domingo, dezembro 23, 2012

Se

(Rudyard Kipling)

"Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.
Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.
Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.
Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!" 

quinta-feira, dezembro 20, 2012

...









Às vezes eu me olho no espelho e enxergo na minha cintura a medida exata da tua mão. 

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Invictus

 (William Ernest Henley)


"Noite à fora que me cobre
Negra como breu de ponta a ponta
Eu agradeço, a seja quais forem os Deuses
Por minha alma inconquistável.

Nas cruéis garras da circunstância
Eu não fiz cara feia ou sequer gritei.
Sob as pauladas da sorte
Minha cabeça está sangrenta, mas não abaixada.

Além desse lugar de raiva e lágrimas
É iminente o horror da escuridão
E ainda o avançar dos anos
Encontra, e deve encontrar, sem medo.

Não importa o quão estreito seja o portão,
O quão carregado com castigos esteja o pergaminho,
Eu sou o mestre do meu destino;
Eu sou o capitão da minha alma."


PUTA  QUE O PARIU!!!

terça-feira, dezembro 04, 2012

"Gente do bem".


Não adianta fazer yôga e não cumprimentar o porteiro. Não adianta meditar e se achar no direito de intitular os erros e acertos do outro. Não adianta ir à igreja e xingar no trânsito. Isso não é ser "gente do bem". E eu vou te dizer o que é: Ser "gente do bem" é entender que a vida do outro é terreno proibido se ele não te dá espaço para entrar. Ser "gente do bem" é levar o cachorrinho pra passear. Ser "gente do bem" é pensar melhor. Ser "gente do bem" é perdoar. Ser "gente do bem" é respeitar o amor, nas suas variadas formas. Ser "gente do bem" é enxergar a alma, ao invés de julgar a caixa que a guarda. Ser gente do bem é ajudar o vizinho a cuidar das pragas no jardim, ao invés de julgá-lo como descuidado todos os dias. Ser "gente do bem" é não fazer esforço nenhum pra ser, e ainda assim, sê-la.

terça-feira, novembro 27, 2012

(a)mar.



Somos algo essa noite
Somos algo a meses inteiros
Teu corpo pequeno pousa sobre o meu
Nos misturamos como amantes à moda antiga
Suspiramos amor imenso
Teus dedos descobrem a minha boca
Beija-me
Trêmulas, as minhas mãos buscam navegar no teu íntimo
Mas és tu o marinheiro
Navega como se descobrisse oceanos inteiros
Bebe-me
Juramos milhares de coisas
Descobrimos ávidos outras muitas
Perco-me
Sou inegavelmente tua
Somos inegavelmente nossos
E a minha mente cheia de paixão e loucura
Suplica em segredo aos céus
Que permaneçamos assim por anos à fio

Ausência.

"Espero que o tempo voe,
e que você retorne,
                             pra que eu possa te abraçar e te beijar de novo..."

Eu acordo e há um buraco ao meu lado na cama. É, o Rubem Alves estava certo: "a saudade é pior pra quem fica". Limpo meus olhos marcados e vou fotografando com o olhar a casa vazia, a pia cheia, a música que ficou tocando ainda ontem, quando peguei no sono depois de fechar a porta e sentir que o meu coração batia junto com os teus passos lá fora. A saudade é um diabinho de longo rabo. Os dias ficam vazios e vezenquando parece que ouço a tua voz. Sacudo a cabeça e tento voltar as minhas tarefas diárias como quem não vê muita graça em viver, até você voltar. Mas quando esse dia finalmente chega, meu sorriso se faz de novo. E então nós nos descobrimos. Nus de vergonhas, inteiros, intensos. E a tua barba por fazer  novamente arrepia o meu corpo inteiro enquanto você me beija ávido. Todo o sonho se torna palpável. Com você a minha felicidade é verdadeira. Com você o mundo parece girar de outra forma. Teu coração bate dentro das minhas mãos, e eu cuido pra não apertá-lo demais, pra não deixá-lo cair. É tudo muito frágil, meu bem. Mas é imenso, é nosso. Naquele dia em que você me perguntou que presente você poderia me dar, eu não soube te dizer, mas hoje sei: Eu quero ser plural contigo. Até o fim de todos os tempos. 

segunda-feira, novembro 26, 2012

Algo sobre plenutide.

Então você me chega como quem não quer nada, e de fato não queria. Então você me toma pelos braços e me diz 'vamos ver a lua e ouvir Chico e fumar uns cigarros'. Eu vou. Também não quero nada. Mas de repente a tua cama parece o melhor abrigo. Somos algo. Há nos teus olhos uma canção que eu gosto de cantar, e nos teus braços um calor que eu não havia descoberto ainda em nenhum abraço. Eu descubro que sou tua. Sua menina, seu amor, sua namorada. E te ver dormindo de manhã no meu colo, com os dedos ainda enlaçados nos meus, me faz pensar no que eu fiz pra merecer tamanha dádiva. Te ter  nos meus dias é um presente. Notar a sua alma pura, os seus olhos de menino, a sua vontade de nos fazer felizes. Saber que ainda que eu erre constantemente, você consegue navegar no meu íntimo e descobrir qualidades em mim. E eu agradeço a Deus de joelhos pelo dia em que você me roubou aquele beijo, por ter insistido. Eu agradeço por sermos algo, por estarmos aqui depois de tantos meses. E eu peço em súplica pra que nada me roube de você. Porque eu desaprendi a ser feliz sem a tua mão tocando a minha. 

terça-feira, outubro 30, 2012

Sobre o monstro persuasivo.

"Oi, sou Talita. E não tenho capacidade de influenciar ninguém, nem vivo em prol disso, almejo passar despercebida e anseio por minhas próprias verdades tanto quanto pela desconstrução de meus erros. Quando insistes na ideia de que recaia sobre mim alguma culpa de persuasão, persisto na ratificação de que não tenho capacidade de ser nem boa nem má influência para outrem, simplesmente por não saber a fórmula de ser alguém tão boa ou tão má para mim mesma, quem dirá para você, para os seus. Para George Bernard Shaw existem pessoas que vão em busca das circunstâncias que querem e se as não encontram, criam-nas, analisando assim, passo a ser sua circunstância insana criada e o ser que influencia de forma maléfica aquilo que não pode se proteger de mim." 

(Talita Bezerra)

sexta-feira, outubro 26, 2012

Dos diálogos matinais.

‎- Roubar a paz de alguém deveria ser um pecado mortal - Ele disse.
- Não diga besteira. Se o fosse, estaríamos todos mortos.

sábado, outubro 20, 2012

Lies (Once)



Ele estava inválido, 
Mas somente o seu corpo estava quebrado. 
Não é tão simples, nem é fácil de explicar. 
"Vamos deixar assim" - ela disse.
E fecha o livro sagrado das mentiras, 
E cobre seus olhos, 
Negando a si mesma o que pensou acontecer.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Sobre as matérias exatas e a minha pouca exatidão.

Um medo. Uma coisa indecifrável. Como posso ser alguém que escreve e escrever coisa? Como posso ser alguém? Dane-se a gramática. O meu coração não tem regras. O meu coração é um poema de má ortografia. Poetizo quase tudo, vivo quase tudo, sou quase nada. Sinto algo sobre necessidade de ter. Não sei ter. Não sei ter para ser. Sou corpo em brasa, música, verso perdido, verso achado, palavra. Sou um anexo nesses dias, em que nada me pode ser prazeroso ou confortável. Não sou exata. Nunca fui. Sou do subjetivo, do poema declamado, das noites mal dormidas. Sou de um transbordar quase insuportável de sentimentos. Não sou disso aqui. Não caibo nisso aqui. Não quero isso aqui. 

Sorriso.

Eu me peguei chorando de novo. Cansada de tentar ser a melhor, de tentar passar por cima, cansada de querer escrever na minha testa "eu estou muito bem". O fato era que não estava. Mas sabe, eu acho que Deus é um cara incrível. De repente, ele arranjou um jeito de me dizer que existia gente chorando por muito mais motivos que amigos que deixam de sê-los. Eu não queria acreditar, mas a minha avó estava certa quando disse:
"Assim como os amores, amigos também se vão. Quando a vida passa e os anos pesam um pouco, é que podemos olhar pra trás e notar que uma grande peneira nos deixou no final só com quem vale a pena. E se for uma pessoa só, ou até nenhuma, ainda será muito bom, porque você terá a certeza de que ficou com as melhores coisas."
Agora acredito, já até posso sorrir de canto. E amanhã, prometo: Sorrirei inteira.

domingo, outubro 14, 2012

Eu vou cuidar.


"Eu não quero mais mentir
Usar espinhos
Que só causam dor
Eu não enxergo mais o inferno 
Que me atraiu 
Dos cegos do castelo
Me despeço e vou 
A pé até encontrar
Um caminho, um lugar
Pro que eu sou...
Eu não quero mais dormir
De olhos abertos
Me esquenta o sol
Eu não espero que um revólver
Venha explodir
Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar
Foge o destino do azar
Que restou...

E se você puder me olhar,  se você quiser me achar,  e se você trouxer o seu lar... Eu vou cuidar,  eu cuidarei dele. Eu vou cuidar do seu jardim..."

sexta-feira, outubro 05, 2012

Eu queria te contar, moça...

Eu queria te contar que eu estive perdida. Que eu ainda não sei caminhar sozinha, que eu levei um tombo e continuo deitada no chão. Meu corpo dói. Meus pés estão sangrando e eu estou cheia de hematomas. Eu queria te contar, moça, que quando segui esse caminho eu não sabia em que lugar ele ia dar. Eu só segui, por curiosidade, impulso, vontade. E tudo o que eu quero agora é levantar e sair desse lugar. Eu passei muito tempo gritando socorro, até notar que eu deveria me levantar sozinha. Eu juro, moça, eu estou tentando. Eu juro que esse caminho é o ultimo lugar onde eu quero estar. Não posso lhe dizer que não há cicatrizes. Haverão para sempre. Cada lugar que passei nesse caminho abriu feridas imensas que eu achei que nunca cicatrizariam. Por muito tempo eu falei dessas feridas nos papéis que escrevi em meio ao meu desespero, eu sei. Achei que falar das feridas as curaria, mas não pensei, moça, que poderia abrir no seu coração algumas feridas também. Não te quero mal. Nunca te quis mal. O meu querer se resume a levantar e correr prum outro caminho. Por isso, moça, eu te pedi perdão. Meu corpo ainda pesa, e não posso me levantar. Há culpa nos meus ombros. Culpa por ter lhe feito chorar, por ter lançado o caos em sua vida. Culpa por ter jogado fora a minha dignidade, os meus amigos, os meus sorrisos. Eu quero paz, você entende? Eu sei que entende, porque você também quer. E é por isso que eu te digo de novo, tentando me redimir um pouco do pecado que cometi: Me desculpe, moça. Eu sinto muito.

domingo, setembro 02, 2012

sexta-feira, julho 27, 2012

You, you, you.


É você. De novo. Ainda. ‘Ainda tem muito tempo de música’. E o meu coração acelerando involuntariamente. Surge a vontade de te beijar, de navegar neste teu mar louco onde não posso controlar o meu barco e fico a deriva das tuas ondas. Mas me restrinjo a abrir a porta do seu carro e sair. Enquanto você me olha abrir as grades da casa, dou um tchauzinho tímido como quem diz ‘vá’, ao tempo em que pede ‘fica...’.

sexta-feira, julho 06, 2012

O tempo.

O tempo, embora não volte, também não pára. O tempo é remédio das respirações ofegantes, dos soluços noturnos, dos anseios impossíveis. O tempo tem a mão vagarosa no tirar das máscaras, mas as tira. Essa é uma verdade séria. Me atirem no peito se eu estiver errada, sei que não estou. Vagarosamente, ela vai puxando fio por fio a máscara de pano. Por vezes, são imagens assustadoras as que os olhos descobrem. Pouquíssimo deste mundo dura para sempre. Eu pude ver máscaras que quase achei serem eternas. Mas não eram. O tempo. Sempre tempo, mas nunca o mesmo. Dia desses me questionaram sobre a minha tranquilidade. Ao receber a pergunta de supetão, não respondi. Hoje eu responderia sem pensar muito: É que eu aprendi a entender os feitos do tempo.

segunda-feira, julho 02, 2012

As flores do mal.

G.,

Eu não sei como começar a escrever essa carta, e nem sei se de fato isso é uma carta. Sei que o desabafo tem se tornado necessário desde o dia em que você apareceu pela minha cidade de mãos dadas com a sua garota. Sabe, durante muitos meses eu pensei em vocês todos os dias. Pensei no meu orgulho ferido, na minha falta de vontade pelas coisas da vida, nos meus porres homéricos e nas minhas loucuras diárias. Eu fumei três caixas de cigarro num dia. Eu cortei milhares de partes do meu corpo na tentativa de que a dor física substituísse a dor emocional. Nada adiantava. Até que um dia eu levantei, e havia tanta gente ao meu lado que eu mal podia contar. Eu comecei a tentar sorrir. E de tanto tentar, uma hora o sorriso se tornou verdadeiro. Os cortes cicatrizaram, as lágrimas cessaram. Então você me aparece. Com a cara mais lavada do mundo,  com o mesmo sorriso cínico. Então você arranca a casca da ferida que eu sabia não estar cicatrizada, mas não achei que ainda pudesse sangrar tanto. 
Você sorria. Sorria e cantarolava como quem não havia feito exatamente nada. Eu tentava não notar os olhares tortos dos meus (dos nossos) amigos. Eu tentava não vê-los pintando no meu rosto a imagem de vilã de uma história que não foi só minha. E quando não pude mais deixar de notá-los, eu chorei. Eu chorei por ver que o rumo de todas as coisas poderia ter sido outro. Eu chorei por ter lido no brilho dos olhos de todos eles a admiração que um dia eu senti por você. Eu chorei porque aquele sentimento fraterno e enorme não existe mais. Eu chorei porque há tanta mágoa no meu coração que eu mal podia respirar. Eu chorei porque desde aquele outubro, todas as minhas tentativas de diversão se tornaram um caos. Eu chorei porque às vezes parece que isso nunca vai passar, que você ainda vai me doer a vida inteira. Eu chorei porque perder a sua amizade ainda me incomoda. Eu chorei porque os teus olhos estavam despreocupados e a sua voz serena. Eu chorei por não poder gritar, proferir milhões de palavras ruins e te esbofetear. Eu chorei por não poder pedir desculpas a ela. Por não poder conversar com ela. Por nunca ter sabido em tantos anos qual era a textura da pele que ela tinha, e por isso ter me sentido no direito de fazê-la chorar. Eu chorei porque as pessoas esqueceram de você como parte integrante das lágrimas dela. 
Eu chorei porque o meu corpo está novamente marcado. Eu chorei por ter vomitado sangue naquela noite confusa. Eu chorei por ter me tornado alguém que eu não sei se sou. Por ter me perdido no meio do caminho. Eu chorei por tentar te odiar todos os dias. Eu chorei por tentar te perdoar todos os dias. Eu chorei por não saber qual será o futuro de tudo isso. Eu chorei pelas náuseas que a sua imagem me causou. Eu chorei pelo peso nos meus ombros de uma culpa do tamanho de mundo. Eu chorei por ter ficado de pileque e ter ralado os meus joelhos. Eu chorei pela minha sensibilidade, pelo meu transbordar de sentimentos. Eu chorei pela minha vontade de fugir pra qualquer canto. Eu chorei pelo medo de perder as pessoas, de me perder. Eu chorei pelo meu medo de fazer análise, pelo meu medo de chorar todos os dias, pelo meu medo de ficar sozinha. Eu chorei porque se pudesse prever esse desastre, não teria te deixado subir as escadas da minha casa naquele dezenove de setembro. Eu chorei por ter te deixado entrar na minha cabeça, na minha vida, no meu coração, na minha rotina. Eu chorei por ter te deixado me ligar em tantas madrugadas. Eu chorei por não querer ter vivido nada daquilo e querer ser apenas uma das suas melhores amigas. Eu chorei porque as palavras foram ditas, porque os dias foram vividos, as músicas foram tocadas, os beijos foram dados. Eu chorei porque atitudes não se apagam e o tempo... O tempo não volta.

Em cólicas,
Da P.

domingo, junho 17, 2012

That movie...

"You're asking me will my love grow 
I don't know, I don't know 
You stick around now it may show 
I don't know, I don't know 
 Something in the way she knows 
And all I have to do is think of her 
Something in the things she shows me 
 I don't want to leave her now 
You know I believe and how"

segunda-feira, junho 04, 2012

- Deus parece às vezes se esquecer...

- Ai, não fala isso, por favor...

As palavras fugiam da minha boca e meus olhos liam outras. "Adeus". Adeus com gosto de pra sempre e de lágrima. Gosto de lágrima da moça que eu segurava a mão. O mais era indizível. O apertar de mãos era o máximo e não era suficiente. Dor num patamar maior que quase tudo. Amor era dor e não era enamorado. Amor era dor e era para nunca mais. Pensava com insensatez em nuvens e passagens corpóreas e espirituais. Rezava baixinho pedindo uma felicidade que não era pra mim. Como se quisesse sentir a dor ao invés de não saber ao certo a dimensão da dor da outra. Eu cochicho "força" em seu ouvido, querendo que só cochichar torne fato a minha palavra. Querendo entender a dinâmica da vida, e a certeza macabra da morte. Ouço aquela palavra de novo: "adeus" ("a - Deus"). Sinto os braços que choram protagonizarem essa entrega de um espírito aos céus. Engulo o choro por não ter motivos palpáveis para chorar. Nada além da sensibilidade tocada lá dentro e um medo imenso de todas as coisas findas. Estas mesmo, lindas, e que ficarão ainda na vida, mesmo sem ficar. 

"Vai com os anjos, vai em paz 
(...) 
Do resto, não sei dizer..."

terça-feira, março 20, 2012

Pequeno,

A sua voz me diz que sentiu a minha falta. Eu vejo os teus olhos marejados, a tua boca falando sobre choro e amor desmedido. Gosto de estar aqui. De permanecer. Nós temos aquele encaixe bom de casalzinho. Nós nos amamos ao som de The Doors e falamos sobre acontecimentos históricos. Nós tomamos algumas cervejas e rimos juntos. Eu havia me esquecido do gosto doce de romance que a vida pode ter, das cores bonitas que vemos quando nos apaixonamos. Eu já nem falava sobre paixão. De amarga que estava, fui ficando aos poucos docinha como estou. Declaro: A partir de agora permaneço aqui, até amargar. E esperando que essa amargura demore mais alguns bocadinhos de dias.

sexta-feira, março 16, 2012

Meia noite inteira.

É a mesma praça. É me embriagar um pouco e me entregar a erros diversos. Meu corpo está quente. A noite e o meu coração são frios. Há folhas pelo chão que me lembram um outono incomum. A madrugada é o meu porto. Na madrugada há a comodidade de almas que compartilham das mesmas vontades. Teus passos caminharão até mim. Eu me entregarei de novo a mais prazerosa falta de compromisso. Ao gole de cerveja. Ao gole de você. De novo. Aos deliciosos goles do teu corpo pequeno, quente e nu. Eu beberei novamente da tua loucura de menino, do teu sorriso despreocupado. Nós fumaremos alguns cigarros e eu me mostrarei. Nua, crua, inteira. Nós dois não temos nada a ver com o amor. Não temos tamanho, nem forma. Nunca o seriamos, e por um motivo só: somos melhores que ele.

segunda-feira, março 12, 2012

Miss you, Bella.

Eu sinto sua falta. Em dias como hoje principalmente. Nos quais eu só queria seu colo, e os seus conselhos, e a nossa mania besta de rir de tudo. Nós não nos vemos há mais de um mês, eu tenho medo. Medo de que nossos caminhos de distanciem demais. Mas no fundo eu sei que isso não vai acontecer, porque a nossa ligação não é física. Ela é cósmica. Você sempre soube com um olhar só o que eu sentia, sempre me descreveu com todos os detalhes e sempre me deu a segurança de ter alguém que ia estar lá por mim. Mas essa saudade me mata, sabe? Quando eu fui embora, há 4 anos atrás, não sabia quão ruim era a sensação de vazio, esse buraco que ficou e que tem o teu rosto. Quero os nossos lanches noturnos, a nossa sintonia inegável. Quero brigadeiro de panela e tarde de fofoca. Quero a gente falando baixinho pra a sua mãe não acordar. São essas coisas, esses detalhes, que me fazem ter a certeza de que ninguém substituirá o lugar que você tem na minha vida.

Eu te amo muito, minha melhor amiga.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

O Diabo mora na maçaneta

"Ele mora sim, meu bem, eu já te explico.
Antes eu quero dizer que senti saudades, saudades como há muito não sentia. Dizer que muita coisa mudou e eu também. Estou de cabelo novo, roupa nova, amor novo, casa nova. E você continua aí, me parecendo tão ou mais igual do que era antes.
Saudades de ter saudades da véspera de suas idas e voltas, porque o Diabo também mora na véspera e nos detalhes, mas disso você já sabe.
Mas agora é tudo diferente, ano novo, novas promessas, amigos novos até.
E você aí, olhando pra mim, como quem enxerga o avesso de minha alma. Você que vai ficar aí pra sempre, sem que eu possa te tocar, sem que eu queira a fundo te tocar. E você me pergunta: o que tudo isso tem a ver?
Eu te digo, é fácil: você vai e cada vez que volta bagunça minha vida, desarruma o que tá ajeitado e suja o que em mim está limpo.
Com as mãos sujas, um menino entra no banheiro, gira a maçaneta e lava as mãos. Quando ele sai, toca de novo na maçaneta, sujando as mãos.
E nesse jogo de suja-limpa o menino toca a vida dele. É assim com você: vou tocando a vida entre suas idas e vindas, seus altos e baixos.
E sabe do mais interessante? É que no futuro, depois que a porta estiver carcomida de cupins e as dobradiças de metal estiverem enferrujadas, quando nem o banheiro e nem o menino existirem mais nesse mundo, a maçaneta ainda vai estar ali. Imóvel, suja e eterna."

(Bruno Carvalho - do "A solidão e a cidade")

domingo, janeiro 15, 2012

De capuz e foice.

"E depois de um dia difícil
Pensei ter visto você
Entrar pela minha janela e dizer:
- Eu sou a tua morte
Vim conversar contigo"

Havia um pequeno corpo animal morto no meu quintal. Era uma imagem triste para as sete da manhã. Há menos de um mês, quatro gatos haviam nascido nos meus aposentos. Todos muito fracos, como se esperassem apenas o momento de ir embora. Durante dias, eu observava a respiração de cada um deles para notar se ainda havia vida. Lizzie era a última. Agora, estavam todos mortos. Ontem mesmo, eu falava sobre a morte das coisas. E sabe, ultimamente a morte tem caminhado próxima dos meus dias. Talvez eu esteja sendo macabra demais, mas ela não me assusta. É como um conformismo. Como se a minha atitude e inquietação diante dela também morresse. Como se eu estivesse entorpecida. Não me é confortável, como cantaria o Waters. Mas o conforto também já não me importa. Os dias passam estranhos, há términos por todos os cantos. E não há lágrimas. É gelado como um cadáver. É como sentir muita sede, abrir uma garrafa de leite, e no terceiro ou quarto gole, notar que ele está azedo. Fechar a garrafa. Ainda assim, não vomitar, não ter indigestão alguma. Só saber que o leite não servia, e que permanece se misturando ao corpo inteiro. É como pular do penhasco e lembrar que estou de pára-quedas, mas não sentir alívio ao pousar os pés no chão. É como assistir de platéia a minha própria peça. É como estar indo embora o tempo inteiro, mas não partir nunca.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Eu sou.

"Enquanto você
Se esforça pra ser
Um sujeito normal
E fazer tudo igual...
Eu do meu lado
Aprendendo a ser louco
Maluco total"

São pequenas palavras fáceis perdidas. Eu sei o que foi escrito pra mim. Tudo o que me arranca sorrisos, tudo o que me faz derramar lágrimas doloridas. Mas eu apenas queria lhes dizer, que aquela menina ainda está aqui dentro. A minha essência não mudou. E eu queria poder olhar nos olhos de cada um e entender exatamente o que querem me dizer. Sem essas máscaras ruins e essas frases assim raivosas por debaixo do pano. Eu quero panos quentes. Eu quero tomar um vinho e olhar a lua. E ser humana, vocês me entendem? Olhar nos olhos e dizer "me desculpe", "eu te amo", "eu sinto sua falta". Poder pegar a cada mão, com a minha, e conduzi-la de leve a minha pele para que vocês notem que é carne e osso. Que é tão errante quanto todas as outras. Eu errei, sim. Eu erro. Mas eu não sou esse bicho papão. Eu não matei ninguém. Eu não quero o mal de ninguém. Só que eu vivo. Eu fico de porre de vez em quando, eu grito "with the lights out it's less dangerous". E eu ainda respiro arte. Eu faço jus a verdade tatuada no meu pulso direito. Vou te contar: Eu não escrevi Carpe Omnium em letras garrafais por acaso. Eu só não entendo o porque de viver a minha vida perturbar tanto. Quero apenas deixar um ultimo aviso: Não, eu não sou santa. Não, eu não sou vítima. Eu sou gente.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Retorno.

O coração acelerando, ainda. Bocas rosadas tomam a minha mente. De novo vinculada a algo doce. Ainda. Anida bem. Pecado seria não gostar. Pecado seria não querer. Amém. Gostoso estar mais uma vez nesse universo tão mais bonito. Tão mais digno, tão mais humano. Penso em não acordar destes sonhos. Mas me pego acordada e vejo que nada se desfez. Estou de pé. Levanto-me, firme. Há olhos claros descobrindo o meu corpo inteiro. Há mãos bonitas e brincadeiras maliciosas. Quero ficar. Que acabem aqui as lágrimas e madrugadas insones. Adeus, dor. Vá. E não volte.