei que um dia, quando te olhei, você já não era mais a minha confidente, a minha segunda pele, a minha menininha. Você era só uma velha conhecida. Posso te dizer que te abraçar me doeu? É, doeu. Eu quase quis chorar e te perguntar porque tudo isso aconteceu conosco, eu quase quis te pedir pra mudar. Mas eu sabia lá no fundo que essa mudança não é possível. Eu sei que hoje nós não trocaríamos um punhado de palavras fáceis, quem dirá segredos guardados a sete chaves. E a pior coisa é essa sensação que o nunca mais dá, de não dar pra mudar. É uma pena, porque eu ainda te desejo perto. E ainda te amo, ainda me preocupo contigo e sinto curiosidade em saber se você está bem, se a faculdade tem sido legal, se o seu namoro é firme e se você tem planos de casar. Nós íamos ser madrinhas de casamento uma da outra, você se lembra? Hoje eu espero por receber só um convite. Do seu casamento, da sua formatura, do aniversário dos seus filhos. E espero que um dia, quando um deles vir as nossas fotos sorrindo sinceras e te pergunte quem eu sou, você possa responder "uma das pessoas mais importantes que tive na vida", porque é isso que vou responder aos meus.

Saudades irremediáveis.
Sua sempre,
Melhor prima.

*Título emprestado da música do Leoni.

terça-feira, agosto 16, 2011

Carta para Ele.

"Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor sem nojo nem medo e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem."
Deus,

Eu sei que não tenho sido a melhor filha do mundo. Sei que às vezes eu vou dormir sem agradecer o dia que tive. Sem nem notar que estou viva, que tenho pernas para andar e comida na mesa todos os dias. Mas hoje, por favor, hoje, o senhor pode me escutar um pouquinho? É que eu acho que não consigo mais sozinha. Sabe, eu acho que estou me tornando uma adulta. E isso não me tem sido fácil. Sei que se sinto tanto frio é porque a minha coberta deve ser grande o suficiente. Mas é que hoje, Deus, eu quebrei aquela nossa promessa. Hoje eu chorei. Hoje eu esqueci que as crianças da África. Hoje eu esqueci os pacientes com câncer. Hoje eu chorei como se a minha dor fosse a maior do mundo. Pai, eu quis conversar com alguém... Mas todos me pareceram ocupados demais. Eu tentei entender as minhas matérias escolares, mas isso também foi em vão. Eu ouvi gritos pela casa sobre o quão difícil é conviver comigo e entendi que isso deve mesmo ser verdade e nenhum deles tem culpa. Então eu lembrei da mulher muito loira que me disse que eu poderia contar sempre com o senhor. Por isso eu quis te escrever. E eu quero te pedir umas coisas, será que eu ainda posso?
Primeiro, Deus, eu queria te pedir desculpas. Desculpas por ter suspeitado dos seus poderes imensos. Desculpas por rir de algumas pessoas que me contaram sobre a sua magnitude.
Segundo, eu queria que o senhor entendesse que eu não sou dada a exposições, que se eu rezo sempre baixinho é porque quero falar só no teu ouvido que te amo e o resto do mundo não precisa ouvir.
Terceiro... Eu acho, Pai, que esse é o pedido mais difícil de fazer. Porque eu admito, eu desço do salto e esqueço a minha independência e petulância, e admito que não consegui. Deus... Cuida dele pra mim? Ele é meio sem juízo, e se acha o dono do tempo. Enlaça os teus dedos nos cabelos dele e faz com que ele não tenha pesadelos. Faz com que ele enxergue o amor de verdade nos olhares das pessoas e esqueça esse vício imenso pelo sofrimento. Põe nos pensamentos dele coisas bonitas todos os dias, cheiros de amor e paz. E nestes dias que seguem, ajude-o a tomar as melhores decisões. Guie os olhos dele pelo melhor caminho, ainda que eu não esteja por lá, ainda que este não se direcione a mim. Será que você pode ensiná-lo também sobre respeito? Às vezes me parece que nunca o apresentaram isso.
E por último, Deus... Será que o senhor poderia continuar segurando a minha mão? Será que o senhor pode fazer o meu coração parar de apertar? Será que o senhor pode me dar noites sem insônia? Deus... Será que o senhor poderia vir aqui e me dar um abraço?

That's over, baby?

"É muito difícil aprisionar os que tem asas", me veio instantaneamente a frase do Caio Fernando ao pensamento, e eu quase pude ouvi-lo falar. Mas me percebi tola por achar que o problema fossem só as tuas asas, eu sabia que havia algo mais. Você me pediu um tempo, me disse que voltaria, pediu que eu ficasse. Só que eu sou imediatista, meu bem. Eu preciso de respostas rápidas, no ato. Eu não sei esperar que o tempo resolva nada. Apesar disso, eu ainda estou aqui. Talvez porque maior que o meu imediatismo seja o meu sentimento, ou simplesmente por não ter conseguido entender ainda que você estava mentindo. Você me disse "não pense que o que eu te disse não era verdade, porque é", e eu quis acreditar, entende? Eu quis acreditar nos teus olhos. Eu quis acreditar no teu toque. Eu quis acreditar em você. Até que eu acordo de manhã e tudo se desmorona num segundo. E talvez nesse momento, pela primeira vez, eu comece a pensar em outra rota. Meus pés instantaneamente levantam-se da cadeira, minhas mãos como que sozinhas rabiscam palavras num papel. Escute, vou-me embora. Preciso arrumar uma bagunça tamanha e cuidar um pouco de mim. Mas deixo telefone e endereço, pro caso de você se resolver por voltar.

domingo, julho 17, 2011

Fim.

Ela saiu sem rumo. Sem rota, sem destino. Qualquer coisa para fazer seria melhor do que ficar naquela inércia. Foi. O coração doía, mas ela não chorava. Precisava ser forte. As árvores passavam pela sua vista como vultos verdes, as pessoas estavam todas uniformes. Precisava beber algo. Precisava daquele estado de euforia que o alcool lhe dava. Aquela felicidade falsa, mas convincente. Ou talvez fossem as pessoas que não reparassem mesmo. A voz muito rouca pediu um cigarro e uma garrafa de vodka ao vendedor. Ele a olhou com cara de pena. Ela odiava isso. Não queria pena. Queria um abraço, só. Queria alguém que sentasse ao seu lado, lhe pusesse a mão no ombro e dissesse “vai ficar tudo bem”. E que esse alguém não lhe cobrasse nada, não lhe perguntasse nada. Que quando chegasse a hora, tivesse ouvidos atentos e palavras amigas. Mas não. Não havia ninguém por ali que fosse capaz disso. A bebida amargava na garganta e o cigarro a fazia tossir. Falta de costume. Há tempos não se rendia aquele desespero. Isso também doía. Ela estava fraca. Ela era fraca. A pupila dilatou-se mais um pouco, e agora sim, já não via nada. E até hoje, não se sabe se ela havia visto ou não o precipício em que caiu naquele fim de tarde.

sábado, junho 11, 2011

Surpresa

E eu passaria horas jogando conversa fora com você, eu viraria a noite, invadiria a madrugada, venerando a nossa amizade. Que gostoso ouvir a sua voz, me perder no teu abraço, que gostoso te fazer sorrir. Que delícia olhar nos olhos, sentir o teu peito tocando os meus seios. E tremer, beirar a taquicardia, quando você me aparece. Sempre lindo, sempre incrível, sempre atrativo, sempre apaixonante. Talvez as coisas não sejam do jeito que eu queria, mas elas pelo menos são.

Engraçado te ouvir me chamar de "minha namorada". Não sei se isso ainda pode se concretizar. Verdade que eu ainda quero te ter. Mas o fato é que eu tenho. Eu te tenho forte e diferente, eu te tenho imenso. Eu fui a tua mudança, e isso tem um gosto louco de dever cumprido. Eu só não sei se totalmente cumprido.

domingo, abril 24, 2011

Meu querido A.,

Sonhei com você essa noite. Acordei em êxtase e sem entender o porque. Há muitos anos não nos falamos e a sua imagem muitas vezes fica turva quando tento lembrar detalhes de você. Mas depois dessa noite está tudo nítido dentro da minha cabeça, e incrivelmente, do meu coração. E eu não entendo. Eu sinceramente não entendo porque é que o seu corpo ainda tem o poder imenso de dançar sobre as minhas lembranças. As tuas pernas andam sobre os meus devaneios, teu jeito bonito de andar, a tua voz gostosa que um dia disse ao meu ouvido "Vem comigo". Impossível não lembrar do teu sorriso cheio de terceiras intenções, e dos comentários pelos corredores de que eu era a sua queridinha. Que incrível que era para mim ser a sua querida. Que delícia acompanhar a sua preocupação comigo. E que difícil foi ver os teus olhos marejaram quando eu lhe disse "Vou ter que ir embora", e depois desaguar contigo por horas, agarrada na sua cintura, molhando todo o colarinho da sua blusa que muitas vezes tinha me proporcionado sentir o cheiro mais alucinante do mundo. Eu sabia que no momento em que eu dissesse adeus ao porteiro do prédio, eu estaria dizendo adeus também para nós dois. Eu não me mudaria para muito longe, era apenas outro bairro. Mas entendia que não te ver todo dia nos distanciaria não só em contato físico. Você logo passou a me ser frio, a não responder as minhas cartas, a mandar recados pelas minhas amigas dizendo apenas que também sentia a minha falta. Foi então que eu mudei de cidade e aí sim tive que te dizer adeus. Passados tantos anos, nunca imaginei que meu corpo ainda pudesse pulsar de vontade pelo seu. Mas pulsa. Eu sinto sua falta. Eu te quero de volta. Eu te preciso. Perto de mim, dentro de mim.

Com amor e saudade,
Da sua "queridinha", E.

quarta-feira, abril 06, 2011

Fadiga.

Eu ando fatigada. Ando fatigada dessa minha busca incansável por paz. Ando fatigada de ver todos os meus esforços serem diminuídos e os meus erros serem aumentados. Ando fatigada dessas amizades descartáveis. Ando fatigada desses amores mal vividos. Ando fatigada desses estudos frenéticos e dessa rotina escolar insuportável. Ando fatigada desses papos fúteis adolescentes. Ando fatigada de aturar a falta de bom gosto das pessoas. Ando fatigada desses desafetos todos. Ando fatigada dessa vidinha pequena de interior. Ando fatigada dessa mesmice. Ando fatigada desses olhos de águia sobre mim. Ando fatigada de viver. E de até a ideia de por fim a vida não me trazer um sossego.

A hora de reverberar.

Era tarde de domingo, e eu chorava. Algumas palavras haviam me tocado fundo, e eu me sentia nada outra vez. Uma sessão aleatória de músicas tocava nos fones e eu desaguava baixinho. De repente, começou a tocar "acabou chorare", dos Novos Baianos. E não sei o porque (muito provavelmente por um impulso vital), enxuguei as lágrimas. Pronto, fim. Já era o bastante. O pranto já havia molhado o meu seio nu, meus olhos e bochechas já tinham avermelhado. Não haveria como voltar atrás, como mudar. Então, por que render tão preciosas lágrimas? Eu tinha pelo menos 5 matérias para estudar, assim como outros tantos problemas para povoar a minha cabeça. Ele não deveria tomar todo esse espaço. E não tomou. Tomei um ducha fria, um chocolate quente, e estava de cara nova e com uma coragem imensa pra seguir em frente.

sexta-feira, março 25, 2011

Aqueles olhinhos verdes.


Ela me pediu há mais de um mês atrás que eu postasse algo aqui pra ela, e eu aproveitei que hoje é o seu aniversário de 17 anos para dizer a todo mundo o quanto ela é especial na minha vida. Indiara, há 3 anos atrás eu não imaginaria estar aqui escrevendo sobre você. Quem diria que nós passaríamos de velhas conhecidas a amiga íntimas como somos hoje? Eu não apostaria nessa ideia nunca. Se bobear, nem depois de nos conhecermos direito. A nossa amizade entre trancos e barrancos, nossas brigas homéricas, nossos foras complicadíssimos. Mas há algo, sabe?! Algo em nós duas que não nos deixou desistir nunca. Fomos lá, desafiamos as nossas diferenças, lutamos para estar perto uma da outra. E estamos aqui, conseguimos. Sei que posso ligar pra você de madrugada e ouvir você dizer do outro lado "o que foi, fia?", com aquela voz de preocupação que eu adoro demais. Sei que você pode me contar qualquer coisa sem que eu nem pense em violar a sua confiança contando a outra pessoa. Há coisa melhor que essa certeza? Não há. É isso. Eu quero os melhores fluidos de felicidade pra você. Quero o seu nome nos agradecimentos do convite da minha formatura. Quero sair de moto a mil por hora pro melhor lugar pra ver a lua cheia. Quero receber recados quando você estiver longe em que eu ainda te chame de "bebê" e você de "bailarina". Quero que o meu gatinho possa se consultar com você no meu apartamento, naquele dia em que você vá tomar uma cerveja e colocar um papo em dia. E que daqui há muitos anos nós sejamos duas velhinhas bem enxutas lembrando de como é bom ter com quem contar. Eu te admiro, te adoro, te amo. Daqui até a eternidade.
Parabéns, meu bebê.

quinta-feira, março 03, 2011

Mentiras não-sinceras.

Ele não era o rapaz dos meus sonhos. A barbinha rala, o cigarro, o whisky... Tudo havia firmado na minha cabeça um cenário que na verdade não existia. Ele era só um rapaz fútil de péssimo gosto musical. Isso poderia parecer besteira, mas em meio aquele monte de descobertas, era mais um ponto a favor da desilusão. “As pessoas mentem. Isso é fato”, insistia a minha mente. Mas lá dentro, o meu coração chorava. Eu havia quebrado o meu orgulho para ver aquilo? Um sorriso bonito e um rapaz pouco interessante? Eu estava perdidamente apaixonada por alguém que não existia, meu Deus. Onde eu jogaria as cartas de amor, os sonhos tão bem sonhados, os delírios, as vontades? O que eu faria com a minha paixão? Eu não fazia ideia. Tentava pouco à pouco acalmar os meus ânimos e me dizer: "Ainda bem, você não queria mesmo se apaixonar, lembra?". E fingia querer aquelas descobertas ruins, escondendo perfeitamente de todos que o que eu queria mesmo era que ele fosse o rapaz por quem eu havia esperado todo esse tempo.

domingo, fevereiro 27, 2011

Sobre chances e medos.

Domingo de manhã, ressaca daquelas. Você vai sentar no sofá querendo morrer de enjôo, mas ainda assim, vai ter tempo para colocar em ordem os acontecimentos da outra noite. Vai lembrar de todos, ou quase todos os caras que beijou. Ou, no caso das mais recatadas, vai lembrar do carinha por quem esteve se encantando a noite inteira. Vocês trocaram telefones e isso te deixa nervosa, embora você esteja aparentemente tranquila. “Ele não vai ligar”, você pensa. E não vai mesmo. Você olha para o nome dele (única coisa sobre ele que você sabe) na tela do celular, mas acha que está totalmente fora de cogitação apertar a tecla para ligar. Não, não você. Você é mulher, isso é coisa de homem. Ele, do outro lado, deve cumprir o papel machista de não ligar, como prometeu. Ainda que também tenha acordado pensando no seu vestido, ainda que queira ouvir sua voz de novo. É a regra. E assim como você, ele não liga. Ele é homem. “Homens não se apaixonam. Não pode. Mulheres são más e machucam”, pensa. Então ficam assim, os dois. Você achando que todos os homens não prestam. Ele achando que todas as mulheres não prestam. E os dois perdendo a chance rara de viver um grande amor.

domingo, fevereiro 13, 2011

De alma pra alma.

Eles se conheciam desde muito pequenos. Eram velhos e bons amigos. Quando crianças, achavam boba a ideia dos adultos de planejar como seria o casamento dos dois. Eles eram uma alma só, quase que sem sexo, eram anjos. Anjos unidos por uma amizade incontestável, daquelas em que é maldade demais imaginar qualquer outra coisa além disso. Aliás, além não. Além eles já eram. Amor não era além da amizade. Amizade era além do amor. Era eterno, não passaria. Até que um dia, o alcool pregou-lhes uma peça: Beijaram-se. Ela não soube dizer o porque, ele também não. Era loucura. Havia outra senhora para o amor dele, outro senhor para o amor dela. Ficaram ali, ébrios, sem foco, sem chão. Olharam-se nos olhos e foi fatal: Despiram-se. Já estavam despidos muito antes, despidos de maldades, de receios, despidos de tudo. Eram tanto de alma para alma que pareciam conhecer as minúcias dos seus corpos. Dançaram sobre os lençóis, embriagados a noite inteira. Madrugada quente, jogo íntimo. Acordaram sóbrios e sem reação. Ela enrolou-se no lençol e ele vestiu-se rápido. Ele lhe disse que a queria apaixonada. Ela gargalhou. Uma gargalhada mentirosa: Estava. Estava apaixonada, talvez sempre estivesse. Ele só queria que ela falasse sério. Ela só queria que ele falasse sério. Eles separaram-se naquela manhã de outono. E nunca mais foram de alma pra alma.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Dialogando.

- Amigo, que coisa mais liinda... Seu pai tem o mesmo signo que eu, e sua mãe o mesmo que ele.
- E meu pai foi o primeiro namorado da minha mãe.
- Quantos anos de casados eles tem?
- 26.
- Que lindo, queria ter um amor assim!
- Com o mesmo signo?
- Se fosse possível...
- Possível, é.
- Não, não é.
- É sim, Eva.
- Vamos mudar de assunto?
- Como você pode desistir, levantar bandeira branca assim?
- Eu não estou desistindo. Eu estou voltando para casa após a guerra.

domingo, fevereiro 06, 2011

Give me freedom!

Eu quero novas tendências, ponto. Vou jogar pela janela todas as futilidades, não quero nada disso. Quero tomar banho de cachoeira. Quero pintar a cara, sair pelo mundo. Quero um amor alternativo e saudável. Quero um monte de homens barbudos e mulheres independentes do meu lado. Quero um violão e uma mochila nas costas. Quero um cabelo dreadlocks. Quero cantar Chico e tatuar verdades no corpo. Quero a total liberdade de expressão e escolha. Quero mudar o mundo. Quero ser verdadeira, algo além desse modelo perfeito de boneca de plástico que tenho sido. Quero um universo paralelo. Saí pra passear, e se perguntarem por mim, diga que só volto quando me encontrar.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Vermelho.


Os olhos marejam, o corpo ferve, as pernas tremem. É um misto confuso de sensações. Levo a taça de vinho à boca como quem busca tomar o teu sangue. Como quem busca sugar-lhe as entranhas, como quem busca tomar-lhe os segredos todos. Sou fera que se debate numa gaiola pequena. O cadeado está aberto, mas não posso vê-lo tamanha é a minha loucura. Tua imagem não me sai da mente. Respiro a volúpia das lembranças desavergonhadas, dos lances rápidos, dos telefones esquecidos no canto da cama. Minhas unhas arrancam a minha pele como um dia arrancaram a tua. Desespero. Vermelho-vinho. Vermelho-sangue. Vermelho-amor. Vermelho que é a cor das pétalas de rosa no teu filme preferido. No meu filme preferido. Vermelho do meu eu-tão você. Imenso, intenso. Vermelho das minhas roupas. Rasgo-as. E inteira vermelha, inteira vazia, inteira confusa, inteira cansada, tomo o último gole da última taça. Enxergo a minha dignidade lá no fundo. Não há mais nada. Meu olhar mergulha e entende que é o fim. Oh, criança, só o fim. Vamos lá. Há uma ponte. Há madeira gasta, precipício. Há uma montanha. Há um Monte Everest. Há um rio (você se lembra?). Há pedras enormes. E se caio ou corto os pés? Qual a possibilidade de a minha queda tocar-lhe tanto quanto aquela música triste? Não há possibilidade. Quando você quase quis falar de quem se importa e quase disse também se importar, foi só um quase. Assim como por vezes quase fomos algo, quase permanecemos. Ao lembrar, aperto a taça. Vermelho novamente. Vinho tinto e sangue se misturam. É como o teu sangue entrando no meu corpo. É como o meu sangue sujando aqueles lençóis que não eram nossos, naquela vida que não era minha. É a minha espera inútil, o meu coração apertado ao ouvir o teu nome. É a certeza de que o trem não virá, mas passar o resto da vida sentada no banquinho da estação.

- L'avventura - Legião Urbana.

Ele não via outro jeito, teve que improvisar, inventar desculpas que acabaria ele mesmo acreditando, e "desculpas nem sempre são sinceras, quase nunca são". 

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Secreto.

Existe uma coisa, uma só, que nunca vai mudar. Mas esta deve permanecer em silêncio, para que não se quebre a perfeição complexa das coisas. Deve permanecer guardada no íntimo, e só ele deve cochichar leve e lento ao pé do ouvido: O imperecível será apenas seu se guardado entre quatro paredes.
Sentir deve ser sempre um segredo.

terça-feira, janeiro 04, 2011

Carta do amante secreto e louco

Eu vi a sua mão suada agarrando o travesseiro com força. Aqueles gemidos loucos, aqueles gritos. Você estava lá mais uma vez. Alimentando a sua velha mania, a sua velha loucura, o seu velho vício. Ele, o rapaz que havia destruído os seus e os meus sonhos, lhe tomava no braço e gozava dentro de ti. Tive raiva. Não ciúme, não nojo, mas raiva. Te ver escrava daquele amor escroto não me agradava, ainda que eu houvesse me tornado tão escroto com o passar do tempo. Mais uma vez não, você não podia. A sua vida desmoronando de novo sobre a tua e a minha cabeça era algo que não deveria nunca mais acontecer. Mas você estava ali. Tão entregue, tão inteira, tão dele, e tão pouco sua. Minha raiva foi se tornando ódio. Um ódio imenso de estar ali, aumentando o volume da minha música para não ouvir os gritos do teu erro se multiplicando nos meus ouvidos. De ter que olhar para a sua cara de noite mal dormida e sexo bem sucedido no outro dia pela manha. Tentei ligar para alguém, conversar. Me falaram sobre amor. Sobre o desvario e a loucura que ele carimba em todos os seus adeptos. Eu ri. Riso mesmo de deboche, de quem não pode mais ouvir esse papo velho de alma gêmea. Você não entendeu que você não é o Peter Pan? As rugas daqui a pouco estarão tomando conta do seu rosto. E quando isso acontecer eu já não estarei aqui para segurar os pontos e cuidar das suas responsabilidades.

domingo, janeiro 02, 2011

Como num filme.

Ele: Então, deixa eu lhe contar... Assisti Beleza Americana ontem...
Ela: Hum... Foi mesmo?
Ele: Foi sim. O filme é ótimo. Posso lhe contar a parte que mais gostei?
Ela: Pode.
Ele: Posso mesmo? Ei, olhe para mim.
Ela: Estou ouvindo.
Ele: Você está chateada?
Ela: Não, não estou. Fale sobre o filme.
Ele: Então, o rapaz do filme era apaixonado por uma moça... Você tá me ouvindo?
Ela: Estou, menino, prossiga.
Ele: Ele tinha uma filmadora, e filmava tudo que via. Um dia, ele chamou a moça para mostrar o vídeo mais lindo que já tinha feito.
Ela: E como era o vídeo?
Ele: Era de um saco plástico voando.
Ela: E o que há de incrível nisso?
Ele: É que depois, ela lhe pediu um beijo.
Ela: Nossa...
Ele: Eu queria uma filmadora agora.
Ela: Pra quê?
Ele: Para lhe mostrar um vídeo.

Ela sorriu.

Ela: Como se você precisasse de tudo isso para me beijar, seu bobo.

Beijaram-se.