domingo, fevereiro 27, 2011

Sobre chances e medos.

Domingo de manhã, ressaca daquelas. Você vai sentar no sofá querendo morrer de enjôo, mas ainda assim, vai ter tempo para colocar em ordem os acontecimentos da outra noite. Vai lembrar de todos, ou quase todos os caras que beijou. Ou, no caso das mais recatadas, vai lembrar do carinha por quem esteve se encantando a noite inteira. Vocês trocaram telefones e isso te deixa nervosa, embora você esteja aparentemente tranquila. “Ele não vai ligar”, você pensa. E não vai mesmo. Você olha para o nome dele (única coisa sobre ele que você sabe) na tela do celular, mas acha que está totalmente fora de cogitação apertar a tecla para ligar. Não, não você. Você é mulher, isso é coisa de homem. Ele, do outro lado, deve cumprir o papel machista de não ligar, como prometeu. Ainda que também tenha acordado pensando no seu vestido, ainda que queira ouvir sua voz de novo. É a regra. E assim como você, ele não liga. Ele é homem. “Homens não se apaixonam. Não pode. Mulheres são más e machucam”, pensa. Então ficam assim, os dois. Você achando que todos os homens não prestam. Ele achando que todas as mulheres não prestam. E os dois perdendo a chance rara de viver um grande amor.

domingo, fevereiro 13, 2011

De alma pra alma.

Eles se conheciam desde muito pequenos. Eram velhos e bons amigos. Quando crianças, achavam boba a ideia dos adultos de planejar como seria o casamento dos dois. Eles eram uma alma só, quase que sem sexo, eram anjos. Anjos unidos por uma amizade incontestável, daquelas em que é maldade demais imaginar qualquer outra coisa além disso. Aliás, além não. Além eles já eram. Amor não era além da amizade. Amizade era além do amor. Era eterno, não passaria. Até que um dia, o alcool pregou-lhes uma peça: Beijaram-se. Ela não soube dizer o porque, ele também não. Era loucura. Havia outra senhora para o amor dele, outro senhor para o amor dela. Ficaram ali, ébrios, sem foco, sem chão. Olharam-se nos olhos e foi fatal: Despiram-se. Já estavam despidos muito antes, despidos de maldades, de receios, despidos de tudo. Eram tanto de alma para alma que pareciam conhecer as minúcias dos seus corpos. Dançaram sobre os lençóis, embriagados a noite inteira. Madrugada quente, jogo íntimo. Acordaram sóbrios e sem reação. Ela enrolou-se no lençol e ele vestiu-se rápido. Ele lhe disse que a queria apaixonada. Ela gargalhou. Uma gargalhada mentirosa: Estava. Estava apaixonada, talvez sempre estivesse. Ele só queria que ela falasse sério. Ela só queria que ele falasse sério. Eles separaram-se naquela manhã de outono. E nunca mais foram de alma pra alma.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Dialogando.

- Amigo, que coisa mais liinda... Seu pai tem o mesmo signo que eu, e sua mãe o mesmo que ele.
- E meu pai foi o primeiro namorado da minha mãe.
- Quantos anos de casados eles tem?
- 26.
- Que lindo, queria ter um amor assim!
- Com o mesmo signo?
- Se fosse possível...
- Possível, é.
- Não, não é.
- É sim, Eva.
- Vamos mudar de assunto?
- Como você pode desistir, levantar bandeira branca assim?
- Eu não estou desistindo. Eu estou voltando para casa após a guerra.

domingo, fevereiro 06, 2011

Give me freedom!

Eu quero novas tendências, ponto. Vou jogar pela janela todas as futilidades, não quero nada disso. Quero tomar banho de cachoeira. Quero pintar a cara, sair pelo mundo. Quero um amor alternativo e saudável. Quero um monte de homens barbudos e mulheres independentes do meu lado. Quero um violão e uma mochila nas costas. Quero um cabelo dreadlocks. Quero cantar Chico e tatuar verdades no corpo. Quero a total liberdade de expressão e escolha. Quero mudar o mundo. Quero ser verdadeira, algo além desse modelo perfeito de boneca de plástico que tenho sido. Quero um universo paralelo. Saí pra passear, e se perguntarem por mim, diga que só volto quando me encontrar.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Vermelho.


Os olhos marejam, o corpo ferve, as pernas tremem. É um misto confuso de sensações. Levo a taça de vinho à boca como quem busca tomar o teu sangue. Como quem busca sugar-lhe as entranhas, como quem busca tomar-lhe os segredos todos. Sou fera que se debate numa gaiola pequena. O cadeado está aberto, mas não posso vê-lo tamanha é a minha loucura. Tua imagem não me sai da mente. Respiro a volúpia das lembranças desavergonhadas, dos lances rápidos, dos telefones esquecidos no canto da cama. Minhas unhas arrancam a minha pele como um dia arrancaram a tua. Desespero. Vermelho-vinho. Vermelho-sangue. Vermelho-amor. Vermelho que é a cor das pétalas de rosa no teu filme preferido. No meu filme preferido. Vermelho do meu eu-tão você. Imenso, intenso. Vermelho das minhas roupas. Rasgo-as. E inteira vermelha, inteira vazia, inteira confusa, inteira cansada, tomo o último gole da última taça. Enxergo a minha dignidade lá no fundo. Não há mais nada. Meu olhar mergulha e entende que é o fim. Oh, criança, só o fim. Vamos lá. Há uma ponte. Há madeira gasta, precipício. Há uma montanha. Há um Monte Everest. Há um rio (você se lembra?). Há pedras enormes. E se caio ou corto os pés? Qual a possibilidade de a minha queda tocar-lhe tanto quanto aquela música triste? Não há possibilidade. Quando você quase quis falar de quem se importa e quase disse também se importar, foi só um quase. Assim como por vezes quase fomos algo, quase permanecemos. Ao lembrar, aperto a taça. Vermelho novamente. Vinho tinto e sangue se misturam. É como o teu sangue entrando no meu corpo. É como o meu sangue sujando aqueles lençóis que não eram nossos, naquela vida que não era minha. É a minha espera inútil, o meu coração apertado ao ouvir o teu nome. É a certeza de que o trem não virá, mas passar o resto da vida sentada no banquinho da estação.

- L'avventura - Legião Urbana.

Ele não via outro jeito, teve que improvisar, inventar desculpas que acabaria ele mesmo acreditando, e "desculpas nem sempre são sinceras, quase nunca são".