terça-feira, fevereiro 21, 2012

O Diabo mora na maçaneta

"Ele mora sim, meu bem, eu já te explico.
Antes eu quero dizer que senti saudades, saudades como há muito não sentia. Dizer que muita coisa mudou e eu também. Estou de cabelo novo, roupa nova, amor novo, casa nova. E você continua aí, me parecendo tão ou mais igual do que era antes.
Saudades de ter saudades da véspera de suas idas e voltas, porque o Diabo também mora na véspera e nos detalhes, mas disso você já sabe.
Mas agora é tudo diferente, ano novo, novas promessas, amigos novos até.
E você aí, olhando pra mim, como quem enxerga o avesso de minha alma. Você que vai ficar aí pra sempre, sem que eu possa te tocar, sem que eu queira a fundo te tocar. E você me pergunta: o que tudo isso tem a ver?
Eu te digo, é fácil: você vai e cada vez que volta bagunça minha vida, desarruma o que tá ajeitado e suja o que em mim está limpo.
Com as mãos sujas, um menino entra no banheiro, gira a maçaneta e lava as mãos. Quando ele sai, toca de novo na maçaneta, sujando as mãos.
E nesse jogo de suja-limpa o menino toca a vida dele. É assim com você: vou tocando a vida entre suas idas e vindas, seus altos e baixos.
E sabe do mais interessante? É que no futuro, depois que a porta estiver carcomida de cupins e as dobradiças de metal estiverem enferrujadas, quando nem o banheiro e nem o menino existirem mais nesse mundo, a maçaneta ainda vai estar ali. Imóvel, suja e eterna."

(Bruno Carvalho - do "A solidão e a cidade")

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