sábado, dezembro 13, 2014

Re(des)encontro



"Vai, faz de conta que o meu coração Espera por você.
Que encontrará meu abraço
Na esquina da rua do Passo
E o beijo que você me deu
Te salva-da-dor..."

Ela deslizava o pé sobre sobre as folhas de outono que haviam caído das árvores, quando olhou bem fundo nos meus olhos, como se quisesse descobrir o que havia por trás deles. Com a expressão que parecia pesarosa, me disse:
- Já faz tanto tempo...
- Faz... Mas eu ainda posso sentir o cheiro do mar.
- Ele estava lindo naquele dia.
- Ele continua lindo por lá.
- Sinto saudades. Te conhecer naquele dia foi incrível.
- Foi como uma montanha russa: a melhor sensação do mundo... Mas rápido demais.
- O tempo nos deu uma segunda chance.
- Mas nós ainda estamos naquela praia.
- Não tem volta?
Pus a minha mão sobre a dela, de súbito.
- Acho que morremos na praia, baby.

quarta-feira, novembro 26, 2014

Dissabor

     
     
         Isso é sobre quando você foi embora. Não, não quando você foi embora de casa (até porque fui eu quem fui): Quando você foi embora de mim. Isso é sobre todas as vezes em que você me disse que eu deveria voltar, mas nunca me quis contigo de verdade. Porque eu te assusto. Eu te puxo pra o mais perto de você, e isso te põe louca. Eu me pareço contigo, até. Eu sou você aos vinte anos. Com um pouco menos de beleza e um pouco mais de visão política. Demorei para entender que o que você sentia não era raiva ou mágoa, mas medo. Medo de um dia acordar e querer ser minha novamente. Com os nossos discos de vinil e as nossas madrugadas de bossa nova. Com as suas saias longas, os meus jeans rasgados e as nossas despreocupações. Eu pedi tantas vezes para que você não se deixasse morrer dentro de mim, branquinha. Eu quis tanto que você entendesse que eu podia ser a tua paz. Há um punhado de palavras passando pela minha cabeça. Quis dizer tantas coisas hoje... Quis que você não tivesse se tornado isso. Você me ensinou que o amor é o que há mais importante, de mais sério, de mais frágil. É tão ruim te ver negando a fragilidade do meu amor. Eu não sei acompanhar a mulher de hoje, porque os passos dela não se parecem com os meus. Porque a direção que ela segue não é a minha. Porque os olhos dela enxergam um horizonte que não é o meu. Aliás, os olhos dela nem sequer enxergam o horizonte, já não são capazes de ver além. Já não tem vida, cor, poesia. Já não dizem nada. E quando dizem, estão aflitos, estão insatisfeitos. Como se buscassem o tempo todo a beleza numa flor morta. Como se inutilmente procurassem um vestígio de razão em ser o que é. Em permanecer nessa inércia de ir à lugar algum. Nesse desprazer de estagnar. Sinto saudades das tuas asas. Sinto saudade dos seus detalhes, do barulhinho do nosso mensageiro dos ventos, dos nossos incensos de erva doce. Sinto saudade do seu medo de escuro, me lembrando que há fraqueza na sua força. Saudade das nossas cantorias noturnas, dos nossos livros. De quando os meus braços não estavam cansados de te puxar desse abismo escuro em que você se jogou e que, insana, jura ser o Éden. Sinto saudade de quando tudo não estava quebrado, perdido. Sei que não há volta. Sei que você já não sabe viver aqui. Engulo à seco a minha insatisfação e volto. Sempre volto.
     Dentro da minha memória, a sua gargalhada ainda soa mais como emoção do que me parece agora, quando a escuto de longe, beirando um desespero abstruso. Lá no fundo das minhas gavetas de lembranças, os teus olhos tem outra cor, o teu cheiro é de liberdade. Mas essas memórias se perdem no tempo, voam pelos ares como na cena daquele filme que assistimos incontáveis. Acordo do sonho, fim. Tudo o que era nosso explode nas minhas mãos e se esvai.

quinta-feira, outubro 02, 2014

D'alma


Teu corpo ateu, que eu juro ser divino
Arde a gota no peito
Queima

Teu olho insano que revira
Pousa tua mão de fazer loucura
Toca

Teu beijo que alça voo no meu lábio trêmulo
Abre o sol, sou
Goza

Teu balanço desencontrado, desajustado
Sente o justo cansaço
Dorme

[eufuilávenderaminhaalma
quejáestácobertapelapaz]  

sexta-feira, setembro 12, 2014

Aos sensíveis (ou ao menino João)

           Eu sempre fui dada às emoções. Ao longo dos meus vinte anos de vida, essa sensibilidade exagerada foi pesada pra mim. Mais precisamente nos últimos cinco anos, em que eu me propus a expor o meu pensamento para o mundo. Descobri dolorosamente que o mundo tem forte resistência ao diferente. Ser diferente dói. Amar o diferente dói. Divulgar apoio ao diferente dói. Quis muitas vezes voltar no tempo, quando eu não me expunha tanto e não recebia golpes monstruosos por isso. Ao lado da minha emancipação de visão de mundo, andava a frustração de perceber quantas vezes eu via o amor ser retaliado por discursos de ódio disfarçados de altruísmo. Os meus heróis não morreram de overdose. Os meus heróis morreram queimados em fogueiras por serem bruxas, enforcados e jogados em terrenos baldios por viverem amor. Os meus heróis acabaram com a própria vida por não conseguirem segurar o fardo pesado do diferente. Os meus heróis são todos os homossexuais que saem de casa todos os dias sabendo que podem ser agredidos, humilhados, mortos e jogados em qualquer lugar, como se fosse maior que a própria vida humana essa intolerância pela diferença. Minhas heroínas são  as mulheres que vão às ruas para vingar as suas tataravós que viram o seu direito de ir e vir dependente da subjugação de seus maridos e filhos. Por vezes, sinto como é difícil caminhar quando parece que estamos sozinhos. Esse texto tem um propósito além do meu desabafo choroso: Quero dizer que estamos juntos! Que não somos poucos! Que enquanto houver direito ao grito, gritemos no mais alto tom.  Este texto é um comunicado aos sensíveis: Uni-vos! Carreguemos juntos o peso de acreditar no amor e no respeito ao próximo no dia de hoje. Eu sou amor de corpo inteiro, além do que as minhas palavras dizem. E não é (não é!) um livro embaixo do braço de um homem mal que vai mudar isso. Não nos deixemos abater. Não somos fracos, senhor Malafaia. Não somos pequenos. Não vamos cair! Parafraseio Belchior nesse meu fim de texto: Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer "não", eu grito. O ódio não pode nós calar. O ódio não vai nos calar.

Esse texto é para todos os que andam comigo, mas especialmente em memória ao menino João Donati, para minha amiga e companheira Carla Carniel e para meu professor e motivador Saulo Almeida.


O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; 
o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. 
(...) não busca os seus interesses, 
não se irrita, não suspeita mal; 
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; 
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 

terça-feira, setembro 09, 2014

Ella

        
        Na primeira vez que a vi ela me arregalou aqueles olhos muito negros como quem não acreditava no que via. Ao tempo em que parecia extasiada, sorria maliciosa. Eu sorri também, compreendendo o que acontecia. Desde aquele dia, eu não sei que tipo de magia me fez querer tanto aquela moça. Eu sabia que havia reciproca. Eu sabia que um passo meu nos conduziria para um infinito de prazeres. Sonhava como um tolo em ter aqueles braços enrolados nos meus braços, aqueles cabelos caindo nos meus ombros. Por dias, eu nem pensava mais em mim: Era a imagem dela que permanecia gravada na minha memória. Quando parecia sumir, vinha a imagem real. Linda! Linda e livre. Ela expirava tanta liberdade, que às vezes parecia me cortar a carne num só olhar. Como se a cada vez que ela olhasse pra mim, eu me sentisse um pouco mudado pela sua maneira de ver o mundo. Eu torto, estranho, querendo ser o herói da história dela. O que eu não percebi é que ela era a sua própria heroína. Ela não precisava de mim, e talvez isso fosse a parte mais latente na minha paixão. Aquela certeza escancarada de que ela podia mais era das coisas mais apaixonantes. Mas numa tarde escura de outono, ela se foi. Nenhum recado, uma pista de onde estaria, um pedacinho de história que ela quisesse deixar. Nada. Eu não tive tempo de lhe contar sobre os meus devaneios, nem de saber se havia forma de os meus textos passarem do papel amarrotado para a realidade. Ela se foi. Mas o cheiro dela ainda está aqui. E todas as vezes em que puxo o ar mais fundo para sentir, sinto o gosto que ficou do café que eu tomava quando os seus olhos pousaram sobre os meus uma ultima vez. Tive vontade de ter feito uma foto, como fiz tantas vezes, de tantos outros momentos. Queria aquele momento palpável, táctil. E tive. Guardado na memória, lá no fundo de alguma gaveta empoeirada, ela permaneceria. Aquela moça ficaria. Como um encontro que se desfaz com a certeza de que acontecerá de novo, inteiro.

quinta-feira, agosto 28, 2014

Eutimia



Eu o quis por aventura, por atração. O dia amanheceu bonito, e ele segurou a minha mão, dizendo: Te quero hoje de novo. Nós nos beijamos e aquele beijo me pareceu doce. Doce como há muito não sentia. Diferente daquele gosto amargo ao qual eu estava acostumada. E de acostumada que estava, deixei escapar aquele hoje, e outros beijos doces. Só que o beijo doce me queria. Sobre querer eu entendia. Os olhos dele tinham cor de vontade. Os lábios dele, após me beijar (docemente), disseram "fica comigo...". Mas havia aquela minha velha mania de ir embora. Fui. Deixei pedaços de mim, para saber voltar, para ouvi-lo chamar num outro dia. Ouvi. Voz linda de segurança, cheiro bom de homem bem resolvido. Gosto doce. De novo. De novo. De novo. Verbo conjugado na primeira pessoa do plural. Plu-ral. Dessa vez então, foi ele quem foi. Mas me disse "volto", e o meu coração ficou tranquilo. Eu já não podia negar que minha pele tinha inteira o cheiro doce, que eu queria mais. O tempo todo. Todos os dias. Ele era um vício gostoso. O meu doce. Alucinógeno e tranquilizante ao mesmo tempo. Impossível de largar, não havia cura. E a essa altura, ainda que houvesse, eu não faria esforço algum para achá-la.

quarta-feira, julho 09, 2014

Do amor táctil

           
             "Vem viver outra vez ao meu lado
Não consigo dormir sem teu braço
Pois meu corpo está acostumado..."
           
               Quando virou a esquina, Anita prometeu que seria a ultima vez. Sabia que aquela era mais uma das mentiras deslavadas que ela tentava acreditar pra se sentir menos boba. Olhou para o relógio: meio dia. Não era surpresa alguma que ele já estivesse ali, tomando uma coca-cola e lendo um livro qualquer. Um livro que de "qualquer" não tinha nada, ela sabia. Fernando era o melhor para indicar livros, músicas e qualquer coisa que estivesse associada a arte. Ele próprio podia ser perfeitamente associado a arte, sempre.
              Anita vacilou por um instante, quis correr de volta pra casa. Ele nem a havia visto ainda, seria o momento perfeito. Mandaria uma mensagem depois: "Tive que estudar para a prova de psicometria, mil desculpas. A gente se vê qualquer dia!". Já havia dado um passo para trás, quando os bonitos olhos do moço a olharam por cima do livro e dos óculos. Sorriu de canto, e olhou ainda mais fundo nos seus olhos. Ah, aquele sorriso.Um misto delicioso de céu e inferno. Antes de conhecê-lo, Anita nunca acharia que num só segundo poderia sentir alivio e desespero. Fernando era o seu veneno. Fez sinal para ele e foi em sua direção, se esgueirando entre as cadeiras cheias do restaurante em horário de pico.
            - Pensei em te chamar para ir a um lugar mais calmo, mas gosto desse restaurante. Foi aqui que nos conhecemos, lembra?
           Ela balançou a cabeça de maneira afirmativa, ao tempo em que se perguntava porque diabos ele lembrava disso agora.
            - Tomei a liberdade de pedir o seu prato. - Ele disse, com o conhecido sorriso malicioso.
           Anita notou que não havia na cabeça de Fernando espaço para a possibilidade de ela não ir. Notou como era presa fácil dele, como se deixava levar pelos seus encantos. Pregou os olhos na capa do livro que ele lia para não demonstrar a sua insegurança. Fernando não desistia:
           - Este é o livro que te indiquei há dois meses, você leu?
           - Sim. Bom mesmo. Como todas as indicações que você me faz.
          Ele sorriu, triunfante. Fechou "O livro do desassossego", de Fernando Pessoa. E se debruçou sobre a mesa, com as mãos encontrando as de Anita.
          - Me desculpe por sumir de novo. Não sei o que me deu.
          - Você nunca sabe. E sempre some.
          - Mas sempre volto.
          - Um dia, eu é que vou. Sem volta.
         Os olhos dele estavam arregalados. Pôs a mão por trás dos cabelos e enrolou um dos seus cachinhos, como fazia sempre que estava desconcertado. Nunca havia ouvido nada parecido de Anita. Ela era sempre a mesma moça dedicada a ser amor por eles dois.
        - Dessa vez eu prometo ficar.
        - Eu não. - Anita tinha segurança na voz.
      Ele apertou a mão da moça. Num movimento aflito, puxou a cadeira e sentou-se ao lado dela. Beijaram-se mais uma vez. O mesmo beijo quente. A mesma sintonia inegável. Dali, o almoço fluiria leve novamente. O beijo era sempre uma bandeira branca entre qualquer desentendimento dos dois. Talvez porque intimamente entendessem que não dava para lutar contra a magnitude daquele sentimento.
       Horas depois, Anita deitava exausta na cama pequena do quarto de hotel. Fernando tomava um banho, concentrado. Tão concentrado que não pôde ouvir a porta se abrir, nem o barulho firme do salto de Anita. Não pôde ver que ela pegava um táxi em frente ao restaurante onde os dois se conheceram, e olhava para a janela do quinto andar com olhos de nunca mais.

domingo, maio 11, 2014

Mano velho.

Foto por: Chris Arruda
O tempo, embora não volte, também não pára. O tempo é remédio das respirações ofegantes, dos soluços noturnos, dos anseios impossíveis. O tempo tem a mão vagarosa no tirar das máscaras, mas as tira. Essa é uma verdade séria. Me atirem no peito se eu estiver errada, sei que não estou. Vagarosamente, ele vai puxando fio por fio a máscara de pano. Por vezes, são imagens assustadoras as que os olhos descobrem. Pouquíssimo deste mundo dura para sempre. Eu pude ver máscaras que quase achei serem eternas. Mas não eram. O tempo. Sempre tempo, mas nunca o mesmo. Dia desses me questionaram sobre a minha tranquilidade. Ao receber a pergunta de supetão, não respondi. Hoje eu responderia sem pensar muito: É que eu aprendi a entender os feitos do tempo

terça-feira, abril 29, 2014

Aqui.


Eu quero fazer coisa séria com você. Eu quero quarto quente, beijo quente, noite quente. Eu quero lua cheia. Eu quero cuidar de você. Quero fazer teu café da manhã, e me arriscar na cozinha só pra te ver feliz. Melhor ainda: Quero cozinhar com você. Meu menino cheio de dotes que pra ser mais perfeito, cozinha muito bem. Quero te olhar de manhã cedo, enquanto você ainda dorme, e pensar: "não pode ser melhor". Quero aceitar as suas propostas indecentes todas. Quero te arrancar suspiros. Eu quero ouvir contigo aquela nossa música do Chico. Eu quero que você entenda que pode dividir todos os seus segredos comigo, sem precisar mentir. Eu quero ter a tua cabeça no meu seio. Eu quero o seu olhar pidão dizendo que me quer. Eu quero filar a aula da faculdade pra ir pra a sua casa. Eu quero jogar todas as minhas responsabilidades de lado por umas horinhas (o que é que tem?) e descobrir o mundo inteiro sentada da garupa da sua moto. Eu quero assistir aqueles nossos filmes. Você entende o que é isso? Eu estou lhe dando os meus dias, os dias que eu sempre vivi só. Agora eu quero dividi-los. E você me parece perfeito. Vamos? Vamos viver isso? Eu te juro, meu bem, vai ser mágico. Vem cá. Você se lembra de quando me disse que não iria nunca soltar a minha mão? Eu preciso do teu beijo agora. Eu preciso te dizer que eu sou sua menina. E que você é (indubitavelmente) o meu rapaz.

domingo, abril 27, 2014

Sobre dias chuvosos (ou "abril despedaçado")


Ah, esse meu vício desgovernado pelo proibido, pelo impossível! À beira de um ataque de loucura, peço inutilmente em minhas orações qualquer paz, qualquer sorte. Ponho-me a embriagar, permanecer nessa falsa euforia que a embriaguez me dá de mão beijada, de beijo frio, vulgar, sujo. Mas dá. E se tenho, eu vou. Danço em passos de bailarina fracassada sobre as minhas lembranças. Esbarro em sangue, medo. Esbarro em milhares de ‘eus’ que se debatem e se ferem a todo tempo. O gosto é de fim. Do caminho, da estrada, do que queira chamar. Gosto amargo de conhaque. Gosto de esperança morta e de malas prontas para ir a lugar nenhum. Gosto de asas amputadas. Tivesse eu, o dragão do Jorge, a espada da Joana, o grito rouco da Janis. Ah, se tivesse! Mas é nada. Mais, é nada. Nada em todos os cantos, nada estampado nas paredes do meu quarto. Nada emoldurando as minhas fotos na estante. Fica só a lua. Danada de linda, de poética. Fica o meu travesseiro molhado, meu cobertor, minha noite insone e perturbadora. E eu, por não poder me livrar pra sempre de mim mesma e nunca mais me reencontrar.

sábado, abril 26, 2014

Cotidiano.


Ele beijou-me o olho direito.
- Dizem que beijo no olho é beijo na alma. - Disse.
Sorri.
- Dizem que só beija no olho quem ama. - Comentei, beijando-lhe o olho esquerdo.
- Você me ama?
Não respondi. Apenas levantei-lhe o queixo e beijei-lhe o outro olho. Ele sorriu.
Era assim que nós nos amávamos: Intensa e silenciosamente.