quarta-feira, maio 22, 2013

A canção


"É tudo que eu quero ouvir: me and you. Mesmo eu estando aqui..."

"É melhor ouvir de dois", disse o rapaz, puxando o fone do seu ouvido e colocando-o no ouvido da moça. Ele iria embora no outro dia e queria que ela soubesse que o seu pensamento continuaria ali, naquele passeio gasto onde eles haviam trocados as juras de amor e amizade mais bonitas. Ela ria, apenas, sem dizer palavra. Por muito tempo ele havia se perguntado o porque daquele silêncio, mas hoje entendia que o medo dela era maior do que qualquer coisa. Medo de que ele não voltasse mais. De que fosse tudo muito bonito e terminasse num dia comum de sol. Medo de que pra ele tudo fosse fácil demais. Ele havia voltado, verdade. Eles haviam voltado. Eles estavam, novamente. Se dizendo sobre saudades, se ligando, se vivendo. Era boa demais aquela sensação. Como negar que estar com ele era muito melhor do que aquela angústia de esperá-lo voltar, como? E apesar do medo de que aquela loucura toda não fosse nunca perdoada, ela ficava. De vez em quando uma fisgada no peito incomodava. Mas ele sorrindo do outro lado da linha lhe dizia: "você é mesmo uma boba", e seu coração ficava tranquilo. Ouvia os acordes do violão e a voz meio rouca do rapaz e tudo sumia. "Deixa assim, deixa estar", pensava. Poucas coisas na vida tinham sido tão boas quanto ele.
Ela tirou o fone do ouvido e olhou o mais fundo que pôde nos olhos dele. Ela, que nunca olhava nos olhos. As suas mãos estavam trêmulas quando agarraram as dele.
- Vamos viver? Vem. Eu te fiz um café, e ele está quente, como você gosta. Eu deixo você ficar até amanhã. E depois, e depois, e depois. Eu deixo você escrever a sua boca em todas as curvas do meu corpo a madrugada inteira. E quando você cansar, eu deixo você sossegar a tua alma no meu peito. Amanhã você pode dormir até às doze, contanto que prepare o meu almoço. Eu até ajudo se você quiser. Eu te ajudo no que mais for preciso, e você sabe. Você sabe que de minha parte, eu estou aqui. Eu sempre estive, desde que nós nos conhecemos. Nem sempre por desejo, mas por pura preocupação, carinho e cuidado. E não vai passar, entende? Não vai passar porque já dura muitos pares de anos. Não vai passar porque a nossa sintonia não nasceu do sexo, do beijo. Nasceu dessa ligação louca que temos, esse elo cósmico que nos dá a certeza de que ficaremos, permaneceremos. Por vezes capengas, às vezes quase paralíticos, presos por um fio pequenininho. Mas com força suficiente para superar tudo. Eu, você, nós... Daqui até a eternidade.
E dessa vez, foi ele quem não falou. Os dois beijaram-se como nunca haviam feito naqueles muitos anos. Nos fones, já no fim da música, o Fábio Cascadura cantava: Quero ficar contigo.


domingo, maio 19, 2013

Sophia

Ele havia esquecido de que as pessoas mudavam. Um estalo: mudam. Ele mudou, ela mudou. Mas ainda havia algo. Alguma magia inexplicável na pele de Sophia. Como ele havia gostado daquela mulher. Como tinha querido que ela aceitasse as suas vontades. Vacilaram há dois anos atrás. Vacilavam agora. E era melhor. Melhor assim para ele, que afinal havia se acostumado a estar e ser só. Às vezes, tinha a impressão de que os poetas não têm escolha.


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
(Carlos Drummond de Andrade)

Aquela menina


Aquela menina se parecia com palavra liberdade.
De sua nuca subia um encanto particular,
Uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos.
Os primeiros acenos que fiz para o outono
Se deitaram tranquilos sob a maré das suas mãos.

Adaptado de "a palavra nunca".

sábado, maio 18, 2013

Galera,
Pra quem acompanha o blog e não me tem no facebook, agora o Parte tem uma página:

https://www.facebook.com/Parteexiladademim

Curtam lá! (Podem me adicionar no facebook também. :D)
Um beijo.

quinta-feira, maio 16, 2013

Ainda pulsa

"Doravante, eu o sei e qualquer um o sabe: O coração tem domicílio no peito. Comigo a anatomia enlouqueceu. - Sou todo coração. Em todas as partes pulsa." 
 [Maiakoviski]


"A gente nasce inteiro e se esforça pra ser metade, vai entender". Me disse o Pedro Pondé, sempre parecendo ler meus pensamentos. E eu naquele dia estava tão metade querendo ser inteira, que entendi. Entendi porque quando tudo era inteiro, eu busquei o fôlego no fim do mundo pra me dividir. Eu sangrei pra parar de sangrar. E consegui. A gente nasce inteiro e se esforça pra ser metade, eu repeti. Se esforça porque ser inteiro é feio. Se despir de máscaras, ser frágil, chorar em público, não pode, não tá certo. Ser inteiro choca. Ser inteiro incomoda. Pessoas inteiras voltam para casa encabuladas por estarem sós. Sempre com um rebuliço no coração, rosto rubro, cabelos soltos ao vento. Eu quis por muito tempo ser metade. E agora que sou, fico querendo transbordar, passar da margem. Me parece que os que são verdadeiramente inteiros, é difícil assumir outro tamanho que não este.
...Enquanto a música toca nos fones, me massageando a alma, eu sinto meu coração dilatar e pulsar no meu corpo inteiro. E eu sinceramente espero que ele pulse até que eu desfaleça e morra, com a certeza de que estive viva o suficiente para senti-lo tocando a minha blusa, no lado esquerdo do peito.
"É permitido (viver) fora da caixa."
...A gente se ilude dizendo que já não há mais coração...

quarta-feira, maio 15, 2013

Flame


E se eu quiser, me diz? Se eu quiser ver os seus olhos se fecharem, se eu achar bonito esse teu jeito tão "gente". Se eu achar que a sua sandália de couro combina com o meu vestido de flor? E se eu não tiver medo e navegar no fundo da sua retina? E se eu tiver e não conseguir dormir?
O que é que acontece se você se parecer demais comigo e mesmo no silêncio do meu quarto a sua voz ainda continuar ressoando firme no meu ouvido? E se as suas mãos se parecerem demasiado com a curva da minha cintura? Se o teu cheiro for agradável demais pra te deixar escapar? E se eu quiser ser louca? E se eu quiser enfrentar o mundo? E se eu quiser ficar?

domingo, maio 12, 2013

Por ser amor...


Eu nunca sei por onde começar essas coisas, nem como falar (eu sempre fui sem jeito, vce sabe). Mas hoje eu acordei com o vazio de não poder ser primeira pessoa a te desejar um feliz dia das mães, como tem sido há 19 anos. Eu te liguei e todas as palavras se perderam. Quando você perguntou "o que você quer?", eu só disse "eu quero te ver". A verdade é que eu queria falar muito mais, mas escrever sempre foi muito mais fácil (lembra? "pera mãe, vou te escrever uma carta"). Eu quis te dizer que ontem o meu coração tinha um buraquinho quando chorei na nossa música. O tempo prega peças na gente, né mãe? De repente os nossos caminhos parece que quase nunca se cruzam, e nós nos tornamos diferentes uma da outra. Não sei em que momento eu acordei e os meus olhos já não enxergavam como os seus (engraçado, foi você quem os guiou, como que cão guia de um cego). E nós fomos nos perdendo no meio dessa confusão que é o sentimento e aos poucos não havia mais sambinha ao som de "regra três", nem cantar Legião Urbana até de madrugada. Não tinha você imitando a vez da Pitucha e do Pequeno Príncipe, não tinha mais selinho de bom dia, vitamina de farinha láctea, bilhetinho no meio da aula com poema do Vinícius. Crescer é estranho, né mãe? A gente perde o jeito pra gritar quando se machuca, porque dificilmente o machucado é daqueles que o merthiolate resolve. E a gente acha que cresceu e que pode carregar o mundo inteiro nas costas, que gritar e dizer "eu tenho razão" sempre funciona melhor. A gente finge que nem dói olhar pra outra pessoa e dizer "ela não me entende". Justo nós duas, que sempre nos comunicamos com o olhar e fomos parceiras em todos os tropeços. Que seguramos a barra uma pra a outra e dissemos "você consegue, você é forte". Você se lembra, mãe? Lembra de quando nós tomávamos uma cervejinha ao som de um violão e cantávamos todas as melhores pérolas da MPB? Você se lembra de quantas vezes nós pedimos que o cantor tocasse "Pétala"? Como era fácil naquela época, não era? 
 Agora, você me ligou e disse "estou indo pra casa". Nós duas esperamos curiosas pra saber quem vai ceder e se desfazer das armaduras que construímos, quando o que a gente quer mesmo é levantar bandeira branca o tempo inteiro. 
Apesar de todos os pesares, FELIZ DIA DAS MÃES. Me desculpe por às vezes pesar a mão, bater a porta, gritar ao ponto de não ouvir. 
Eu te amo, ainda. E pra sempre.

quinta-feira, maio 09, 2013

A voz

Eu disse que iria embora. Foi. Mas veio outra. A outra que parecia com aquela que parecia com aquela outra. E recitava Fernando Pessoa. "O poeta...", ele disse. Eu corri. Corri com os olhos cheios d'água. Um emaranhado de pensamentos, um medo, um quase desespero. A porta se bateu atrás de mim e pude tapar os ouvidos. Mas a voz estava lá. Lá era o lugar para o qual eu precisava voltar. A voz. Ali, atrás de mim novamente. Sem saber que da inquietude que me causava, continuava. Tom a tom, alta, em boa dicção. Eu procuro ouvir outras vozes para sobrepor a que me faz protagonizar a loucura. Aos poucos, outros timbres vão adentrando os meus tímpanos. Ela finalmente vai embora. Timidamente, eu murmuro: Que vá. E que por favor, não volte.