domingo, setembro 08, 2013

Carta do amante secreto e louco II

Ele lhe tomava no braço e gozava dentro de ti. Tive raiva. Não ciúme, não nojo, mas raiva. Te ver escrava daquele amor escroto não me agradava, ainda que eu houvesse me tornado tão escroto com o passar do tempo. Mais uma vez não, você não podia. A sua vida desmoronando de novo sobre a tua e a minha cabeça era algo que não deveria nunca mais acontecer. Mas você estava ali. Tão entregue, tão inteira, tão dele, e tão pouco sua. Minha raiva foi se tornando ódio. Um ódio imenso de estar ali, aumentando o volume da minha música para não ouvir os gritos do teu erro se multiplicando nos meus ouvidos. De ter que olhar para a sua cara de noite mal dormida e sexo bem sucedido no outro dia pela manha. Me falaram sobre amor. Sobre o desvario e a loucura que ele tatua em todos os seus adeptos. Eu ri. Riso mesmo de deboche, de quem não pode mais ouvir esse papo velho de alma gêmea. Sabe quando o nosso menino teve febre, quando quase não podia respirar, quando derramou sangue pelo chão da sala? Eu estava lá. Eu vi a sua coleção de erros se multiplicando e se repetindo como num disco riscado, e ainda assim, eu estive segurando a sua mão. Mas será que você não entendeu que não é o Peter Pan? As rugas daqui a pouco estarão tomando conta do seu rosto. E você ainda vai baixar a cabeça ao tom alto da voz dele, mesmo podendo levantar, andar com as suas próprias pernas. O tempo passa e o amor vai acabando. Te ser amante, apenas, este amante que segura os teus tropeços e estanca o sangue dos teus machucados, já não me serve mais. Amanhã, ao acordar do teu sonho, eu não estarei aqui. As minhas gavetas agora serão oficialmente dele e do seu eterno conjunto de falhas.

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