domingo, abril 27, 2014

Sobre dias chuvosos (ou "abril despedaçado")


Ah, esse meu vício desgovernado pelo proibido, pelo impossível! À beira de um ataque de loucura, peço inutilmente em minhas orações qualquer paz, qualquer sorte. Ponho-me a embriagar, permanecer nessa falsa euforia que a embriaguez me dá de mão beijada, de beijo frio, vulgar, sujo. Mas dá. E se tenho, eu vou. Danço em passos de bailarina fracassada sobre as minhas lembranças. Esbarro em sangue, medo. Esbarro em milhares de ‘eus’ que se debatem e se ferem a todo tempo. O gosto é de fim. Do caminho, da estrada, do que queira chamar. Gosto amargo de conhaque. Gosto de esperança morta e de malas prontas para ir a lugar nenhum. Gosto de asas amputadas. Tivesse eu, o dragão do Jorge, a espada da Joana, o grito rouco da Janis. Ah, se tivesse! Mas é nada. Mais, é nada. Nada em todos os cantos, nada estampado nas paredes do meu quarto. Nada emoldurando as minhas fotos na estante. Fica só a lua. Danada de linda, de poética. Fica o meu travesseiro molhado, meu cobertor, minha noite insone e perturbadora. E eu, por não poder me livrar pra sempre de mim mesma e nunca mais me reencontrar.

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