terça-feira, agosto 16, 2011

Carta para Ele.

"Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor sem nojo nem medo e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem."
Deus,

Eu sei que não tenho sido a melhor filha do mundo. Sei que às vezes eu vou dormir sem agradecer o dia que tive. Sem nem notar que estou viva, que tenho pernas para andar e comida na mesa todos os dias. Mas hoje, por favor, hoje, o senhor pode me escutar um pouquinho? É que eu acho que não consigo mais sozinha. Sabe, eu acho que estou me tornando uma adulta. E isso não me tem sido fácil. Sei que se sinto tanto frio é porque a minha coberta deve ser grande o suficiente. Mas é que hoje, Deus, eu quebrei aquela nossa promessa. Hoje eu chorei. Hoje eu esqueci que as crianças da África. Hoje eu esqueci os pacientes com câncer. Hoje eu chorei como se a minha dor fosse a maior do mundo. Pai, eu quis conversar com alguém... Mas todos me pareceram ocupados demais. Eu tentei entender as minhas matérias escolares, mas isso também foi em vão. Eu ouvi gritos pela casa sobre o quão difícil é conviver comigo e entendi que isso deve mesmo ser verdade e nenhum deles tem culpa. Então eu lembrei da mulher muito loira que me disse que eu poderia contar sempre com o senhor. Por isso eu quis te escrever. E eu quero te pedir umas coisas, será que eu ainda posso?
Primeiro, Deus, eu queria te pedir desculpas. Desculpas por ter suspeitado dos seus poderes imensos. Desculpas por rir de algumas pessoas que me contaram sobre a sua magnitude.
Segundo, eu queria que o senhor entendesse que eu não sou dada a exposições, que se eu rezo sempre baixinho é porque quero falar só no teu ouvido que te amo e o resto do mundo não precisa ouvir.
Terceiro... Eu acho, Pai, que esse é o pedido mais difícil de fazer. Porque eu admito, eu desço do salto e esqueço a minha independência e petulância, e admito que não consegui. Deus... Cuida dele pra mim? Ele é meio sem juízo, e se acha o dono do tempo. Enlaça os teus dedos nos cabelos dele e faz com que ele não tenha pesadelos. Faz com que ele enxergue o amor de verdade nos olhares das pessoas e esqueça esse vício imenso pelo sofrimento. Põe nos pensamentos dele coisas bonitas todos os dias, cheiros de amor e paz. E nestes dias que seguem, ajude-o a tomar as melhores decisões. Guie os olhos dele pelo melhor caminho, ainda que eu não esteja por lá, ainda que este não se direcione a mim. Será que você pode ensiná-lo também sobre respeito? Às vezes me parece que nunca o apresentaram isso.
E por último, Deus... Será que o senhor poderia continuar segurando a minha mão? Será que o senhor pode fazer o meu coração parar de apertar? Será que o senhor pode me dar noites sem insônia? Deus... Será que o senhor poderia vir aqui e me dar um abraço?

That's over, baby?

"É muito difícil aprisionar os que tem asas", me veio instantaneamente a frase do Caio Fernando ao pensamento, e eu quase pude ouvi-lo falar. Mas me percebi tola por achar que o problema fossem só as tuas asas, eu sabia que havia algo mais. Você me pediu um tempo, me disse que voltaria, pediu que eu ficasse. Só que eu sou imediatista, meu bem. Eu preciso de respostas rápidas, no ato. Eu não sei esperar que o tempo resolva nada. Apesar disso, eu ainda estou aqui. Talvez porque maior que o meu imediatismo seja o meu sentimento, ou simplesmente por não ter conseguido entender ainda que você estava mentindo. Você me disse "não pense que o que eu te disse não era verdade, porque é", e eu quis acreditar, entende? Eu quis acreditar nos teus olhos. Eu quis acreditar no teu toque. Eu quis acreditar em você. Até que eu acordo de manhã e tudo se desmorona num segundo. E talvez nesse momento, pela primeira vez, eu comece a pensar em outra rota. Meus pés instantaneamente levantam-se da cadeira, minhas mãos como que sozinhas rabiscam palavras num papel. Escute, vou-me embora. Preciso arrumar uma bagunça tamanha e cuidar um pouco de mim. Mas deixo telefone e endereço, pro caso de você se resolver por voltar.