sexta-feira, agosto 23, 2013

O dia em que o mundo não acabou

Era um respeitado profeta, e decretou o fim do mundo para o próximo dia 23. 23 de agosto, o mês do cachorro louco, da bruxa solta. O dia em que o mundo acaba. O dia em que meu mundo começou, finalmente, e mesmo depois do fim, ainda teima em existir. Meu mundo despedaçado, estilhaçado, dissolvido como pedrinhas na areia da praia. Tão perdido quanto grãos de poeira numa casa antiga e abandonada. Dos meus móveis puídos, do cheiro de mofo, do calor abafado do porão, das ratazanas mortas no sótão. Uma mansão aos pedaços, com ervas daninhas no jardim, antes tão bem cuidado e enfeitado por jasmins. Não havia buquês, então me deste uma árvore. Os galhos tão tortos quanto minha saudade. Ao fim do inverno, nas noites menos geladas, vem o perfume lembrar que, embora triste, ela ainda vive. E as pétalas brancas e amarelas criam um tapete sob as nuvens. Tem aroma de passado. Das suas cenas, me sobra o resto. Das suas palavras, só enxergo os negritos através das minhas janelas quebradas. Só vejo o que me mostra – essas suas provocações disfarçadas em outros nomes, outras mulheres, outros amores. Do meu tesouro perdido, sua metáfora encontrada. E seus olhos me dizendo tanto, mesmo que virados para outro lado, porque ainda sei te ler. Mesmo embaixo das suas fantasias psicóticas, reconheço suas digitais, suas papilas, suas pupilas, suas auréolas, seus pelos, seus dentes, sua carne. Nos nossos encontros secretos e oníricos, resvalo no amor-próprio e esbarro no amor que me falta. Ainda me falta tanta coisa, e me sobraram os sonhos e as alianças, guardados no fundo de uma gaveta velha, tão velha e corroída quanto o que restou da nossa casa – a mesma que nunca existiu.

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