quarta-feira, julho 09, 2014

Do amor táctil

           
             "Vem viver outra vez ao meu lado
Não consigo dormir sem teu braço
Pois meu corpo está acostumado..."
           
               Quando virou a esquina, Anita prometeu que seria a ultima vez. Sabia que aquela era mais uma das mentiras deslavadas que ela tentava acreditar pra se sentir menos boba. Olhou para o relógio: meio dia. Não era surpresa alguma que ele já estivesse ali, tomando uma coca-cola e lendo um livro qualquer. Um livro que de "qualquer" não tinha nada, ela sabia. Fernando era o melhor para indicar livros, músicas e qualquer coisa que estivesse associada a arte. Ele próprio podia ser perfeitamente associado a arte, sempre.
              Anita vacilou por um instante, quis correr de volta pra casa. Ele nem a havia visto ainda, seria o momento perfeito. Mandaria uma mensagem depois: "Tive que estudar para a prova de psicometria, mil desculpas. A gente se vê qualquer dia!". Já havia dado um passo para trás, quando os bonitos olhos do moço a olharam por cima do livro e dos óculos. Sorriu de canto, e olhou ainda mais fundo nos seus olhos. Ah, aquele sorriso.Um misto delicioso de céu e inferno. Antes de conhecê-lo, Anita nunca acharia que num só segundo poderia sentir alivio e desespero. Fernando era o seu veneno. Fez sinal para ele e foi em sua direção, se esgueirando entre as cadeiras cheias do restaurante em horário de pico.
            - Pensei em te chamar para ir a um lugar mais calmo, mas gosto desse restaurante. Foi aqui que nos conhecemos, lembra?
           Ela balançou a cabeça de maneira afirmativa, ao tempo em que se perguntava porque diabos ele lembrava disso agora.
            - Tomei a liberdade de pedir o seu prato. - Ele disse, com o conhecido sorriso malicioso.
           Anita notou que não havia na cabeça de Fernando espaço para a possibilidade de ela não ir. Notou como era presa fácil dele, como se deixava levar pelos seus encantos. Pregou os olhos na capa do livro que ele lia para não demonstrar a sua insegurança. Fernando não desistia:
           - Este é o livro que te indiquei há dois meses, você leu?
           - Sim. Bom mesmo. Como todas as indicações que você me faz.
          Ele sorriu, triunfante. Fechou "O livro do desassossego", de Fernando Pessoa. E se debruçou sobre a mesa, com as mãos encontrando as de Anita.
          - Me desculpe por sumir de novo. Não sei o que me deu.
          - Você nunca sabe. E sempre some.
          - Mas sempre volto.
          - Um dia, eu é que vou. Sem volta.
         Os olhos dele estavam arregalados. Pôs a mão por trás dos cabelos e enrolou um dos seus cachinhos, como fazia sempre que estava desconcertado. Nunca havia ouvido nada parecido de Anita. Ela era sempre a mesma moça dedicada a ser amor por eles dois.
        - Dessa vez eu prometo ficar.
        - Eu não. - Anita tinha segurança na voz.
      Ele apertou a mão da moça. Num movimento aflito, puxou a cadeira e sentou-se ao lado dela. Beijaram-se mais uma vez. O mesmo beijo quente. A mesma sintonia inegável. Dali, o almoço fluiria leve novamente. O beijo era sempre uma bandeira branca entre qualquer desentendimento dos dois. Talvez porque intimamente entendessem que não dava para lutar contra a magnitude daquele sentimento.
       Horas depois, Anita deitava exausta na cama pequena do quarto de hotel. Fernando tomava um banho, concentrado. Tão concentrado que não pôde ouvir a porta se abrir, nem o barulho firme do salto de Anita. Não pôde ver que ela pegava um táxi em frente ao restaurante onde os dois se conheceram, e olhava para a janela do quinto andar com olhos de nunca mais.