quarta-feira, janeiro 12, 2011

Secreto.

Existe uma coisa, uma só, que nunca vai mudar. Mas esta deve permanecer em silêncio, para que não se quebre a perfeição complexa das coisas. Deve permanecer guardada no íntimo, e só ele deve cochichar leve e lento ao pé do ouvido: O imperecível será apenas seu se guardado entre quatro paredes.
Sentir deve ser sempre um segredo.

terça-feira, janeiro 04, 2011

Carta do amante secreto e louco

Eu vi a sua mão suada agarrando o travesseiro com força. Aqueles gemidos loucos, aqueles gritos. Você estava lá mais uma vez. Alimentando a sua velha mania, a sua velha loucura, o seu velho vício. Ele, o rapaz que havia destruído os seus e os meus sonhos, lhe tomava no braço e gozava dentro de ti. Tive raiva. Não ciúme, não nojo, mas raiva. Te ver escrava daquele amor escroto não me agradava, ainda que eu houvesse me tornado tão escroto com o passar do tempo. Mais uma vez não, você não podia. A sua vida desmoronando de novo sobre a tua e a minha cabeça era algo que não deveria nunca mais acontecer. Mas você estava ali. Tão entregue, tão inteira, tão dele, e tão pouco sua. Minha raiva foi se tornando ódio. Um ódio imenso de estar ali, aumentando o volume da minha música para não ouvir os gritos do teu erro se multiplicando nos meus ouvidos. De ter que olhar para a sua cara de noite mal dormida e sexo bem sucedido no outro dia pela manha. Tentei ligar para alguém, conversar. Me falaram sobre amor. Sobre o desvario e a loucura que ele carimba em todos os seus adeptos. Eu ri. Riso mesmo de deboche, de quem não pode mais ouvir esse papo velho de alma gêmea. Você não entendeu que você não é o Peter Pan? As rugas daqui a pouco estarão tomando conta do seu rosto. E quando isso acontecer eu já não estarei aqui para segurar os pontos e cuidar das suas responsabilidades.

domingo, janeiro 02, 2011

Como num filme.

Ele: Então, deixa eu lhe contar... Assisti Beleza Americana ontem...
Ela: Hum... Foi mesmo?
Ele: Foi sim. O filme é ótimo. Posso lhe contar a parte que mais gostei?
Ela: Pode.
Ele: Posso mesmo? Ei, olhe para mim.
Ela: Estou ouvindo.
Ele: Você está chateada?
Ela: Não, não estou. Fale sobre o filme.
Ele: Então, o rapaz do filme era apaixonado por uma moça... Você tá me ouvindo?
Ela: Estou, menino, prossiga.
Ele: Ele tinha uma filmadora, e filmava tudo que via. Um dia, ele chamou a moça para mostrar o vídeo mais lindo que já tinha feito.
Ela: E como era o vídeo?
Ele: Era de um saco plástico voando.
Ela: E o que há de incrível nisso?
Ele: É que depois, ela lhe pediu um beijo.
Ela: Nossa...
Ele: Eu queria uma filmadora agora.
Ela: Pra quê?
Ele: Para lhe mostrar um vídeo.

Ela sorriu.

Ela: Como se você precisasse de tudo isso para me beijar, seu bobo.

Beijaram-se.