quinta-feira, novembro 21, 2013

Sobre Fran, Júlia Rebeca e o direito de ser


Hoje eu vou pedir a permissão de vocês que me leem para sair um pouco da linha contos-crônicas-poemas, e escrever abertamente sobre um tema que também é uma "parte de mim", como todas as outras que escrevi nesses quase seis anos de blog. Hoje eu vou falar das mulheres. Desde a explosão do caso de porn revenge com Fran e de Júlia Rebeca (a moça que se matou após a divulgação do seu vídeo íntimo), eu quis escrever aqui, mas só agora consegui assimilar as ideias para lançar a perguntar a vocês: O que leva alguém a tornar público algo que pertence estritamente ao privado? Eu mesma pude ver o vídeo de Júlia Rebeca e o da Fran. Sexo. Beijo. Diversão. Nada que alguém que já passou dos dezoito anos nunca tenha feito. "O problema é a forma e com quem elas fizeram", me dizem. Não, não é. Júlia e Fran faziam sexo. Apenas sexo. Não mais ou menos sujo que o seu: igual. Porque todo sexo é, em síntese, igual. Mas alguém se achou no direito de expor as garotas. De escancarar, de esfregar nas caras de todo mundo o sexo que elas fizeram. Parece absurdo quando se assiste? É que não eram pra assistir. Não esses. Não é pra assistir porque quem estava lá não queria ser protagonista de um porn video. Elas queriam se divertir. Olha, você também faz isso, não é? Já são dois pontos em comum: Você faz sexo e se diverte, assim como Júlia e Fran. Como você se sentiria se, de repente, alguém resolvesse no ápice da sua presunção, decretar que você não pode fazer sexo e se divertir? Quem deu o direito a pessoa que publicou o vídeo de Júlia? Quem deu o direito ao amante de Fran? Quem dá o direito a todos os rapazes (e moças) de divulgarem vídeos de suas relações sexuais sem a permissão das mulheres envolvidas? Eu respondo: O machismo dá. O machismo dá ao indivíduo que posta a falsa ideia de superioridade. A falsa ideia de que ele pode sim, decidir quando, como e pra quem aquelas mulheres vão se mostrar. O machismo continua o seu percurso nas cabeças dos olhos que veem os vídeos. Cabeças femininas também (o que há de mais triste), que esbravejam: Que biscate! Teve o que mereceu! Mal sabem elas que a tal "biscate" estava apenas aproveitando o direito que tem de liberdade. O direito que tantas mulheres lutaram pra ter, e que agora elas mesmas se privam. Porque acreditaram que precisam ser castas para serem aceitas pelos homens. Acreditaram que precisam ser aceitas pelos homens. Mas precisam ser aceitas, antes de tudo, por elas mesmas. Precisam e podem ser também as mulheres que lutaram (e lutam) pela sua equidade em relação aos homens. Que precisam e podem gritar: Eu sou Pagu! Eu sou Simone de Beuvoir! Eu sou a moça que teve sua privacidade violada. Eu sou a moça que é julgada pela sociedade por se relacionar com muitos homens. Eu sou a menina que não casou virgem. Eu sou a menina que é chamada de frígida por ainda ser virgem. Eu sou a fã que pediu pra ser estuprada pelo ídolo porque entrou sozinha na sua van. Eu sou a estudante barrada na porta da universidade por estar com um vestido curto demais. Eu sou a adolescente gordinha que sofre de depressão porque não está dentro do padrão de beleza. Eu sou a menina que morre de anorexia buscando ser aceita. Eu sou a moça que ganha um salário inferior ao homem que exercita a mesma tarefa que ela. Eu sou a moça que mente sobre o que faz para não receber olhares de reprovação. Eu sou a moça que ouve "gostosa", "que delícia", "quero te foder" todos os dias na rua. Eu sou a menina que perdeu a virgindade com o rapaz que só queria contar vantagem por isso. Eu sou a mulher que morre numa tentativa de aborto. Eu sou a prostituta que é agredida, morta, violentada por "não ter um trabalho digno". Eu sou a "menina para se divertir" e não "menina pra casar". Eu sou a criança molestada pelo pai, pelo tio, pelo padrasto. Eu sou um número nas estatísticas de violência doméstica. Eu sou a mulher traída que mereceu, porque não cuidou do que tinha. Eu sou a amante que tem toda a culpa, porque seduziu o homem indefeso. Eu sou a lésbica que precisa de cura e de um homem de verdade. Eu sou a esposa que lava, passa, cozinha e cuida dos filhos. Eu sou Maria da Penha. Eu sou Chiquinha Gonzaga. Eu sou Judith Butler. Eu sou Olga Benário. Eu sou mulher. Eu sou livre. Eu sou minha.