sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Vermelho.


Os olhos marejam, o corpo ferve, as pernas tremem. É um misto confuso de sensações. Levo a taça de vinho à boca como quem busca tomar o teu sangue. Como quem busca sugar-lhe as entranhas, como quem busca tomar-lhe os segredos todos. Sou fera que se debate numa gaiola pequena. O cadeado está aberto, mas não posso vê-lo tamanha é a minha loucura. Tua imagem não me sai da mente. Respiro a volúpia das lembranças desavergonhadas, dos lances rápidos, dos telefones esquecidos no canto da cama. Minhas unhas arrancam a minha pele como um dia arrancaram a tua. Desespero. Vermelho-vinho. Vermelho-sangue. Vermelho-amor. Vermelho que é a cor das pétalas de rosa no teu filme preferido. No meu filme preferido. Vermelho do meu eu-tão você. Imenso, intenso. Vermelho das minhas roupas. Rasgo-as. E inteira vermelha, inteira vazia, inteira confusa, inteira cansada, tomo o último gole da última taça. Enxergo a minha dignidade lá no fundo. Não há mais nada. Meu olhar mergulha e entende que é o fim. Oh, criança, só o fim. Vamos lá. Há uma ponte. Há madeira gasta, precipício. Há uma montanha. Há um Monte Everest. Há um rio (você se lembra?). Há pedras enormes. E se caio ou corto os pés? Qual a possibilidade de a minha queda tocar-lhe tanto quanto aquela música triste? Não há possibilidade. Quando você quase quis falar de quem se importa e quase disse também se importar, foi só um quase. Assim como por vezes quase fomos algo, quase permanecemos. Ao lembrar, aperto a taça. Vermelho novamente. Vinho tinto e sangue se misturam. É como o teu sangue entrando no meu corpo. É como o meu sangue sujando aqueles lençóis que não eram nossos, naquela vida que não era minha. É a minha espera inútil, o meu coração apertado ao ouvir o teu nome. É a certeza de que o trem não virá, mas passar o resto da vida sentada no banquinho da estação.

- L'avventura - Legião Urbana.

Ele não via outro jeito, teve que improvisar, inventar desculpas que acabaria ele mesmo acreditando, e "desculpas nem sempre são sinceras, quase nunca são". 

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