segunda-feira, dezembro 02, 2013

Entrega

"Deixa pra lá", ele disse. Não queria dizê-lo. Queria apertar-lhe o corpo inteiro, sentir as mãos que há pouco acariciavam os seus cabelos. "Por que os meus cabelos?", ele se perguntava. Ela nutria por ele um carinho que não se justificava. Ele nutria por ela uma paixão em flamejante. Ela era moça bem resolvida, parecia sempre completa e segura. Tinha olhos brilhantes de quem queria comer o mundo. Um poder de dominação tentador. Não era dessas criaturas que ficam doentes de amor. Em que tempo, então, as suas almas tropeçariam uma na outra? Ela repetiu: "moço, diz...", como quem tinha muita sede de saber. Ele vacilou e lhe disse: "não solta da minha mão". Ela sorriu: "não solto". Era simples e bonito, não era urgente. Eles se entendiam e se viviam devagarzinho. Aos poucos, amiúde. Os olhos dele reviravam quando os cabelos dela pousavam leves sobre os seus ombros, quando ele a via brincando com os pequenos sinais perdidos no seu rosto rubro de vergonha, quando ele a via gostar de ser aquilo. Aquilo que não tinha nome, que não tinha estimativa de tempo. E nem precisava ter. Era um embarque onde não havia nenhuma prévia de como seria a viagem. Era, apenas. E com toda razão de ser.

quinta-feira, novembro 21, 2013

Sobre Fran, Júlia Rebeca e o direito de ser


Hoje eu vou pedir a permissão de vocês que me leem para sair um pouco da linha contos-crônicas-poemas, e escrever abertamente sobre um tema que também é uma "parte de mim", como todas as outras que escrevi nesses quase seis anos de blog. Hoje eu vou falar das mulheres. Desde a explosão do caso de porn revenge com Fran e de Júlia Rebeca (a moça que se matou após a divulgação do seu vídeo íntimo), eu quis escrever aqui, mas só agora consegui assimilar as ideias para lançar a perguntar a vocês: O que leva alguém a tornar público algo que pertence estritamente ao privado? Eu mesma pude ver o vídeo de Júlia Rebeca e o da Fran. Sexo. Beijo. Diversão. Nada que alguém que já passou dos dezoito anos nunca tenha feito. "O problema é a forma e com quem elas fizeram", me dizem. Não, não é. Júlia e Fran faziam sexo. Apenas sexo. Não mais ou menos sujo que o seu: igual. Porque todo sexo é, em síntese, igual. Mas alguém se achou no direito de expor as garotas. De escancarar, de esfregar nas caras de todo mundo o sexo que elas fizeram. Parece absurdo quando se assiste? É que não eram pra assistir. Não esses. Não é pra assistir porque quem estava lá não queria ser protagonista de um porn video. Elas queriam se divertir. Olha, você também faz isso, não é? Já são dois pontos em comum: Você faz sexo e se diverte, assim como Júlia e Fran. Como você se sentiria se, de repente, alguém resolvesse no ápice da sua presunção, decretar que você não pode fazer sexo e se divertir? Quem deu o direito a pessoa que publicou o vídeo de Júlia? Quem deu o direito ao amante de Fran? Quem dá o direito a todos os rapazes (e moças) de divulgarem vídeos de suas relações sexuais sem a permissão das mulheres envolvidas? Eu respondo: O machismo dá. O machismo dá ao indivíduo que posta a falsa ideia de superioridade. A falsa ideia de que ele pode sim, decidir quando, como e pra quem aquelas mulheres vão se mostrar. O machismo continua o seu percurso nas cabeças dos olhos que veem os vídeos. Cabeças femininas também (o que há de mais triste), que esbravejam: Que biscate! Teve o que mereceu! Mal sabem elas que a tal "biscate" estava apenas aproveitando o direito que tem de liberdade. O direito que tantas mulheres lutaram pra ter, e que agora elas mesmas se privam. Porque acreditaram que precisam ser castas para serem aceitas pelos homens. Acreditaram que precisam ser aceitas pelos homens. Mas precisam ser aceitas, antes de tudo, por elas mesmas. Precisam e podem ser também as mulheres que lutaram (e lutam) pela sua equidade em relação aos homens. Que precisam e podem gritar: Eu sou Pagu! Eu sou Simone de Beuvoir! Eu sou a moça que teve sua privacidade violada. Eu sou a moça que é julgada pela sociedade por se relacionar com muitos homens. Eu sou a menina que não casou virgem. Eu sou a menina que é chamada de frígida por ainda ser virgem. Eu sou a fã que pediu pra ser estuprada pelo ídolo porque entrou sozinha na sua van. Eu sou a estudante barrada na porta da universidade por estar com um vestido curto demais. Eu sou a adolescente gordinha que sofre de depressão porque não está dentro do padrão de beleza. Eu sou a menina que morre de anorexia buscando ser aceita. Eu sou a moça que ganha um salário inferior ao homem que exercita a mesma tarefa que ela. Eu sou a moça que mente sobre o que faz para não receber olhares de reprovação. Eu sou a moça que ouve "gostosa", "que delícia", "quero te foder" todos os dias na rua. Eu sou a menina que perdeu a virgindade com o rapaz que só queria contar vantagem por isso. Eu sou a mulher que morre numa tentativa de aborto. Eu sou a prostituta que é agredida, morta, violentada por "não ter um trabalho digno". Eu sou a "menina para se divertir" e não "menina pra casar". Eu sou a criança molestada pelo pai, pelo tio, pelo padrasto. Eu sou um número nas estatísticas de violência doméstica. Eu sou a mulher traída que mereceu, porque não cuidou do que tinha. Eu sou a amante que tem toda a culpa, porque seduziu o homem indefeso. Eu sou a lésbica que precisa de cura e de um homem de verdade. Eu sou a esposa que lava, passa, cozinha e cuida dos filhos. Eu sou Maria da Penha. Eu sou Chiquinha Gonzaga. Eu sou Judith Butler. Eu sou Olga Benário. Eu sou mulher. Eu sou livre. Eu sou minha. 

domingo, setembro 08, 2013

Carta do amante secreto e louco II

Ele lhe tomava no braço e gozava dentro de ti. Tive raiva. Não ciúme, não nojo, mas raiva. Te ver escrava daquele amor escroto não me agradava, ainda que eu houvesse me tornado tão escroto com o passar do tempo. Mais uma vez não, você não podia. A sua vida desmoronando de novo sobre a tua e a minha cabeça era algo que não deveria nunca mais acontecer. Mas você estava ali. Tão entregue, tão inteira, tão dele, e tão pouco sua. Minha raiva foi se tornando ódio. Um ódio imenso de estar ali, aumentando o volume da minha música para não ouvir os gritos do teu erro se multiplicando nos meus ouvidos. De ter que olhar para a sua cara de noite mal dormida e sexo bem sucedido no outro dia pela manha. Me falaram sobre amor. Sobre o desvario e a loucura que ele tatua em todos os seus adeptos. Eu ri. Riso mesmo de deboche, de quem não pode mais ouvir esse papo velho de alma gêmea. Sabe quando o nosso menino teve febre, quando quase não podia respirar, quando derramou sangue pelo chão da sala? Eu estava lá. Eu vi a sua coleção de erros se multiplicando e se repetindo como num disco riscado, e ainda assim, eu estive segurando a sua mão. Mas será que você não entendeu que não é o Peter Pan? As rugas daqui a pouco estarão tomando conta do seu rosto. E você ainda vai baixar a cabeça ao tom alto da voz dele, mesmo podendo levantar, andar com as suas próprias pernas. O tempo passa e o amor vai acabando. Te ser amante, apenas, este amante que segura os teus tropeços e estanca o sangue dos teus machucados, já não me serve mais. Amanhã, ao acordar do teu sonho, eu não estarei aqui. As minhas gavetas agora serão oficialmente dele e do seu eterno conjunto de falhas.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Lá menor


Tocava Chico. Tudo que eu quis que viesse foi o beijo. Tudo o que eu quis foi que a penumbra da noite cobrisse nossos corpos e nos tirasse o rubro da vergonha. E nos tornaríamos intrépidos amantes a matar a sede da pele que outrora, quando não havia conhecimento dessa deliciosa troca de peles, foi tocada por outro alguém.

sexta-feira, agosto 23, 2013

O dia em que o mundo não acabou

Era um respeitado profeta, e decretou o fim do mundo para o próximo dia 23. 23 de agosto, o mês do cachorro louco, da bruxa solta. O dia em que o mundo acaba. O dia em que meu mundo começou, finalmente, e mesmo depois do fim, ainda teima em existir. Meu mundo despedaçado, estilhaçado, dissolvido como pedrinhas na areia da praia. Tão perdido quanto grãos de poeira numa casa antiga e abandonada. Dos meus móveis puídos, do cheiro de mofo, do calor abafado do porão, das ratazanas mortas no sótão. Uma mansão aos pedaços, com ervas daninhas no jardim, antes tão bem cuidado e enfeitado por jasmins. Não havia buquês, então me deste uma árvore. Os galhos tão tortos quanto minha saudade. Ao fim do inverno, nas noites menos geladas, vem o perfume lembrar que, embora triste, ela ainda vive. E as pétalas brancas e amarelas criam um tapete sob as nuvens. Tem aroma de passado. Das suas cenas, me sobra o resto. Das suas palavras, só enxergo os negritos através das minhas janelas quebradas. Só vejo o que me mostra – essas suas provocações disfarçadas em outros nomes, outras mulheres, outros amores. Do meu tesouro perdido, sua metáfora encontrada. E seus olhos me dizendo tanto, mesmo que virados para outro lado, porque ainda sei te ler. Mesmo embaixo das suas fantasias psicóticas, reconheço suas digitais, suas papilas, suas pupilas, suas auréolas, seus pelos, seus dentes, sua carne. Nos nossos encontros secretos e oníricos, resvalo no amor-próprio e esbarro no amor que me falta. Ainda me falta tanta coisa, e me sobraram os sonhos e as alianças, guardados no fundo de uma gaveta velha, tão velha e corroída quanto o que restou da nossa casa – a mesma que nunca existiu.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Súplica



'Pelas noites em que imploro a tua volta
Logo me bate uma revolta por saber que nada está por vir
Eu bordei nas linhas dessa vida torta
Não sei se isso me conforta e não me importa
Eu só preciso então fingir
 Que não faço parte de um álbum de lembranças...'

Eu insisto em fingir que você não mudou. Que não é essa criatura sem essência. Mas as tuas músicas e as tuas palavras batem na minha cara e quebram o meu nariz como uma porta fechada com força. Você me pede pra voltar, mas eu não posso. Não posso porque você já não está lá. Porque você já não cabe nos copos de cerveja, no violão, no samba de raiz. Tudo que há em ti é submissão e preconceito. A tua ceita me ensurdece. As tuas palavras me ferem. Não há espaço para nós. Você me pergunta: como é que a gente vai viver sem se achar? E não entende que os teus olhos nunca me encontram porque o lugar onde eu estou já não lhe atrai, e por isso você não me vê. Dançando as nossas músicas, indo aos nossos bares, escrevendo sobre a nossa vida. Mas com certo pesar e aquele gosto amargo de nunca mais.

'Mas se um dia você quiser voltar
Cesso o pranto e em tom de acalanto
Vou dizer que ainda te amo
Vou pedir só pra você ficar...'
'Disfarce... Disfarce pra poder me enganar...'



quarta-feira, agosto 07, 2013

Algo por você


Então, vamos lá? Respira fundo, moça, bola pra frente. Chora um pouco, você pode. Mas não chora pra sempre não. Teus olhos são bonitos demais e cobertos de lágrimas eles não se mostram inteiros. E eu prometo, eles vão brilhar novamente. Ele é só um garoto dos muitos que existem no mundo. Agora parece que sem ele não vai haver mais nada, mas vai sim. A vida acontece. Todos os dias o sol nasce, as pessoas acordam, vão ao trabalho, vivem suas rotinas. O tempo não para e você também não deve parar. Pare de fazer planos, mas também esqueça o passado. Viva o seu hoje. Não ligue. Não chame. Não peça. Há muito você saiu da puberdade. Tome sorvete de abacaxi ao vinho, ande de motocicleta. Procure não passar por lugares com pedaços de vocês. Se ele tomou uma decisão, deixe-o ir. Se tiver de ser, um dia será. Mas não espere. Esqueça isso de esperar por ele todo o tempo. Deixe-se ir, deixe-se viver. Entregue os acontecimentos ao destino de uma vez. E vá embora. Bata as botas e não fique nem com a poeira de tudo que foi. Se for muito difícil, guarde uns grãozinhos no bolso, mas procure não tirá-los mais. Viva. Viva o máximo que puder. Quando puder se olhar novamente no espelho se verá sorrindo, linda como é. Como sempre foi. Como precisa acreditar que é. E enormemente feliz e completa novamente.

Para ouvir: Algo por você - Engenheiros do Hawaii

domingo, junho 30, 2013

Do apagar do meu vagalume


- Me apaixono todo dia, é sempre a pessoa errada.
- Eu gosto de você também...

Te escrevo nessa tarde cinzenta e fria, porque exatamente nela a saudade resolveu fazer abrigo sobre a minha cama. A sua lembrança me parece tão forte que cambaleio por entre os muitos cômodos da minha casa. Nesses anos que se passaram desde que você se foi aconteceram tantas coisas... Sinto falta da rouquidão da sua voz, pai, apesar de saber que você está bem agora. Deve ser uma delícia essa sensação de paz, não é?! Eu pude sentí-la quando Marina nasceu. É, Marina, meu velho. Ah, como eu quis ouvir a tua voz cantando a música do Caymmi pra ela. Ela se parece contigo (por vezes isso é de uma dureza agonizante). Encontrei dia desses um pedaço rabiscado de papel com a sua caligrafia: Essa saudade de estar perto, se longe, ou estar mais perto, se perto. A gente perde tanto tempo com orgulhos e pequenas tolices, sem saber que as pequenices cotidianas um dia farão toda a diferença. Que um dia, haverá saudade do arrastar de pés calçando pantufas velhas, do beijo estalado no rosto, do cheiro de café fresquinho. Desde que você se foi, pai, nunca mais houve nada. Eu ainda vejo a luz do teu olhar em cada nascer de lua.  Hoje choveu o dia inteiro. Ainda chove, o céu parece desabar. Aqui dentro, eu também chovo. E faço o maior esforço do mundo para não chover também por fora, para não ter que usar aquela velha desculpa da rinite alérgica. De minuto em minuto, apanho o meu bloquinho e busco escrever algo que não seja "sinto sua falta". Inútil. Te imagino aí em cima, rindo de mim e me achando uma boba. Lembro da tua gargalha gostosa e as minhas lágrimas encontram um sorriso aberto. Já está no fim do dia, o ponteiro quase termina de girar as suas vinte e quatro horas. Mas antes que a noite se acabe, eu só tenho que ouvir uma daquelas suas palavras doces, faladas como uma melodia. Eu só preciso ligar o seu radinho de pilha naquela estação de Bossa Nova, e te imaginar vindo, vestido no seu roupão azul céu, dizendo: Dorme, pequena, amanhã é outro dia.

Da pequena que sente tua falta, ainda.
E sempre.


Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!

quarta-feira, maio 22, 2013

A canção


"É tudo que eu quero ouvir: me and you. Mesmo eu estando aqui..."

"É melhor ouvir de dois", disse o rapaz, puxando o fone do seu ouvido e colocando-o no ouvido da moça. Ele iria embora no outro dia e queria que ela soubesse que o seu pensamento continuaria ali, naquele passeio gasto onde eles haviam trocados as juras de amor e amizade mais bonitas. Ela ria, apenas, sem dizer palavra. Por muito tempo ele havia se perguntado o porque daquele silêncio, mas hoje entendia que o medo dela era maior do que qualquer coisa. Medo de que ele não voltasse mais. De que fosse tudo muito bonito e terminasse num dia comum de sol. Medo de que pra ele tudo fosse fácil demais. Ele havia voltado, verdade. Eles haviam voltado. Eles estavam, novamente. Se dizendo sobre saudades, se ligando, se vivendo. Era boa demais aquela sensação. Como negar que estar com ele era muito melhor do que aquela angústia de esperá-lo voltar, como? E apesar do medo de que aquela loucura toda não fosse nunca perdoada, ela ficava. De vez em quando uma fisgada no peito incomodava. Mas ele sorrindo do outro lado da linha lhe dizia: "você é mesmo uma boba", e seu coração ficava tranquilo. Ouvia os acordes do violão e a voz meio rouca do rapaz e tudo sumia. "Deixa assim, deixa estar", pensava. Poucas coisas na vida tinham sido tão boas quanto ele.
Ela tirou o fone do ouvido e olhou o mais fundo que pôde nos olhos dele. Ela, que nunca olhava nos olhos. As suas mãos estavam trêmulas quando agarraram as dele.
- Vamos viver? Vem. Eu te fiz um café, e ele está quente, como você gosta. Eu deixo você ficar até amanhã. E depois, e depois, e depois. Eu deixo você escrever a sua boca em todas as curvas do meu corpo a madrugada inteira. E quando você cansar, eu deixo você sossegar a tua alma no meu peito. Amanhã você pode dormir até às doze, contanto que prepare o meu almoço. Eu até ajudo se você quiser. Eu te ajudo no que mais for preciso, e você sabe. Você sabe que de minha parte, eu estou aqui. Eu sempre estive, desde que nós nos conhecemos. Nem sempre por desejo, mas por pura preocupação, carinho e cuidado. E não vai passar, entende? Não vai passar porque já dura muitos pares de anos. Não vai passar porque a nossa sintonia não nasceu do sexo, do beijo. Nasceu dessa ligação louca que temos, esse elo cósmico que nos dá a certeza de que ficaremos, permaneceremos. Por vezes capengas, às vezes quase paralíticos, presos por um fio pequenininho. Mas com força suficiente para superar tudo. Eu, você, nós... Daqui até a eternidade.
E dessa vez, foi ele quem não falou. Os dois beijaram-se como nunca haviam feito naqueles muitos anos. Nos fones, já no fim da música, o Fábio Cascadura cantava: Quero ficar contigo.


domingo, maio 19, 2013

Sophia

Ele havia esquecido de que as pessoas mudavam. Um estalo: mudam. Ele mudou, ela mudou. Mas ainda havia algo. Alguma magia inexplicável na pele de Sophia. Como ele havia gostado daquela mulher. Como tinha querido que ela aceitasse as suas vontades. Vacilaram há dois anos atrás. Vacilavam agora. E era melhor. Melhor assim para ele, que afinal havia se acostumado a estar e ser só. Às vezes, tinha a impressão de que os poetas não têm escolha.


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
(Carlos Drummond de Andrade)

Aquela menina


Aquela menina se parecia com palavra liberdade.
De sua nuca subia um encanto particular,
Uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos.
Os primeiros acenos que fiz para o outono
Se deitaram tranquilos sob a maré das suas mãos.

Adaptado de "a palavra nunca".

sábado, maio 18, 2013

Galera,
Pra quem acompanha o blog e não me tem no facebook, agora o Parte tem uma página:

https://www.facebook.com/Parteexiladademim

Curtam lá! (Podem me adicionar no facebook também. :D)
Um beijo.

quinta-feira, maio 16, 2013

Ainda pulsa

"Doravante, eu o sei e qualquer um o sabe: O coração tem domicílio no peito. Comigo a anatomia enlouqueceu. - Sou todo coração. Em todas as partes pulsa." 
 [Maiakoviski]


"A gente nasce inteiro e se esforça pra ser metade, vai entender". Me disse o Pedro Pondé, sempre parecendo ler meus pensamentos. E eu naquele dia estava tão metade querendo ser inteira, que entendi. Entendi porque quando tudo era inteiro, eu busquei o fôlego no fim do mundo pra me dividir. Eu sangrei pra parar de sangrar. E consegui. A gente nasce inteiro e se esforça pra ser metade, eu repeti. Se esforça porque ser inteiro é feio. Se despir de máscaras, ser frágil, chorar em público, não pode, não tá certo. Ser inteiro choca. Ser inteiro incomoda. Pessoas inteiras voltam para casa encabuladas por estarem sós. Sempre com um rebuliço no coração, rosto rubro, cabelos soltos ao vento. Eu quis por muito tempo ser metade. E agora que sou, fico querendo transbordar, passar da margem. Me parece que os que são verdadeiramente inteiros, é difícil assumir outro tamanho que não este.
...Enquanto a música toca nos fones, me massageando a alma, eu sinto meu coração dilatar e pulsar no meu corpo inteiro. E eu sinceramente espero que ele pulse até que eu desfaleça e morra, com a certeza de que estive viva o suficiente para senti-lo tocando a minha blusa, no lado esquerdo do peito.
"É permitido (viver) fora da caixa."
...A gente se ilude dizendo que já não há mais coração...

quarta-feira, maio 15, 2013

Flame


E se eu quiser, me diz? Se eu quiser ver os seus olhos se fecharem, se eu achar bonito esse teu jeito tão "gente". Se eu achar que a sua sandália de couro combina com o meu vestido de flor? E se eu não tiver medo e navegar no fundo da sua retina? E se eu tiver e não conseguir dormir?
O que é que acontece se você se parecer demais comigo e mesmo no silêncio do meu quarto a sua voz ainda continuar ressoando firme no meu ouvido? E se as suas mãos se parecerem demasiado com a curva da minha cintura? Se o teu cheiro for agradável demais pra te deixar escapar? E se eu quiser ser louca? E se eu quiser enfrentar o mundo? E se eu quiser ficar?

domingo, maio 12, 2013

Por ser amor...


Eu nunca sei por onde começar essas coisas, nem como falar (eu sempre fui sem jeito, vce sabe). Mas hoje eu acordei com o vazio de não poder ser primeira pessoa a te desejar um feliz dia das mães, como tem sido há 19 anos. Eu te liguei e todas as palavras se perderam. Quando você perguntou "o que você quer?", eu só disse "eu quero te ver". A verdade é que eu queria falar muito mais, mas escrever sempre foi muito mais fácil (lembra? "pera mãe, vou te escrever uma carta"). Eu quis te dizer que ontem o meu coração tinha um buraquinho quando chorei na nossa música. O tempo prega peças na gente, né mãe? De repente os nossos caminhos parece que quase nunca se cruzam, e nós nos tornamos diferentes uma da outra. Não sei em que momento eu acordei e os meus olhos já não enxergavam como os seus (engraçado, foi você quem os guiou, como que cão guia de um cego). E nós fomos nos perdendo no meio dessa confusão que é o sentimento e aos poucos não havia mais sambinha ao som de "regra três", nem cantar Legião Urbana até de madrugada. Não tinha você imitando a vez da Pitucha e do Pequeno Príncipe, não tinha mais selinho de bom dia, vitamina de farinha láctea, bilhetinho no meio da aula com poema do Vinícius. Crescer é estranho, né mãe? A gente perde o jeito pra gritar quando se machuca, porque dificilmente o machucado é daqueles que o merthiolate resolve. E a gente acha que cresceu e que pode carregar o mundo inteiro nas costas, que gritar e dizer "eu tenho razão" sempre funciona melhor. A gente finge que nem dói olhar pra outra pessoa e dizer "ela não me entende". Justo nós duas, que sempre nos comunicamos com o olhar e fomos parceiras em todos os tropeços. Que seguramos a barra uma pra a outra e dissemos "você consegue, você é forte". Você se lembra, mãe? Lembra de quando nós tomávamos uma cervejinha ao som de um violão e cantávamos todas as melhores pérolas da MPB? Você se lembra de quantas vezes nós pedimos que o cantor tocasse "Pétala"? Como era fácil naquela época, não era? 
 Agora, você me ligou e disse "estou indo pra casa". Nós duas esperamos curiosas pra saber quem vai ceder e se desfazer das armaduras que construímos, quando o que a gente quer mesmo é levantar bandeira branca o tempo inteiro. 
Apesar de todos os pesares, FELIZ DIA DAS MÃES. Me desculpe por às vezes pesar a mão, bater a porta, gritar ao ponto de não ouvir. 
Eu te amo, ainda. E pra sempre.

quinta-feira, maio 09, 2013

A voz

Eu disse que iria embora. Foi. Mas veio outra. A outra que parecia com aquela que parecia com aquela outra. E recitava Fernando Pessoa. "O poeta...", ele disse. Eu corri. Corri com os olhos cheios d'água. Um emaranhado de pensamentos, um medo, um quase desespero. A porta se bateu atrás de mim e pude tapar os ouvidos. Mas a voz estava lá. Lá era o lugar para o qual eu precisava voltar. A voz. Ali, atrás de mim novamente. Sem saber que da inquietude que me causava, continuava. Tom a tom, alta, em boa dicção. Eu procuro ouvir outras vozes para sobrepor a que me faz protagonizar a loucura. Aos poucos, outros timbres vão adentrando os meus tímpanos. Ela finalmente vai embora. Timidamente, eu murmuro: Que vá. E que por favor, não volte. 

quinta-feira, março 21, 2013

Sinestesia.

Abri o chuveiro e pude sentir o aroma do sabonete novo. Respirei mais fundo para sentir cheiro que se espalhava no ar. Não era preciso tanto, na verdade. No primeiro momento as imagens já rondavam a minha cabeça. É estranha a magia que há no cheiro. Me perdi lembrando de milhares de cheiros. Do cheiro de pitanga, cheiro de terra. Cheiro de casa de vó. Da mesma avó que agora põe suas mãos já enrugadas nos cabelos da minha cabeça confusa e me abençoa com uma fé inabalável. O cheiro de giz misturado ao suor infantil de "brincar de escolinha". O cheiro de rebeldia das botas e tênis sujos da adolescência. O cheiro amadeirado do perfume que conquistava o rapaz perdido entre os hormônios em ebulição, não menos perdido que todos os outros sentados numa calçada gasta. O cheiro de mulher que não pediu licença para cheirar. O cheiro de sangue sem mertiolate, de corte esquecido, sarado sozinho pela falta de tempo. O cheiro de pressa das pernas que correm. O cheiro do medo de perder o cheiro. De perder outro e mais outro cheiro. O cheiro de plástico do relógio antigo que todos os dias anuncia mais um dia que é menos um. O tempo andou mexendo com a gente, sim. O tempo deixou gelada a arma que há pouco era quente. Não existe tiro, nem alvo. Mentira! Olha lá a arma esquentando mais uma vez. O cheiro nos prega outra peça e numa fração de segundos é outro. E nesse esquenta-esfria da arma, a vida se debruça sobre o parapeito da minha janela. Me olha, me diz: "estou aqui". Ela não para. Enquanto sacode a minha alma, traça as linhas do tempo, dos cheiros, dos dias. Acelera, dança majestosa sobre o destino. Por vezes, cambaleia. Por outras, gargalha despretensiosa, escreve nas paredes do meu quarto. Senta na minha mão e me obriga a fechar os dedos enquanto a ouço decretar: Não me deixe escapar.

quinta-feira, março 14, 2013

Contemplação

- Você ainda viria me ver essa noite?
- Só se você tivesse um bom argumento…
- Você veria seios que adora.
- Só?
- Esqueça então, já que você faz tão pouco caso.
- Na verdade eu fiz caso demais, me bastaria te ver.
- Inteiramente vestida?
- Seus seios seriam de grande recompensa, mas te ver apenas, já me é bom demais. Estou indo.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Con-sequencia.


"I laughed and shook his hand, and made my way back home
I searched from form and land, for years and years
I roamed I gazed the gazeless stare at all the millions hills
I must have died alone, a long long time ago..."

"Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
(...)
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
(...)
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés..."



"Sabia no entanto das consequências (...) Sabia pouco, muito pouco, não imaginava quão grandiosas se tornariam."

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Quarta-feira (de cinzas)

Sei que não há no mundo (não há!), não há quem possa te dizer que não é sua a lua que eu te dei pra brilhar por onde você for. Me queira bem, durma bem, meu amor.


"I'm sorry but I meant to say 
Many things along the way 
This one's for you:
Have I told you I ache?" 

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Negra

Ela é dona do jogo. Tão dona que dá medo de jogar. Ela tem um sorriso do tamanho do mundo inteiro, e uma tristeza nos olhos. Pequenos olhos negros em que (dizem alguns) não se pode confiar. Ela queria ir pra Paris. Ela tinha um punhado de sonhos alastrados por um quadro familiar complicado. Tentou ser mil coisas, não conseguiu nada. Um dia ela disse: "Mãe, tô indo pra longe, e não volto". Foi quando disseram "o círculo  fechou pra ela". Quando se foi, ela tinha lágrimas nos cantos dos olhos, uma vontade de que tudo não fosse dessa forma. No fundo, ela só queria estar em paz.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Not like a movie.


Depois daquele filme, quando você me disse "você me apagaria da sua memória?", eu vacilei por um instante. Nos seus olhos eu pude ler medo. Não mais felicidade ou leveza, mas medo. Quando você me disse, naquele dia bonito demais "você quer ficar pra sempre?", eu não tive dúvidas de que queria. Queria te ter pra sempre. E olhe, ainda quero. Mas eu realmente não sou perfeita, nada é eterno, um dia os teus olhos vão me olhar com raiva ou com mágoa, e neste dia, nós seremos dois seres separados pelo destino. Mas até que destino nos separe... Vamos fazer um café? Até que o destino nos separe, vamos à praia? Ao teatro? À Paris? Até que o destino nos separe... Me deixa ser a tua mulher? Me deixa acordar com os seus braços sobre os meus e te olhar por horas. Me deixa te amar inteiro e te ser inteira. Me deixa escolher o filme no cinema, fazer compras contigo, rir até faltar o ar das cócegas que você me faz. Quando você disse que não valia a pena, eu quis dizer que pra mim, vale sim. Porque eu amo você. E esse motivo te faz importante e grande na minha vida, esse motivo me faz não conseguir desistir. Algo seu me puxa como um ímã, e me faz querer habitar um lugar bem maior aí dentro. Eu não sei o que é essa força invisível, mas sei que ela existe. Eu sei, você sabe. Então fique, por favor, não desista agora não. E se amanhã nos não formos mais um só, me deixe juntar a minha alma com a tua hoje. Amanhã vai ser outro dia. Por ora, por hoje, me deixa continuar sendo o teu presente?

terça-feira, janeiro 22, 2013

Lacuna inc.

 
"Feliz é a inocente vestal;
 Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. 
Brilho eterno de uma mente sem lembranças..."

      Baby, me disseram que este lugar te apagaria da minha memória. Estou deitada na cama do meu apartamento barato e há uma parafernália sobre a minha cabeça. Eles pediram que eu trouxesse pra cá as nossas coisas e tentasse lembrar do último dia em que eu te vi, e também do primeiro.
    Eu estou no teu quarto e você me diz que vai embora mais uma vez. Os meus olhos baixos não seguem mais os teus pés andando de um lado para o outro, eu simplesmente escuto. Minhas roupas estão espalhadas pelo chão e eu estou vestida naquela tua camisa. Esse foi o ultimo dia em que eu sai pela sua porta. Esse dia começa a se apagar como todos os outros se apagarão. Sabe, baby, eu te quero há tanto tempo que não sei como seria ainda ter lembranças suas, não sei como seria não ter você e ficar sempre uma lacuna, um espaço com as tuas medidas. Por que você estragou tudo? Você, sempre o "evento". Como um caixeiro viajante, como um marinheiro, como um taxista. Sempre longe até sentir falta da minha mão por dentro da sua calça.
    Agora nós estamos no parque. Você me compra um algodão doce rosa bebê. O vendedor olha para nós e sorri como quem acha muito bonito o que está vendo. Você me diz: "Moça, vamos na roda gigante?". Por muito tempo achei que "moça" fosse uma forma carinhosa de me chamar. Agora eu vejo nitidamente que eu era apenas uma moça como essas para as quais você pergunta o horário na rua. Uma moça quase sem rosto, igual a todas as outras. O parque também já não existirá nos meus pensamentos.
    Estamos sentados em frente à sua casa. Está quase anoitecendo e é domingo. Um bêbado lhe pede "toca uma música romântica pra essa moça bonita". Ele lhe pergunta "É sua esposa?". Você sorri de canto e diz "É, é minha esposa". Se a minha consciência pudesse falar, ela me diria que era só um bêbado. Mas ela emudecia perto do teu carinho. Eu me pergunto que horas são e mais quantas memórias eu vou reviver para que você não exista mais. Os homens que estão te apagando de mim comem uma pizza e falam sobre blues. Está frio e esses ferros estão gelados. Eu só quero que tudo termine logo. 
    A minha campainha toca. Eu me assusto com você parado na porta quando deveria já ter ido embora para só voltar no outro mês. Suas mãos suam e você me pede "me deixar ficar essa noite?". Você foi o primeiro homem a deitar naquela cama. Era simples porque não haveria outra pessoa que tivesse esse lugar. Era complexo porque poderia ser a ultima vez. E foi. 
   Os nossos bate-papos online passam em meio a uma tela escura. São frases soltas: "ei, você tá aí?", "sinto sua falta", "antes eu estivesse sentindo isso sozinha, talvez fosse mais fácil", "um dia eu me peguei sentindo ciumes de você", "eu te amo", "me escute, não vá embora", "entenda que eu não posso ficar", "é que as vezes eu demoro de aceitar coisas óbvias", "You cannot reply to this conversation. Either the recipient's account was disabled or its privacy settings don't allow replies".
   Os acontecimentos passam mais rapidamente. Acho que porque talvez o processo já esteja quase no fim. Finalmente, não haverão mais vestígios das suas viagens em mim. Eu fui por muito tempo apenas mais uma dessas suas viagens em meio a fumaça do teu cigarro de maconha, dos teus porres loucos, das suas cheiradas insanas. Um alívio rápido, uma ilusão.
    Essa é a primeira vez em que eu te vejo. A festa está animada e uma das minhas amigas me diz o seu nome gritando e também lhe diz o meu. Você diz "vamos dançar?". Nossos olhares se cruzam e eu fito o teu corpo que dança um pouco desengonçado uma baladinha da Legião Urbana. Sua mão toca a minha e eu arrepio. Tua barba mal feita roça o meu rosto e você me dá um beijo estalado no pescoço. A sua mão, o seu beijo, a sua pele. A primeira agora é também a ultima vez, baby. Eu estou indo embora. Não como um caixeiro viajante, não como um marinheiro. Mas como alguém que nunca mais irá voltar. Adeus, baby, adeus.


Referências filmográficas: Brilho eterno de uma mente sem lembranças.

terça-feira, janeiro 08, 2013

Close to you.

- Eu preciso ficar longe de você pra ser feliz.
- Perto de mim você não é feliz?
- Muito pelo contrário. Perto de você eu fico tão feliz que quero que isso dure. Mas não dura. E é aí que eu fico triste.

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Mensagem de uma puta triste



"Assim você me perde, e eu perco você..." 

Isso não é uma carta, não é um documento, não é um rabisco. Eu não sei o que é. Mas é qualquer coisa que me torne capaz de chegar até você. Capaz de dizer que eu ouvi o que você disse sobre mim e que eu não sou isso aí. Ou que eu sou sim. E que nada disso importa porque eu só quero sentar com você e tomar uma fanta uva. Conversar sobre poesia, música ou sobre o seu novo corte de cabelo. Mas alguém colocou na sua cabeça que não tá certo. Não tá certo ser alguém como eu. E você acreditou porque não sabe que todos também não acham certo viver como você. Não sabe que esses abraços que trocam contigo são pura política de boa vizinhança. Você é tão imaturo, baby. Tão ingênuo, tão frágil. Eles te pegaram de jeito. Ah, como eu queria tirar a venda que cobre os teus olhos. Mas não posso. Minhas mãos não são dignas. Minhas mãos não tem forças para lutar contra essa eterna "cidade de Geni", contra esses homens armados até os dentes de moralismos fétidos. Eu me olho nesse espelho como quem procura ver algo, uma só coisa que me torne parecida com o que ouvi e não vejo. Eu vejo a mim, ainda. Aquela menina assustada de coturno arriscando notas no violão no meio da praça. A mesma. Eu sou mais que esse reflexo, que esse corpo. Eu sou espírito. Mas de que importa, não é? Meus olhos continuam fixos sobre o meu reflexo, e para não chorar, cubro o meu corpo cheio de marcas das pedras. 



"Mas logo raiou o dia 
E a cidade em cantoria 
Não deixou ela dormir..."