segunda-feira, dezembro 02, 2013

Entrega

"Deixa pra lá", ele disse. Não queria dizê-lo. Queria apertar-lhe o corpo inteiro, sentir as mãos que há pouco acariciavam os seus cabelos. "Por que os meus cabelos?", ele se perguntava. Ela nutria por ele um carinho que não se justificava. Ele nutria por ela uma paixão em flamejante. Ela era moça bem resolvida, parecia sempre completa e segura. Tinha olhos brilhantes de quem queria comer o mundo. Um poder de dominação tentador. Não era dessas criaturas que ficam doentes de amor. Em que tempo, então, as suas almas tropeçariam uma na outra? Ela repetiu: "moço, diz...", como quem tinha muita sede de saber. Ele vacilou e lhe disse: "não solta da minha mão". Ela sorriu: "não solto". Era simples e bonito, não era urgente. Eles se entendiam e se viviam devagarzinho. Aos poucos, amiúde. Os olhos dele reviravam quando os cabelos dela pousavam leves sobre os seus ombros, quando ele a via brincando com os pequenos sinais perdidos no seu rosto rubro de vergonha, quando ele a via gostar de ser aquilo. Aquilo que não tinha nome, que não tinha estimativa de tempo. E nem precisava ter. Era um embarque onde não havia nenhuma prévia de como seria a viagem. Era, apenas. E com toda razão de ser.