domingo, janeiro 15, 2012

De capuz e foice.

"E depois de um dia difícil
Pensei ter visto você
Entrar pela minha janela e dizer:
- Eu sou a tua morte
Vim conversar contigo"

Havia um pequeno corpo animal morto no meu quintal. Era uma imagem triste para as sete da manhã. Há menos de um mês, quatro gatos haviam nascido nos meus aposentos. Todos muito fracos, como se esperassem apenas o momento de ir embora. Durante dias, eu observava a respiração de cada um deles para notar se ainda havia vida. Lizzie era a última. Agora, estavam todos mortos. Ontem mesmo, eu falava sobre a morte das coisas. E sabe, ultimamente a morte tem caminhado próxima dos meus dias. Talvez eu esteja sendo macabra demais, mas ela não me assusta. É como um conformismo. Como se a minha atitude e inquietação diante dela também morresse. Como se eu estivesse entorpecida. Não me é confortável, como cantaria o Waters. Mas o conforto também já não me importa. Os dias passam estranhos, há términos por todos os cantos. E não há lágrimas. É gelado como um cadáver. É como sentir muita sede, abrir uma garrafa de leite, e no terceiro ou quarto gole, notar que ele está azedo. Fechar a garrafa. Ainda assim, não vomitar, não ter indigestão alguma. Só saber que o leite não servia, e que permanece se misturando ao corpo inteiro. É como pular do penhasco e lembrar que estou de pára-quedas, mas não sentir alívio ao pousar os pés no chão. É como assistir de platéia a minha própria peça. É como estar indo embora o tempo inteiro, mas não partir nunca.

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