segunda-feira, julho 02, 2012

As flores do mal.

G.,

Eu não sei como começar a escrever essa carta, e nem sei se de fato isso é uma carta. Sei que o desabafo tem se tornado necessário desde o dia em que você apareceu pela minha cidade de mãos dadas com a sua garota. Sabe, durante muitos meses eu pensei em vocês todos os dias. Pensei no meu orgulho ferido, na minha falta de vontade pelas coisas da vida, nos meus porres homéricos e nas minhas loucuras diárias. Eu fumei três caixas de cigarro num dia. Eu cortei milhares de partes do meu corpo na tentativa de que a dor física substituísse a dor emocional. Nada adiantava. Até que um dia eu levantei, e havia tanta gente ao meu lado que eu mal podia contar. Eu comecei a tentar sorrir. E de tanto tentar, uma hora o sorriso se tornou verdadeiro. Os cortes cicatrizaram, as lágrimas cessaram. Então você me aparece. Com a cara mais lavada do mundo,  com o mesmo sorriso cínico. Então você arranca a casca da ferida que eu sabia não estar cicatrizada, mas não achei que ainda pudesse sangrar tanto. 
Você sorria. Sorria e cantarolava como quem não havia feito exatamente nada. Eu tentava não notar os olhares tortos dos meus (dos nossos) amigos. Eu tentava não vê-los pintando no meu rosto a imagem de vilã de uma história que não foi só minha. E quando não pude mais deixar de notá-los, eu chorei. Eu chorei por ver que o rumo de todas as coisas poderia ter sido outro. Eu chorei por ter lido no brilho dos olhos de todos eles a admiração que um dia eu senti por você. Eu chorei porque aquele sentimento fraterno e enorme não existe mais. Eu chorei porque há tanta mágoa no meu coração que eu mal podia respirar. Eu chorei porque desde aquele outubro, todas as minhas tentativas de diversão se tornaram um caos. Eu chorei porque às vezes parece que isso nunca vai passar, que você ainda vai me doer a vida inteira. Eu chorei porque perder a sua amizade ainda me incomoda. Eu chorei porque os teus olhos estavam despreocupados e a sua voz serena. Eu chorei por não poder gritar, proferir milhões de palavras ruins e te esbofetear. Eu chorei por não poder pedir desculpas a ela. Por não poder conversar com ela. Por nunca ter sabido em tantos anos qual era a textura da pele que ela tinha, e por isso ter me sentido no direito de fazê-la chorar. Eu chorei porque as pessoas esqueceram de você como parte integrante das lágrimas dela. 
Eu chorei porque o meu corpo está novamente marcado. Eu chorei por ter vomitado sangue naquela noite confusa. Eu chorei por ter me tornado alguém que eu não sei se sou. Por ter me perdido no meio do caminho. Eu chorei por tentar te odiar todos os dias. Eu chorei por tentar te perdoar todos os dias. Eu chorei por não saber qual será o futuro de tudo isso. Eu chorei pelas náuseas que a sua imagem me causou. Eu chorei pelo peso nos meus ombros de uma culpa do tamanho de mundo. Eu chorei por ter ficado de pileque e ter ralado os meus joelhos. Eu chorei pela minha sensibilidade, pelo meu transbordar de sentimentos. Eu chorei pela minha vontade de fugir pra qualquer canto. Eu chorei pelo medo de perder as pessoas, de me perder. Eu chorei pelo meu medo de fazer análise, pelo meu medo de chorar todos os dias, pelo meu medo de ficar sozinha. Eu chorei porque se pudesse prever esse desastre, não teria te deixado subir as escadas da minha casa naquele dezenove de setembro. Eu chorei por ter te deixado entrar na minha cabeça, na minha vida, no meu coração, na minha rotina. Eu chorei por ter te deixado me ligar em tantas madrugadas. Eu chorei por não querer ter vivido nada daquilo e querer ser apenas uma das suas melhores amigas. Eu chorei porque as palavras foram ditas, porque os dias foram vividos, as músicas foram tocadas, os beijos foram dados. Eu chorei porque atitudes não se apagam e o tempo... O tempo não volta.

Em cólicas,
Da P.

Nenhum comentário: