domingo, junho 30, 2013

Do apagar do meu vagalume


- Me apaixono todo dia, é sempre a pessoa errada.
- Eu gosto de você também...

Te escrevo nessa tarde cinzenta e fria, porque exatamente nela a saudade resolveu fazer abrigo sobre a minha cama. A sua lembrança me parece tão forte que cambaleio por entre os muitos cômodos da minha casa. Nesses anos que se passaram desde que você se foi aconteceram tantas coisas... Sinto falta da rouquidão da sua voz, pai, apesar de saber que você está bem agora. Deve ser uma delícia essa sensação de paz, não é?! Eu pude sentí-la quando Marina nasceu. É, Marina, meu velho. Ah, como eu quis ouvir a tua voz cantando a música do Caymmi pra ela. Ela se parece contigo (por vezes isso é de uma dureza agonizante). Encontrei dia desses um pedaço rabiscado de papel com a sua caligrafia: Essa saudade de estar perto, se longe, ou estar mais perto, se perto. A gente perde tanto tempo com orgulhos e pequenas tolices, sem saber que as pequenices cotidianas um dia farão toda a diferença. Que um dia, haverá saudade do arrastar de pés calçando pantufas velhas, do beijo estalado no rosto, do cheiro de café fresquinho. Desde que você se foi, pai, nunca mais houve nada. Eu ainda vejo a luz do teu olhar em cada nascer de lua.  Hoje choveu o dia inteiro. Ainda chove, o céu parece desabar. Aqui dentro, eu também chovo. E faço o maior esforço do mundo para não chover também por fora, para não ter que usar aquela velha desculpa da rinite alérgica. De minuto em minuto, apanho o meu bloquinho e busco escrever algo que não seja "sinto sua falta". Inútil. Te imagino aí em cima, rindo de mim e me achando uma boba. Lembro da tua gargalha gostosa e as minhas lágrimas encontram um sorriso aberto. Já está no fim do dia, o ponteiro quase termina de girar as suas vinte e quatro horas. Mas antes que a noite se acabe, eu só tenho que ouvir uma daquelas suas palavras doces, faladas como uma melodia. Eu só preciso ligar o seu radinho de pilha naquela estação de Bossa Nova, e te imaginar vindo, vestido no seu roupão azul céu, dizendo: Dorme, pequena, amanhã é outro dia.

Da pequena que sente tua falta, ainda.
E sempre.


Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!