domingo, abril 24, 2011

Meu querido A.,

Sonhei com você essa noite. Acordei em êxtase e sem entender o porque. Há muitos anos não nos falamos e a sua imagem muitas vezes fica turva quando tento lembrar detalhes de você. Mas depois dessa noite está tudo nítido dentro da minha cabeça, e incrivelmente, do meu coração. E eu não entendo. Eu sinceramente não entendo porque é que o seu corpo ainda tem o poder imenso de dançar sobre as minhas lembranças. As tuas pernas andam sobre os meus devaneios, teu jeito bonito de andar, a tua voz gostosa que um dia disse ao meu ouvido "Vem comigo". Impossível não lembrar do teu sorriso cheio de terceiras intenções, e dos comentários pelos corredores de que eu era a sua queridinha. Que incrível que era para mim ser a sua querida. Que delícia acompanhar a sua preocupação comigo. E que difícil foi ver os teus olhos marejaram quando eu lhe disse "Vou ter que ir embora", e depois desaguar contigo por horas, agarrada na sua cintura, molhando todo o colarinho da sua blusa que muitas vezes tinha me proporcionado sentir o cheiro mais alucinante do mundo. Eu sabia que no momento em que eu dissesse adeus ao porteiro do prédio, eu estaria dizendo adeus também para nós dois. Eu não me mudaria para muito longe, era apenas outro bairro. Mas entendia que não te ver todo dia nos distanciaria não só em contato físico. Você logo passou a me ser frio, a não responder as minhas cartas, a mandar recados pelas minhas amigas dizendo apenas que também sentia a minha falta. Foi então que eu mudei de cidade e aí sim tive que te dizer adeus. Passados tantos anos, nunca imaginei que meu corpo ainda pudesse pulsar de vontade pelo seu. Mas pulsa. Eu sinto sua falta. Eu te quero de volta. Eu te preciso. Perto de mim, dentro de mim.

Com amor e saudade,
Da sua "queridinha", E.

quarta-feira, abril 06, 2011

Fadiga.

Eu ando fatigada. Ando fatigada dessa minha busca incansável por paz. Ando fatigada de ver todos os meus esforços serem diminuídos e os meus erros serem aumentados. Ando fatigada dessas amizades descartáveis. Ando fatigada desses amores mal vividos. Ando fatigada desses estudos frenéticos e dessa rotina escolar insuportável. Ando fatigada desses papos fúteis adolescentes. Ando fatigada de aturar a falta de bom gosto das pessoas. Ando fatigada desses desafetos todos. Ando fatigada dessa vidinha pequena de interior. Ando fatigada dessa mesmice. Ando fatigada desses olhos de águia sobre mim. Ando fatigada de viver. E de até a ideia de por fim a vida não me trazer um sossego.

A hora de reverberar.

Era tarde de domingo, e eu chorava. Algumas palavras haviam me tocado fundo, e eu me sentia nada outra vez. Uma sessão aleatória de músicas tocava nos fones e eu desaguava baixinho. De repente, começou a tocar "acabou chorare", dos Novos Baianos. E não sei o porque (muito provavelmente por um impulso vital), enxuguei as lágrimas. Pronto, fim. Já era o bastante. O pranto já havia molhado o meu seio nu, meus olhos e bochechas já tinham avermelhado. Não haveria como voltar atrás, como mudar. Então, por que render tão preciosas lágrimas? Eu tinha pelo menos 5 matérias para estudar, assim como outros tantos problemas para povoar a minha cabeça. Ele não deveria tomar todo esse espaço. E não tomou. Tomei um ducha fria, um chocolate quente, e estava de cara nova e com uma coragem imensa pra seguir em frente.