quinta-feira, março 21, 2013

Sinestesia.

Abri o chuveiro e pude sentir o aroma do sabonete novo. Respirei mais fundo para sentir cheiro que se espalhava no ar. Não era preciso tanto, na verdade. No primeiro momento as imagens já rondavam a minha cabeça. É estranha a magia que há no cheiro. Me perdi lembrando de milhares de cheiros. Do cheiro de pitanga, cheiro de terra. Cheiro de casa de vó. Da mesma avó que agora põe suas mãos já enrugadas nos cabelos da minha cabeça confusa e me abençoa com uma fé inabalável. O cheiro de giz misturado ao suor infantil de "brincar de escolinha". O cheiro de rebeldia das botas e tênis sujos da adolescência. O cheiro amadeirado do perfume que conquistava o rapaz perdido entre os hormônios em ebulição, não menos perdido que todos os outros sentados numa calçada gasta. O cheiro de mulher que não pediu licença para cheirar. O cheiro de sangue sem mertiolate, de corte esquecido, sarado sozinho pela falta de tempo. O cheiro de pressa das pernas que correm. O cheiro do medo de perder o cheiro. De perder outro e mais outro cheiro. O cheiro de plástico do relógio antigo que todos os dias anuncia mais um dia que é menos um. O tempo andou mexendo com a gente, sim. O tempo deixou gelada a arma que há pouco era quente. Não existe tiro, nem alvo. Mentira! Olha lá a arma esquentando mais uma vez. O cheiro nos prega outra peça e numa fração de segundos é outro. E nesse esquenta-esfria da arma, a vida se debruça sobre o parapeito da minha janela. Me olha, me diz: "estou aqui". Ela não para. Enquanto sacode a minha alma, traça as linhas do tempo, dos cheiros, dos dias. Acelera, dança majestosa sobre o destino. Por vezes, cambaleia. Por outras, gargalha despretensiosa, escreve nas paredes do meu quarto. Senta na minha mão e me obriga a fechar os dedos enquanto a ouço decretar: Não me deixe escapar.

Um comentário:

LilyAzul disse...

Um texto que nos faz refletir naturalmente sem ao menos termina-lo, um texto que me prendeu até o final.