domingo, maio 19, 2013

Sophia

Ele havia esquecido de que as pessoas mudavam. Um estalo: mudam. Ele mudou, ela mudou. Mas ainda havia algo. Alguma magia inexplicável na pele de Sophia. Como ele havia gostado daquela mulher. Como tinha querido que ela aceitasse as suas vontades. Vacilaram há dois anos atrás. Vacilavam agora. E era melhor. Melhor assim para ele, que afinal havia se acostumado a estar e ser só. Às vezes, tinha a impressão de que os poetas não têm escolha.


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
(Carlos Drummond de Andrade)

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